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segunda-feira, abril 20, 2009

Stan Brakhage e a fragilidade da beleza

Stan Brakhage e a fragilidade da beleza

Foi extraordinária essa oportunidade oferecida pela Caixa Cultural para (re)ver a obra de Brakhage, em película 16mm. Ver sua obra em película, no caso de Brakhage, torna-se fundamental, não apenas pelo “purismo cinéfilo” de ver as obras “como elas foram concebidas”, mas especialmente porque um dos pontos centrais da obra de Brakhage é o seu trabalho com a luz. Devemos notar que Brakhage sempre foi resistente a filmar em película. Apesar de suas produções serem todas absolutamente independentes, ele sempre foi relutante ao vídeo e, ao contrário, ao final da sua vida, migrou para a película 35mm e não para o suporte digital. Com isso, temos um indicativo que, cada vez mais, era central para Brakhage um sentido pictórico da imagem. Não que isso em si mesmo fosse a busca central de sua filmografia, que, para mim, conceituo como uma certa busca por uma “filosofia metafísica da natureza”, mas que permanece como elemento constante e fundamental.

Tendemos a ver, a primeira vista, o cinema de Brakhage como uma aproximação maior às artes plásticas em relação a toda uma tradição cinematográfica essencialmente mimética. Mas no fundo essa discussão mais oblitera do que “ilumina” os objetivos de Brakhage. Decerto que, como vemos em suas entrevistas, Brakhage sempre apontou seu descontentamento com os filmes hollywoodianos e os rumos da narrativa clássica – em que vemos em sua síntese cristalina sua opção radical pelo silêncio absoluto – o que o insere num conjunto de realizadores de sua época, como Jonas Mekas, Gregory Markopoulos, Maya Deren, e etc., especialmente por ocupar um certo espaço rotulado de uma “vanguarda cinematográfica novaiorquina”. No entanto, seu trabalho com os elementos da linguagem cinematográfica aponta para além de um trabalho estrito no campo das artes plásticas. Nesse aspecto, Brakhage sem dúvida foi um pioneiro, dialogando por um lado mesmo com as artes plásticas (os quadros de Pollock) mas também intitulando alguns de seus filmes silenciosos como movimentos musicais (por exemplo, Divertimento).

Os filmes de Brakhage também nos resgatam uma idéia de poesia, com versos lúdicos de cores e tons que buscam um sentimento mais que a estrutura de uma narrativa. No entanto, sua poesia é densa, complexa, com um enfoque muito menos lírico em si do que brutal. A obra de Brakhage encampa esse universo místico, uma cosmogonia que remete à própria criação da obra de arte, gênese do processo criativo do artista. Filmar para Brakhage é como nascer, e nascer para Brakhage é um ato de prazer e dor, redenção e agonia; nascer é também morrer. Brakhage então filmou, com paciência quase oriental, a dor e o terror de nascer e renascer, a cada dia e a cada filme. A montagem, nesse sentido, ocupa um papel fundamental: de um lado, parte dessa combinação de ritmos, texturas e cores, parte de uma composição formal; por outra, visceralidade e necessidade, conflito de pulsações que não conseguem permanecer adormecidas e eclodem rompendo os fotogramas da película.

O primeiro filme em que Brakhage encontra sua linguagem típica é Anticipation of the night. Este filme já começa singular por um motivo pré-fílmico. Quando Brakhage o filmou, ele pensava em se suicidar, e queria deixar o filme como uma espécie de testamento. Mas durante o processo do filme, sua realização em si mesma o fez desistir de idéia. Daí a forma enigmática, sombria, quase doentia do filme, e essa oscilação particular entre a vida e a morte, entre a luz e a sombra, entre o cinema e a vida, tão particulares na obra do realizador. Filmar como se não houvesse mais nada a ser feito, filmar cada fotograma como se fosse o último. O cinema como agonia, como pranto e como redenção.

Radicalidade de um cinema acentuada pela opção de um silêncio absoluto, da primazia do visual sobre o audível, ocupação de um mundo repleto de um silêncio ensurdecedor. É muito curioso pensar que Brakhage defendia que seus filmes fossem vistos em casa por um espectador sozinho diante de uma tela. O cinema de Brakhage não deixa de ser um ato de confissão, coberto pelo silêncio e pela solidão, mas ao mesmo tempo é ato de encontro, potência, encontro místico. Quando assistimos aos filmes de Brakhage coletivamente, num cinema como o da Caixa Cultural, entramos numa outra experiência, um espaço-tempo diferente tanto do nosso mundo comum quanto da própria experiência cinematográfica comum: entramos numa espécie de transe, numa “suspensão dos sentidos para embarcar numa ultra-sensibilidade dos sentidos”. Não é à toa que um dos espectadores, irritado com sua necessidade de permanecer em silêncio, reclamou que “aquilo ali parecia uma igreja”. É isso mesmo: os espectadores atentos de Brakhage parecem entrar numa espécie de seita, que a experiência pseudo-participativa do mundo contemporâneo não parece mais permitir.

Mas quando aponto esses aspectos sombrios e brutais da obra de Brakhage não quero dizer que seus trabalhos não ressoem uma beleza. Ao contrário, seus filmes são poemas visuais que inebriam os olhos, através de uma técnica mista que combina diversos elementos: escrita fisicamente sobre a película (através de vários materiais, como pincéis, objetos pontiagudos, ou espalhados pela própria mão), sobreimpressões, fusões, imagens filmadas, imagens de arquivo, etc. No entanto, essa poesia é sempre frágil, o mundo está quase sempre pronto a desmoronar no próximo fotograma. É a partir da fragilidade da beleza que Brakhage constrói sua metafísica cosmogonia da natureza do ser.

Talvez por isso sua obra máxima, mais ambiciosa, seja Dog Star Man, até mesmo pela duração (75 minutos, mas que pode se tornar mais de quatro horas, se virmos The Art of Vision, que combina de formas diferentes os episódios de Dog Star Man através de sobreimpressões dos mesmos). Nesse filme há um fiapo de narrativa, um homem subindo uma montanha. Mas o ato de subir a montanha acaba se revelando como um espelho de diversas buscas de Brakhage, tanto no sentido formal (as texturas entre neve, céu e elementos da natureza, como folhagens ou troncos de madeira) quanto no sentido metafísico (a luta do homem contra a natureza e contra seus próprios limites, a busca por um sentido de vida, a busca por domar nossos instintos em busca de uma racionalidade). Aqui, ao contrário de Anticipation of the light, o filme redunda em um fracasso. Não num fracasso estético, mas sim no fracasso desse homem em olhar para si mesmo, em superar seus limites. Neste pêndulo entre fracasso e redenção, entre formalismo e metafísica, a extensa obra de Brakhage é um grande testamento aos desafios da arte em fazer-se viva.

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