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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, julho 30, 2009

Texto obrigatório! Leiam!
Os "alumbrados" e o cinema contemporâneo cearense
http://www.revistaetcetera.com.br/24/sessao_cinema/index.php

terça-feira, julho 28, 2009

El Cant dels Ocells

O Canto dos Pássaros
de Albert Serra
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Fui para gostar mas convenhamos que Serra exagera na dose em O Canto dos Pássaros. Exagerar na dose não é nem problema pelo menos para mim: o problema principal é que a questão é mesmo a da provocação explícita, o que não é a minha praia. Mas há muitos méritos por trás do pas-de-scandale (oh!) pretendido pelo diretor: o lindo plano em que os três magos caminham ao largo até encontrar um punhado de luz que talvez seja o caminho, o outro em que finalmente ouvimos a música que intitula o filme. E, claro, uma concepção fotográfica, um sentido do preto-e-branco arrebatador, uma enorme solidão que rege o caminho desses três reis magos que parecem patetas bufões e uma enorme certeza na importância desse mesmo caminho. A dessacralização da história bíblica mas sem realismo descritivo, mantendo uma monumentalidade mas estranha, atípica, como se fosse um “franciscanismo estilizado” sem ser pré-rafaelita, um “barroquismo medieval”, ou uma mistura estranha de Caravaggio com Fra Angelico. Também um certo olhar de homenagem ao cinema de Straub, em como esses personagens se relacionam com esse espaço físico (Moisés e Aarão, por exemplo). Imagens que ficam para sempre na nossa cabeça, uma coragem imensa, um cinema instigante. Mas irregular, imaturo, que se deixa perder por bobagens no meio desse caminho, ao invés de se concentrar no essencial. Ainda assim enormemente válido, um sopro de vitalidade. Preciso ver Honor de Cavalleria.

Serbis

Serbis
Brillante Mendoza
**


À parte o meu preconceito em relação ao tipo de filme que Brillante Mendoza contrói – uma espécie de Cláudio Assis filipino, se bem que melhorado – é preciso dizer que Serbis não é nada desprezível. Ao que se propõe, faz com uma clareza até certo ponto surpreendente. Mendoza olha para um submundo – uma família que subsiste em torno da atividade de um decadente cinema pornô – mas domina os recursos (às vezes cacoetes) de um certo cinema contemporâneo, como já no primeiro plano fica claro, uma bela sequência de uma adolescente nua se olhando no espelho em meio a flares, reflexos de luz e outras fagulhas de luminosidade. Em seguida, diversos planos longos da trajetória dos personagens que nos dão a ver a geografia física, decadente e sinuosa, das escadarias do cinema, e que também são uma espécie de lar para essas pessoas (o acolhimento do repulsivo sem julgar é uma das principais características do filme). A decadência desse cinema não tem uma elegância nostálgica como em Goodbye Dragon Inn: aqui mergulhamos nesse submundo e no dia-a-dia cheio de pequenos afazeres dessa família que tenta se virar para sobreviver. É certo que Mendoza quer explorar uma certa miséria através de um certo esteticismo berrante – e isso me incomoda um tanto no filme: cabras no cinema, furúnculos, cartazes grotescos, recursos estilizados, sexo, etc. E nisso parece uma certa aberração de filmes como O Pântano, que querem a partir de um caos apresentar um certo atraso de todo um estado de coisas. Mas para além desses cacoetes, Mendoza sabe construir um cinema leve de climas e pequenas modulações para além do mero estereótipo (exemplo é a beleza da criança brincando entre os gays do cinema pornô), sabe às vezes construir um certo olhar delicado, uma certa admiração implícita por esse submundo decadente que o atrai, essa certa atmosfera kitsch. Estilhaços de breves narrativas que se entrecruzam sem que necessariamente formem um todo articulado, como fica claro no final do filme, adequadamente fragmentado, em que, num recurso chupado de Corrida Sem Fim, o negativo estoura, e percebemos que se trata de um filme dentro do filme, um arroubo de homenagem irônica a essa magia peremptória do cinema, breve mas fulminante.

segunda-feira, julho 27, 2009

Mongol

O Guerreiro Genghis Khan
de Sergei Bodrov
*

Épico que recria a vida do grande guerreiro mongol Gengis Khan. Bodrov realiza uma grande co-produção internacional com grandes méritos em relação à artesania técnica: cenas de batalha, fotografia deslumbrante, etc. No entanto, sua intenção é fazer uma biografia bastante convencional, misturando um tom tipicamente épico com uma grande história de amor, com um tom completamente ocidentalizado, conforme fica claro pela indicação do filme ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ficamos pensando porque um filme como esse não está num Cinemark, e sim nos cinemas do Estação: provavelmente por não ser falado em inglês, por não ter um ator famoso e por envolver uma “história exótica” “como a dos mongóis”, não sendo assim “mero entretenimento” (haja aspas). Apenas por isso, pois na forma como Bodrov conta essa história, o filme é completamente convencional (talvez fora o fato de Khan ter aceitado um filho bastardo). Bodrov romantiza excessivamente a postura do sanguinário Genghis Khan, focando mais na história de amor do que no seu lado estrategista e até mesmo no lado histórico da formação da consciência do povo mongol. Outro problema do filme é que ele parece ter sido filmado para uma duração de 3 horas e depois os produtores resolveram cortar para 125 minutos para facilitar seu lançamento comercial: o filme possui diversas elipses muito abruptas, verdadeiros saltos que ficam sem explicação ou desenvolvimento adequado. Enfim, uma produção internacional competentemente realizada mas falsa, estereotipada. Mas o que salva o filme do mero “manual velho de biografias filmadas” é a estonteante atuação de Tadanobu Asano, grande ator japonês que já trabalhou com Kitano, Aoyama (especialmente) e Kiyoshi Kurosawa, entre outros. O ponto é que diante do grande desafio de encarnar uma personalidade nada trivial como Genghis Khan e diante da grande opulência de produção do filme, Asano genialmente optou pelo mais simples, e conseguiu dar o único sopro de vida, de verdade, nesse filme de ambições modestas (apesar de monumental). Asano revestiu o grande Khan com uma grande serenidade, fora de todos os cacoetes dos grandes líderes, e mesclando com cenas de grande ação física (as cenas de batalha) preencheu os tempos de pausa do filme com um enorme olhar humano, cheios de uma perseverança e de uma sabedoria (inclusive sobre o ofício do ator) que é de emocionar. O Khan representado por Asano é guerreiro e sábio, “astuto como lobo”, aquele que sabe ouvir e sabe falar, quando necessário. Asano sozinho consegue alimentar inesperadamente um filme de alma vazia, mas que ainda assim possui bons momentos (o trovão e "quem escolheu quem" por exemplo).

Il y a longtemps que je t'aime

Há Tanto Tempo que Te Amo
De Philippe Claudel
0 ½

Co-produção franco-alemã exibida na competitiva do Festival de Berlim no ano de Tropa de elite, dá uma ideia porque o filme brasileiro foi vencedor. O argumento a princípio me soa interessante: um drama familiar intimista sobre duas irmãs que se reencontram após 15 anos quando uma delas sai da cadeia, condenada por ter assassinado seu próprio filho. Drama, família, morte: temas que me interessam. A questão é que Philippe Claudel resolve tudo (roteiro e mise en scene) de uma forma um tanto óbvia, fechando todos os vértices da equação, explicando ao final porque a mãe matou o filho e tentando o tempo todo no filme “justificar” seu desfecho final, “humanizar” essa mãe no mau sentido (isto é, colocá-la como injustiçada, sofredora solitária, vítima do destino, incompreendida). Visualmente o diretor resolve sempre tudo no diálogo e joga pros atores, com a única exceção de uma cena de jantar aos 33 minutos de filme, resolvida com um plano-sequência criativo, com uma movimentação ágil de câmera e dos diversos personagens em cena. Kristin Scott Thomas, a liberta, encarna sua personagem com um estilo sóbrio que dá ao filme um inesperado sopro de vitalidade. Mas no fim (especialmente no final, um final bastante burocrático) Claudel faz um rame-rame correto, sem riscos, o que evidentemente se distancia de tudo o que o bom cinema busca, especialmente o cinema intimista de situações extremas, como a que o filme tenta se aproximar, mas torna tudo falso, artificial, sem vida.