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Cinecasulofilia

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terça-feira, julho 28, 2009

Serbis

Serbis
Brillante Mendoza
**


À parte o meu preconceito em relação ao tipo de filme que Brillante Mendoza contrói – uma espécie de Cláudio Assis filipino, se bem que melhorado – é preciso dizer que Serbis não é nada desprezível. Ao que se propõe, faz com uma clareza até certo ponto surpreendente. Mendoza olha para um submundo – uma família que subsiste em torno da atividade de um decadente cinema pornô – mas domina os recursos (às vezes cacoetes) de um certo cinema contemporâneo, como já no primeiro plano fica claro, uma bela sequência de uma adolescente nua se olhando no espelho em meio a flares, reflexos de luz e outras fagulhas de luminosidade. Em seguida, diversos planos longos da trajetória dos personagens que nos dão a ver a geografia física, decadente e sinuosa, das escadarias do cinema, e que também são uma espécie de lar para essas pessoas (o acolhimento do repulsivo sem julgar é uma das principais características do filme). A decadência desse cinema não tem uma elegância nostálgica como em Goodbye Dragon Inn: aqui mergulhamos nesse submundo e no dia-a-dia cheio de pequenos afazeres dessa família que tenta se virar para sobreviver. É certo que Mendoza quer explorar uma certa miséria através de um certo esteticismo berrante – e isso me incomoda um tanto no filme: cabras no cinema, furúnculos, cartazes grotescos, recursos estilizados, sexo, etc. E nisso parece uma certa aberração de filmes como O Pântano, que querem a partir de um caos apresentar um certo atraso de todo um estado de coisas. Mas para além desses cacoetes, Mendoza sabe construir um cinema leve de climas e pequenas modulações para além do mero estereótipo (exemplo é a beleza da criança brincando entre os gays do cinema pornô), sabe às vezes construir um certo olhar delicado, uma certa admiração implícita por esse submundo decadente que o atrai, essa certa atmosfera kitsch. Estilhaços de breves narrativas que se entrecruzam sem que necessariamente formem um todo articulado, como fica claro no final do filme, adequadamente fragmentado, em que, num recurso chupado de Corrida Sem Fim, o negativo estoura, e percebemos que se trata de um filme dentro do filme, um arroubo de homenagem irônica a essa magia peremptória do cinema, breve mas fulminante.

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