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segunda-feira, agosto 10, 2009

Le Streghe – Femmes entre elles

Le Streghe – Femmes entre elles
de Jean-Marie Straub
***

É difícil tentar explicar para o outro o encantamento em assistir a um filme como Le Streghe – Femmes entre elles. Trata-se de um filme feito em um único espaço físico, em praticamente três planos (na verdade ao final há mais três): um plano geral com duas mulheres, entrecruzado de forma razoavelmente breve com um plano mais fechado de cada uma separadamente, sempre de forma frontal. Dito assim, o filme – um curta de vinte minutos – pareceria o “vovô viu a uva”, a gramática mais elementar do cinema: um plano de conjunto e dois planos mais próximos, especialmente em se tratando de um “diálogo”. As duas atrizes recitam, de forma pomposa, sem nunca dirigir o olhar uma à outra, uma obra literária: o primeiro dos Diálogos com Leucó, de Cesare Pavese. As atrizes não se movem, raramente mexem o pescoço e os olhos: o filme a princípio soaria extremamente acadêmico, mistura de teatro filmado e leitura pseudo-dramatizada (o termo “drama” de fato não se encaixa aqui). De onde surge então o maravilhamento diante dessa pequena obra:::

É difícil tentar explicar. Provavelmente porque trata-se de uma obra de Jean-Marie Straub. Assistir a um filme de Straub é participar de um pequeno mistério, uma espécie de milagre improvável, uma anunciação inesperada, que diante dos nossos olhos, custamos a crer que de fato estamos diante dessa iluminação breve que nos arrebata e nos transforma. Os (verdadeiros) admiradores do cinema de Straub fazem parte de uma espécie de seita, estranha, indizível. Diante dos filmes de Straub – e esse é um típico filme de Straub – vivenciamos um assombro: como algo pode ser construído com tamanho rigor e persistência::: como um poema tão afável pode surgir de uma estrutura tão rígida e pesada:::

Provavelmente porque trata-se de uma obra de Jean-Marie Straub, e do fato de que já vimos um sem-número de obras de Straub que trabalham com esses temas: a tonalidade e a impostação das vozes brancamente musicais, a solidez dos corpos, a natureza (o que se move são as nuvens, no extracampo, o que provoca mudanças de luz, e algumas vezes as folhagens, que compõem uma espécie de painel arcaico), as panorâmicas no final (aqui são meias-panorâmicas), o som das águas de um riacho, a adaptação de trechos de uma obra de Pavese. Cada elemento em seu próprio lugar, formando uma espécie de estrutura arquitetônica em que o movimento de um único tijolo certamente provocaria o desmoronamento do todo, ou ainda, um enorme bloco de concreto equilibrado sobre um pequeno galho retorcido. Gesto solitário, um tanto romântico, mas de enorme obstinação, de uma perseverança nas possibilidades do cinema, uma “invenção sem futuro”. O que me comove (co-move) nas obras de Straub é repetir esse gesto na escuridão, mas ainda assim definir a força e o rigor desse gesto é algo difícil de tentar explicar para aqueles que não vivem o cinema de uma forma muito singular, muito particular, muito característica.

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