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Cinecasulofilia

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quarta-feira, setembro 30, 2009

(FestRio) Os Famosos e os Duendes da Morte

Os Famosos e os Duendes da Morte
de Esmir Filho
Odeon seg 28
***


Nesse sentido, foi mágico que o primeiro filme que consegui assistir nesse Festival do Rio tenha sido um filme brasileiro, um filme de estreia, o primeiro longa do Esmir Filho. Confesso que estava um tanto ressabiado porque vejo um conjunto de restrições em seus curtas-metragens (cheguei a escrever sobre isso aqui). Mas sei, por outro lado, que se trata de um diretor talentoso e que poderia render um bom potencial. Os Famosos e os Duendes da Morte (mesmo com esse título esdrúxulo), é um filme surpreendente porque comprova a maturidade do diretor, como se ele superasse várias das deficiências dos seus curtas-metragens, ainda que seu primeiro longa seja um trabalho em nítida continuidade com seu percurso anterior. Tento me explicar melhor. O que mais me incomoda em seus curtas anteriores (Ímpar Par, Alguma Coisa Assim, e, em maior grau, em Saliva) é que Esmir utilizava um trabalho de excelência técnica e domínio plástico como uma busca pelas superfícies da imagem, mostrando um certo exibicionismo publicitário e uma certa futilidade na abordagem de seus personagens jovens. Os Famosos e os Duendes da Morte não deixa de apresentar uma continuidade em relação a seus projetos anteriores, na busca por um cinema sensorial, pelo olhar em relação aos dilemas da adolescência, mas aqui impressiona que o diretor tenha demonstrado a sabedoria que seu domínio técnico fosse empregado não como um fim em si mesmo mas como uma forma de olhar um mundo. Nisso é incrível como parece que pela primeira vez Esmir tenha se mostrado capaz de observar para filmar, e não simplesmente filmar. Ao mesmo tempo em que o filme possui um domínio plástico, ele humaniza esse registro, inclusive incorporando de forma criativa diferentes tipos de bitola, relativas a imagens filmadas pelo próprio personagem. Esmir avança quando compreende que seu “cinema sensorial”, mais do que simplesmente ser um exercício de domínio técnico, é um meio para se aproximar de seu personagem, criando seu mundo interior a partir de recursos cinematográficos (imagens e sons). Nisso o trabalho de fotografia de Mauro Pinheiro Jr. parece ter sido fundamental, o que só comprova que Mauro é talvez o maior fotógrafo da atualidade no cinema brasileiro. Ainda, parece fantástico como o filme possui tempos mais largos: quem imaginaria Esmir Filho filmando uma linda sequência como a que mostra o protagonista andando para ir à escola e seu melhor amigo andando de bicicleta em círculos em torno dele (num plano frontal, sem enfeites, em plano-sequência)? Ou a forma bonita como Esmir Filho consegue deixar a câmera na expressão do avô do protagonista, usando com sabedoria o silêncio, o não-dito, o abismo e a proximidade entre esse neto e esse avô? Ou ainda, como o som é usado de uma forma incrível.

Como é incrível ver que diante do desafio de fazer um primeiro longa – com a expectativa que envolvia, com a grana da Warner, etc – Esmir Filho buscou um caminho de continuidade em relação a seus curtas mas avançando em relação às questões de fundo, às questões de fato. Como é incrível ver que diante desse desafio, Esmir não se acovardou e fez um filme corajoso, coerente, um filme difícil de ser realizado, até porque possui oscilações, mudanças de ritmo e de tom, modulações não muito triviais, especialmente entre um tom mais realista e um tom mais onírico, entre os quais o filme oscila com bastante segurança. Fez um filme arriscado, corajoso, pessoal e coerente. Um filme íntimo, bonito, delicado. O que se pode pedir mais para um primeiro filme?

Por fim, é interessante perceber como, de uma certa forma, Esmir retoma um certo cinema proposto pela Casa de Cinema de Porto Alegre, cujo diálogo é impossível não citar, até porque a própria Casa de Cinema participou no trabalho de produção do filme. Mas enquanto os filmes da Casa de Cinema que buscavam um certo olhar semelhante (Verdes Anos, Deu Para Ti, até mesmo os mais recentes como Meu Tio Matou um Cara) tiveram como referência um cinema de corte mais clássico e um diálogo mais amplo com o público, Esmir buscou um diálogo com o cinema contemporâneo, com um cinema mais afeito a sensações e climas do que com uma decupagem tipicamente clássica. É como se Esmir Filho dialogasse com o American Graffiti não necessariamente bebendo diretamente da fonte mas mediado por como cineastas como um Gus van Sant ou Wes Anderson foram influenciados por esse mesmo filme.

Com isso, Esmir Filho faz uma notável estreia no longa-metragem, realizando um dos mais bonitos filmes brasileiros já feitos que dialogam com um universo adolescente.

(FestRio) Parte 0: Um Prólogo: Lentidão

Vocês devem ter reparado que esse blog tem mostrado uma certa lentidão em acompanhar o frenético ritmo do Festival do Rio. Lembro bem que em outros anos, no primeiro dia do Festival, já havia pelo menos cinco críticas escritas e postadas no meu então site – e isso chegava a criar ciúmes na “concorrência”, que achava absurdo uma pessoa sozinha escrever mais que um grupo reunido, o que logo era replicado que era porque eu escrevia mal, de forma torta. Hoje considero isso como um elogio, e acho graça desses quiproquós juvenis. Não que hoje eu me ache mais maduro, ou menos juvenil. Não mesmo. Mas hoje não sinto mais a necessidade – física até – de estar “atualizado” com o que está sendo exibido no maior festival de cinema do Rio de Janeiro. Não tenho essa motivação. Perscruto de longe, de soslaio, (aliás mesmo naquela época sempre observei tudo com uma certa distância) as conversas dos jovens críticos ou cinéfilos, listando as próximas dezenas de filmes a serem vistos. Vejo isso com uma certa nostalgia mas com um certo alívio. Pois hoje nutro uma certa desconfiança em relação a esse consumo frenético de bens culturais, mas me lembro de que essa pode ser uma necessidade íntima e verdadeira, e não necessariamente exibicionista.

Particularmente neste ano o Festival me pega num momento em que estou cansado e com outras preocupações. Numa fase em que ando repensando a vida e minhas próprias motivações. Mas exatamente nesse momento os poucos filmes que tenho visto tem me dado a oportunidade de refletir sobre o significado de tudo isso. O cinema possui esse aspecto mágico, que para mim sempre foi no fundo a minha grande motivação em conhecer mais o cinema: a possibilidade de ver um filme como um espelho íntimo do mundo, em que no fundo é possível ver a si mesmo espelhado, como se fosse um reflexo de si mesmo, como um outro que é uma dobra de nós, e que, por sua vez, também se dobra para dentro de nós. Essa inflexão é um encontro com o outro, sempre, mas é como se esse outro fosse numa certa medida uma dobra de nós mesmos.

Os textos que escrevo são essencialmente um prolongamento desse encontro, um encontro comigo mesmo, um encontro com o outro. Encontro este que, a partir desse prolongamento, pode gerar outros e novos encontros, que se desdobram e se multiplicam, ainda que não saibamos exatamente que espécie de encontros eles irão gerar. Desdobramentos que fogem do nosso controle, cujos efeitos não são programados, são indizíveis. Prolongamentos maiúsculos ou minúsculos, dependendo de como são vistos. Dessa forma, penso esses textos como gestos, como mensagens lançadas dentro de uma garrafa num mar quase sempre sereno, aparentemente indiferente. Esse gesto implica que não estou sozinho, porque quando lanço essas mensagens parto do princípio que existe um outro, ainda que esta garrafa não necessariamente encontre algum interlocutor. Não me preocupo com isso: preocupo-me mais com a importância desse gesto. Não me importar com isso não significa que não me importe com esse interlocutor (muito pelo contrário), mas que a validade desse gesto não depende exclusivamente da extensão do seu recebimento.

Mas aqui confesso que estas linhas acabam se contaminando com o que penso para os meus próprios filmes, o que vai além do que sinto pulsar quando escrevo os meus textos neste blog. Escrevo de forma solitária exatamente para afirmar que não estou sozinho. Mas estou me desviando do meu tema principal. O que quero dizer é que nesta época de cansaço tenho cruzado com poucos filmes neste Festival do Rio mas que me fazem reavaliar, em maior ou menor grau, o que penso e sinto em relação ao cinema e à vida. E como é bom ter a oportunidade de cruzar com filmes que nos digam tanto, de forma verdadeira e generosa, a respeito de algumas das dificuldades, algumas das questões, alguns dos desafios que passam pela tarefa nada trivial de tentar “dizer algo”, “comunicar algo”, “expressar algo”, que possa ter algum sentido nesse mundo dominado pelas superfícies, pelas aparências, pelas futilidades, pelo domínio do automatismo, da intolerância e da intransigência.

Quando vejo alguns desses filmes, me sinto menos despreparado para tentar enfrentar o enorme desafio que é estar no mundo.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Viver a Vida (I)

Há algo de interessante nas novelas do Manoel Carlos, algo que me seduz. Já escrevi sobre o primeiro capítulo de sua novela anterior aqui. Nessa nova – Viver a vida – é incrível sua coerência, e são vários os paralelos. Essa novela começa com as belezas de Búzios que, pouco a pouco, vão sendo relativizadas. Primeiro um engarrafamento. Segundo, uma mulher histérica que quer saltar de um carro. Outra que pára um trânsito (a filha da anterior) e quase causa um acidente. Outra bebe. Outra fala publicamente que o marido é brocha. Outra xinga a modelo que tem inveja porque no fundo tem inveja dela. As coisas não vão bem: há algo de desconfortável por trás das belas (horrendas) imagens do Jayme Monjardim e da trilha à la bossa nova. Manoel Carlos é o nosso Douglas Sirk. Algo não está nada bem nesse mundo superficial. A filha quer se afastar da mãe porque quer recusar o fato de ser tão parecida com ela, não quer olhar de frente para a possibilidade quase inevitável de ter o mesmo destino que ela (o de ser uma “ex-miss”). A tal Helena tem uma família invejável mas uma irmã quase marginal porque provavelmente não agüenta conviver com tanta perfeição. O clima de beleza das misses é externo, por trás há a ganância, a competitividade, os egos. A reportagem de televisão que grava tudo mas não vê nada, nada do que está acontecendo. Aparentemente o mesmo clima fútil e superficial das “novelas passadas no Leblon” ,mas um olhar mais atento revela um exame duro, cínico, sobre as contradições da classe média alta brasileira, especialmente a futilidade do modo de vida carioca. E no fim, para confirmar a sua coerência, ele caga para os críticos e repete o recurso da entrevista no final, mesmo sabendo que é discutível. Aguardemos com interesse os próximos capítulos.

domingo, setembro 06, 2009

outros

A Mulher que chora, de Jacques Doillon **½
A Mulher Sem Cabeça, de Lucrecia Martel **
Nanayo, de Naomi Kawase *
Nome Próprio, de Murilo Salles ***

Benzedeiras de Minas, de Andrea Tonacci **
Uma Encruzilhada Aprazível, de Ruy Vasconcelos ***


Não sei se vou conseguir escrever sobre esses filmes, já que os vi há algum tempo. Então escrevo breves notas aqui apenas como registro.



Nanayo, de Naomi Kawase *
Kawase está começando a apontar para um esgotamento, o que já era visível em Floresta dos Lamentos. Nanayo tem momentos bonitos, é delicado como todo filme da Kawase, mas o problema aqui é que ao mesmo tempo quase parece um pastiche de si mesmo. É um dilema: o cinema de Kawase é feito no fio da navalha, com um fiapo, e aqui se vê a fragilidade do roteiro (seus filmes anteriores, mesmo os docs eram muito mais amarrados em termos de narrativa, enquanto este é bem mais livre, mais arriscado portanto). Trechos copiados de seus filmes anteriores (o pé na lama de Floresta dos Lamentos, mais outra festa como em Shara). Há algo interessante sobre a comunicação, que acontece não no nível da língua mas no dos sentidos, mas Kawase parece não conseguir explorar nada além do que alguns meios cacoetes dentro de um suposto “cinema sensorial” que ela já domina (um território conhecido) mas que aqui incrivelmente mostra uma certa dificuldade, talvez pela presença de uma nova diretora de fotografia e câmera, que parece um tanto desconfortável com tudo. Não chega a ser ruim mas em termos de Kawase, seu trabalho mais frágil.

Benzedeiras de Minas, de Andrea Tonacci **
Esse média-metragem, vencedor de um edital do etnodoc, é o primeiro trabalho de Tonacci após o Serras da Desordem, registrando as tradições das benzedeiras em Minas Gerais, uma tradição que se esvai com “os avanços da medicina”. É um filme bastante modesto, tipicamente não é um trabalho pessoal do diretor, mas ainda assim nota-se sua força criativa nos primeiros dez minutos, num trabalho absolutamente impressionante na montagem, especialmente pelo uso extremamente criativo das fusões. Elemento que, ainda assim, não surpreende a quem conhece seus documentários do início dos anos noventa quando o diretor experimentava com o vídeo, e mesmo na parte inicial de Serras da Desordem. Mas ainda assim, esses dez minutos mostram o primoroso trabalho de montagem de Tonacci com sua costumeira parceira Cristina Amaral.

Uma Encruzilhada Aprazível, de Ruy Vasconcelos ***
Esse DocTV está na origem do cinema que atualmente vem sendo feito no Ceará, junto com Vilas Volantes. A sensibilidade de Ruy, a fotografia de Ivo Lopes Araújo, um olhar para o documentário que escapa do narrativo para buscar um mergulho poético, a fuga do Nordeste de sempre, as referências a um cinema refinado (por exemplo Regen, de Joris Ivens), a radicalidade, tudo já está ali neste filme, infelizmente condenado ao esquecimento.

A Mulher Sem Cabeça, de Lucrecia Martel **
Martel tem sido um pouco superestimada, tendo-se em vista sua filmografia com três filmes. Não é que seja ruim, ao contrário, O Pântano, é de fato um grande filme, mas seus dois filmes posteriores, revelam uma cineasta coerente mas nada extraordinário. A Mulher Sem Cabeça é inteligente e instigante. É centrado na questão da memória, e desenvolve com coerência elementos sobre o enquadramento e uso do som. Gosto bastante dos primeiros dez minutos, especialmente do tal acidente com o cachorro. Gosto de outras partes. Mas como um todo soa desigual. Bom mas nada demais. Em se tratando de Martel uma pequena decepção.

A Mulher que chora, de Jacques Doillon **½
Primeiro filme que vejo dirigido por Doillon, que também é ator e faz um filme tipicamente francês, um “filme de câmara”, centrado na doçura e nas dificuldades de um relacionamento amoroso, ou ainda, como o amor é sublime mas ao mesmo tempo pode ser doentio. Extremamente delicado e todo trabalhado para os atores, quase como se fosse um “Cassevetes do cinema francês” (muito mal comparando). Uma mulher fica transtornada quando seu marido a deixa para ficar com outra. A forma como Doillon filma as pessoas, especialmente as crianças, dá ao filme uma lufada de vida, geralmente impressionante e emocionante. Quero ver mais coisas de Doillon, mas por esse achei bem positivo.

Nome Próprio, de Murilo Salles ***
Gostei bastante do filme, a ponto de achá-lo um dos melhores filmes brasileiros de ficção dos últimos tempos. É um filme forte, tenso, que incide na relação entre o processo de criação e a vida, em até que ponto a vida se alimenta do processo de criação, e vice-versa, e até que ponto essa relação é saudável ou doentia. “Escrever é viver, e viver é escrever”. Então tudo faz muito sentido que essa autora seja uma escritora de um blog, e todo o filme – um filme jovem – é centrado na sua dificuldade de ter um relacionamento estável, nas expectativas que ela cria para si mesma em cada pessoa que encontra, em cada situação que encontra, pois ela “está condenada a viver demais”, sofrendo por isso. Ao mesmo tempo, Salles não tem uma visão idealizada da personagem, que não raras vezes tem ações condenáveis, isto é, não é uma heroína nem martirizada. Leandra Leal tem uma atuação formidável, com grande impacto emocional e físico, um dos mais viscerais trabalhos de entrega de uma atriz que eu já vi em muito tempo no cinema brasileiro. Além disso, me agrada muito que mesmo tratando de um certo “submundo moderninho”, Salles resistiu a alguns cacoetes, especialmente no uso do digital e na câmera na mão, fazendo um filme sóbrio, fragmentado, obsessivo mas sem as firulas de um Moodysson, Arronofsky ou coisas do tipo. Um filme corajoso e despojado. Gostei bastante.

“Quando fazemos filmes, tentamos não dizer asneiras: trabalhando, dinamitando os clichês, voltando atrás, corrigindo, renunciando, acrescentando. Mas depois na vida, dizemos disparates e acabamos por destruir uma parte do trabalho que fizemos com os nossos filmes.”

Ontem revi Onde Jaz o Seu Sorriso?, o belo filme feito por Pedro Costa mostrando o processo de montagem de um filme dos Straubs. Entre as inúmeras passagens marcantes do filme – que é sem dúvida uma verdadeira aula sobre montagem, sobre o cinema, e sobre a vida – fiquei com esta. É uma frase linda sobre a relação entre o processo de criação e a vida, e ilustra um pouco do que está em jogo no cinema dos Straubs. Primeiro, por “tentar não dizer asneiras”, travar com o cinema uma relação séria, sem a futilidade de um outro tipo de cinema. Em seguida, Straub lista um conjunto de verbos, numa ordem tão bem concatenada que nos surpreende que a frase tenha sido simplesmente espontânea: fazer cinema é “voltar atrás”, é “corrigir”, e é também sem sombra de dúvidas “renunciar”. O emprego da palavra “renunciar” – Straub já tinha falado um pouco sobre isso anteriormente no filme – é lindo, mas ainda mais a que vem a seguir, e que fecha a frase: fazer tudo isso mas sempre, sempre pensando em “acrescentar”. Renunciar para acrescentar, voltar atrás para acrescentar.

Mas na vida não é possível que o tempo todo consigamos nos policiar. Muitas vezes não há como voltar atrás. É praticamente impossível manter nossa coerência 100% do tempo, ou ainda, não há como viver sem negociar, sem ceder, sem cometer pequenas traições, seja por cansaço, seja por acomodação, seja por medo da solidão, seja porque simplesmente somos imperfeitos e fracos, mesmo.

Huillet reclama que Straub fala demais, fala asneiras e não a deixa se concentrar na imagem, apenas na imagem. Há determinados momentos em que é preciso se concentrar na imagem, e todo o resto provoca uma dissipação de energia – diz Huillet. Ela reclama que Straub fala demais, que para falar menos asneiras basta que nos calemos por alguns instantes.

Ela tem razão, mas a brilhante intervenção de Straub – madura, dolorosa – nos aponta para uma coisa complementar: ainda que seja impossível “deixar de dizer asneiras”, é preciso que pelo menos no cinema nos concentremos para fazer algo digno.

quinta-feira, setembro 03, 2009

L´Enclos

L´Enclos
de Armand Gatti
** ½

Descobri este L´Enclos meio por acaso, perdido numa lista dos melhores filmes feitos por um crítico da Cahiers num ano da década de 60. Resolvi conferir, pois não conhecia o filme nem o diretor. Descobri que Armand Gatti é um homem de teatro, que teve uma experiência de vida muito intensa, inclusive tendo sobrevivido a um campo de concentração. Foi uma boa descoberta, porque L´Enclos tem vários méritos. No entanto, é preciso vê-lo corretamente. A primeira chave para fazê-lo é perceber que Gatti não quis documentar a terrível experiência de estar em um campo de concentração. Para ele, essa experiência é “infilmável”. Ao invés disso, o que o filme se propõe a fazer é, a partir dos dados de um campo de concentração fictício, pensar em que medida, mesmo diante dessa experiência extrema, é possível sobreviver com dignidade, mantendo-se fiel a valores humanos (lutar contra um processo de desumanização e de embrutecimento), e reforçar um sentido de solidariedade, companheirismo e atenção ao próximo e ao viver em coletividade? Para Gatti, tudo isso não é apenas possível, mas indispensável, de modo que L´Enclos é um dos filmes mais bonitamente humanistas dos anos sessenta. A forma como Gatti filma esse entrecho é também bastante interessante, com uma decupagem elegante, ligada ao cinema clássico (sem os arroubos das descontinuidades do cinema moderno), mas também muito influenciada pelo teatro, o que é natural dada a sua formação. Grande parte do filme se concentra num dilema ético entre dois prisioneiros – um judeu e um alemão – colocados num cercado. Dois oficiais alemães fazem uma aposta em quem conseguirá sobreviver (a superioridade ariana), e avisam aos dois que no dia seguinte, de manhã, apenas um deles pode estar vivo, senão os dois serão liquidados (isto é, um deve matar o outro para que permaneça vivo). No entanto, Gatti armará uma solução mirabolante para ludibriar os oficiais alemães. Tudo isso com uma decupagem sóbria, com belos trabalhos de interpretação, com um uso criativo das locações e do estúdio. Um domínio dos tempos e da linguagem clássica, apesar de ser um primeiro filme. Um início formidável, nos cinco primeiros minutos, registrando o trabalho árduo nas pedreiras (a brutalidade, a desumanização), com planos próximos alternados com planos gerais. E um final enormemente bonito, surpreendente, especialmente os dois planos finais, lindos de se ver, especialmente o último plano. Uma bela surpresa.

Elle S'appelle Sabine

O Nome Dela é Sabine
De Sandrine Bonnaire
Espaço (ex-Unibanco) 19hs
**

O Gustavo Dahl de vez em quando citava uma frase genial em que alguém dizia que o primeiro conteúdo de um filme é dado pelo seu orçamento. Um corolário disso seria que a primeira informação de um filme é dada pelas suas fontes de financiamento. No caso de O Nome Dela é Sabine, essa informação é essencial, porque percebemos que se trata de uma produção para a TV. Isso nos faz entender melhor várias das deficiências do filme. Por ter sido um filme selecionado para o Festival de Cannes que trata de temas com uma ligação íntima com certas temáticas desenvolvidas no cinema contemporâneo (uma atriz faz um documentário em que fala de sua irmã autista), esperamos na verdade um filme mais ousado em relação às possibilidades de linguagem em falar de si e de uma relação íntima com o outro, através de um olhar para a família, uma exposição de uma intimidade e uma certa “videografia de si”,. No entanto, o filme de Sandrine Bonnaire é um documentário simples, que pouco acrescenta a essas questões. No entanto, sua simplicidade pode também ser vista como um mérito: o filme é extremamente respeitoso e delicado, especialmente tendo-se em vista um tema tão espinhoso. Isto é, o filme está muito longe da exposição da miséria de um Tarnation, ou do documentário didático e conservador do terrível Do Luto à Luta. Ao contrário, o mérito aqui se dá exatamente pela simplicidade: ou seja, ainda que Bonnaire não aprofunde algumas premissas do filme, pelo menos ela faz um retrato honesto e delicado, fugindo do oportunismo e dos recursos de efeito.

Sabine é uma personagem opaca, que de repente vai piorando, até se tornar agressiva e precisar ser internada. A convivência com ela é difícil, mas a diretora tenta mostrar essa dificuldade tendo em vista sempre um lado afetivo. A maior surpresa fica no entanto no final, um final bonito mas dolorido, bastante dolorido. Sabine vê um DVD com as imagens do que talvez seja o momento mais feliz de sua vida: uma viagem de férias aos Estados Unidos, com a família. Ela vê e chora, e diz que se lembra. Ela se reconhece nas imagens: jovem, magra, com cabelos compridos. Ontem. Esse reconhecimento de um passado partido através da imagem, e que chega até nós através de uma imagem outra nos faz pensar em tudo o que pode fazer sentido na vida – uma família, uma lembrança, uma viagem, um momento fugaz de felicidade –, e a possibilidade do cinema de registrar tudo isso. Sabine foi incapaz de manter o seu equilíbrio psíquico (afinal, quem o é?), e chora (segundo ela, de alegria, mas na verdade entendemos que nessa alegria há uma profunda tristeza, uma profunda consciência de pesar pelo rumo das coisas). Isso nos faz pensar em muito até que ponto Sabine é diferente e é igual a qualquer um de nós. Ao fazer um filme em que aceita essa diferença com afeto, Bonnaire faz um retrato que, se não é brilhante, é bastante digno.

Por fim, nos cabe dizer que é um privilégio ver um filme "tão pequeno" quanto este estrear em pleno circuito comercial. Isso é possível apenas pela tradição do cinema brasileiro no lançamento de documentários, o que acaba provocando essa externalidade, criando um público atento para as possibilidades do gênero.