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Cinecasulofilia

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quinta-feira, setembro 03, 2009

L´Enclos

L´Enclos
de Armand Gatti
** ½

Descobri este L´Enclos meio por acaso, perdido numa lista dos melhores filmes feitos por um crítico da Cahiers num ano da década de 60. Resolvi conferir, pois não conhecia o filme nem o diretor. Descobri que Armand Gatti é um homem de teatro, que teve uma experiência de vida muito intensa, inclusive tendo sobrevivido a um campo de concentração. Foi uma boa descoberta, porque L´Enclos tem vários méritos. No entanto, é preciso vê-lo corretamente. A primeira chave para fazê-lo é perceber que Gatti não quis documentar a terrível experiência de estar em um campo de concentração. Para ele, essa experiência é “infilmável”. Ao invés disso, o que o filme se propõe a fazer é, a partir dos dados de um campo de concentração fictício, pensar em que medida, mesmo diante dessa experiência extrema, é possível sobreviver com dignidade, mantendo-se fiel a valores humanos (lutar contra um processo de desumanização e de embrutecimento), e reforçar um sentido de solidariedade, companheirismo e atenção ao próximo e ao viver em coletividade? Para Gatti, tudo isso não é apenas possível, mas indispensável, de modo que L´Enclos é um dos filmes mais bonitamente humanistas dos anos sessenta. A forma como Gatti filma esse entrecho é também bastante interessante, com uma decupagem elegante, ligada ao cinema clássico (sem os arroubos das descontinuidades do cinema moderno), mas também muito influenciada pelo teatro, o que é natural dada a sua formação. Grande parte do filme se concentra num dilema ético entre dois prisioneiros – um judeu e um alemão – colocados num cercado. Dois oficiais alemães fazem uma aposta em quem conseguirá sobreviver (a superioridade ariana), e avisam aos dois que no dia seguinte, de manhã, apenas um deles pode estar vivo, senão os dois serão liquidados (isto é, um deve matar o outro para que permaneça vivo). No entanto, Gatti armará uma solução mirabolante para ludibriar os oficiais alemães. Tudo isso com uma decupagem sóbria, com belos trabalhos de interpretação, com um uso criativo das locações e do estúdio. Um domínio dos tempos e da linguagem clássica, apesar de ser um primeiro filme. Um início formidável, nos cinco primeiros minutos, registrando o trabalho árduo nas pedreiras (a brutalidade, a desumanização), com planos próximos alternados com planos gerais. E um final enormemente bonito, surpreendente, especialmente os dois planos finais, lindos de se ver, especialmente o último plano. Uma bela surpresa.

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