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Cinecasulofilia

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segunda-feira, dezembro 14, 2009

êxodo: rigidez e fluidez

Bom, só agora consegui postar algumas reflexões sobre rever o Êxodo, na sessão do CinePUC de 29/10.


A narrativa clássica é impregnada de uma noção de funcionalidade. Cada plano tem uma função narrativa, que desenvolve a narrativa para frente. O livro do Sidney Lumet fala bem sobre isso. É claro que nada está mais longe da narrativa clássica do que os meus diários de viagem. No entanto, existe neles uma ideia de arquitetura – aspecto que os Pretti abordaram bem num texto sobre o Desertum (ver aqui) – e que, com a ajuda da trilha deles, eu acho que aperfeiçoei em Êxodo. Arquitetura pois são filmes extremamente construídos, como um verdadeiro prédio, em que cada plano está ali porque é absolutamente indispensável para a construção desse todo. Nada é supérfluo, nada é vão. Nenhuma energia se dissipa. Às vezes temos a impressão de que a retirada de um único plano pode fazer ruir toda a estrutura. Mas com isso não quero dizer que é um filme extremamente rígido, ou melhor, que se você piscar o olho e perdesse um plano do filme (uma piada seria que só aconteceria isso se esse piscar de olhos durasse um minuto, pois os planos são bem longos...), não conseguiria entrar no espírito do filme. Claro que não é isso. Assim como se você retirar um tijolo de um prédio, o prédio não vai cair. Mas que vai ficar um buraco. Mas que se você só visitar a sala não vai saber que casa é essa. (Por isso é que no fundo não sou simpático a que esses filmes sejam exibidos como instalações em museus). Mas o que quero também dizer é que, revendo o filme depois de um tempo, percebi que essa estrutura extremamente rigorosa, meticulosa e cuidadosamente orquestrada é um “castelo de cartas”, é uma estrutura extremamente pesada que se sustenta no ar, é leve, fluida, dinâmica. Há um enorme rigor dessa arquitetura mas há um respiro para a vida, um senso de observação orgânica desse lugar, uma certa leveza, uma certa fluidez. A composição desse improvável equilíbrio não é tarefa fácil, mas, de qualquer forma, do hermetismo claustrofóbico de Em Casa à rígida fluidez de Êxodo existe um passo silencioso, um amadurecimento sorrateiro, um percurso humano e estético nada desprezível.

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