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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

(aos amigos do Ceará)

Não sei mais o que vou fazer.
Há tantas coisas por fazer, tantos afazeres.
As malas vazias, as toalhas despidas, todos os pergaminhos que [precisam ser abandonados.
Mas sei que hoje, pelo menos hoje, não vou mais me lamentar.
Não vou lembrar o ontem, não vou me remoer pelo que não fiz, pelo [que não tive coragem de dizer.
Não vou ter mais vergonha de mim.
Não vou mais pensar que sou covarde, chorar sozinho pelo espelho.
Hoje vou viver esse sonho que é essa esperança louca de mim.
Quero poder gritar para mim mesmo, me descabelar, virar pelo [avesso.
Quero poder dizer, talvez pela primeira vez,
que é possível ser eu mesmo.
É possível afinal.
Chegou a hora, os galos já cantaram, amanheceu o dia,
e eu aqui na beira da estrada, sentindo a brisa úmida, o orvalho que [seca pelo sol do dia.
Agora chegou afinal a hora de eu me olhar no espelho
e não ter mais vergonha de mim.
Não sei mais o que fazer com toda essa liberdade, que nunca sonhei [em ter.
Quero embriagar os vagabundos, dar nós nos rabos dos gatos,
apertar as campainhas dos vizinhos e sair correndo.
Não sei mais o que vou fazer.
Só sei que pelo menos hoje quero viver esse sonho possível.
Pelo menos hoje não vou ter mais vergonha de mim.
Quero acreditar que, independentemente do amanhã,
da furiosa reação em cadeia que qualquer gesto de liberdade pode [gerar,
quero acreditar que, independentemente do amanhã,
independentemente do amanhã,
só por esse momento minha vida terá valido
a pena
(s)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

ruído roxo

Ontem um ruído roxo me despertou do transe

Corri para a janela e lá embaixo

havia um corpo desacordado

Não era eu que ali jazia

apenas quem olhava

o roxo ruído que ontem me despertou do transe

e me trouxe da vida

para a morte


terça-feira, fevereiro 02, 2010

o cachorrinho

Uma das experiências visuais mais impressionantes que tive esse ano foi a vista de um cachorrinho na sacada do prédio vizinho ao apartamento da minha namorada. O cachorro – ou cachorra, não sei ao certo – fica ali debruçado no parapeito da janela do segundo andar de um prédio, vendo a vida pela janela. Da primeira vez que vi a cena, com a pressa de sempre, não prestei muita atenção ao fato que julguei corriqueiro. Mas uma semana depois olhei para a sacada e lá estava o cachorrinho de novo, na mesma posição. Essa visão me encantou pois era um misto de uma enorme beleza e ao mesmo tempo uma terrível visão. Era lindo ver o cachorrinho ali vendo a vida pela janela, uma enorme poesia e uma beleza o seu olhar atento, olhos arregalados (ele olhava com prazer) para a vida que ali se passava (basicamente prédios, carros e pessoas). Mas por outro lado doía no coração a possibilidade de o cachorro, por um simples impulso ou mesmo por um tropeção, se atirar da janela direto para o asfalto. Ou ainda, era uma visão de uma imensa solidão, um enorme vazio, que apontava para um conjunto de coisas. O que havia para ser visto? Por que seu dono não se preocupava com o cachorro? O que um cachorro preso o tempo todo dentro de casa pode fazer? Como ele pode ter contato com a vida, como ele pode viver?

A visão desse cachorrinho me encantou e me aterrorizou, porque, num determinado instante, aquele cachorro era eu, e me identifiquei com ele. Comecei a dar adeusinhos para ele, como se quisesse que a vida respondesse para ele, mas de repente fiquei com um baita medo de ele, empolgado com essa resposta, se desequilibrasse, e caísse. Poderia o meu encanto provocar uma morte?

Na minha cabeça de cineasta amador veio imediatamente o desejo de filmar aquele cachorrinho. Ou melhor, de tentar registrar todos esses sentimentos que me vieram à cabeça? Mas como poderia fazer isso? De imediato, veio em minha cabeça um conjunto de referências, que guardo comigo e venho seguindo: eu já vi Five do Kiarostami, já vi os filmes do James Benning. De outro lado, vieram coisas absurdas como Wendy and Lucy ou mesmo os dois Hachikos, que vi há pouco tempo. É claro, me lembrei dos meus amigos do Ceará e do que está acontecendo lá, e me lembrei, também, é óbvio, das cartas-filmadas que venho mandando a eles, e que são pequenas reflexões sobre a natureza do cinema e da imagem.

Mas tudo isso foge da questão principal: como registrar na tela esse sentimento que me invadiu, sentimento de enorme doçura e de terror extremo? Ou ainda, para colocar em outros termos, essa “serena melancolia”? Como o cinema pode registrar isso? (seria ele capaz?) Ou ainda, como colocar isso sem cair no espalhafato, no exótico, no pitoresco, no malabarismo, na pirotecnia, no sentimentalismo melodramático? Como dizer isso sendo “verdadeiro” diante desse cachorro, diante do mundo, diante de mim mesmo?

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Avatar

Avatar
De James Cameron
Cinemark Botafogo 5 (3D)
**

Ver Avatar não deixa de ser uma experiência emocionante. Com o termo “emoção”, não me refiro propriamente à saga dos avatares (os “bichinhos azuis”), mas em relação ao que está em jogo com a possibilidade de um filme como este ter sido feito. Explico melhor: com isso, quero dizer que se trata de um filme de James Cameron, um filme visionário. Há diversos aspectos que apontam para isso: o principal deles é a imbricação entre o mundo da realidade e do sonho (seria Avatar um filme surrealista?). É só lembrar o último plano do filme, o de olhos sendo fechados, e pensar em toda a coerência interna do filme. Ou ainda, a estrutura-base de O Vingador do Futuro. Outros são: a tecnologia como mediadora de um contato com o homem com a natureza, a busca por um paraíso perdido, um cinema-travessia, a política por meio do espetáculo.

Avatar é um filme sensorial, e daí a beleza do uso do 3D. O paralítico protagonista do filme tem a possibilidade de uma liberdade – espiritual, emocional e física – quando se torna um “bonequinho azul”: é bela a cena em que ele se levanta da cama e, contrariando a lição dos médicos, sai correndo pelos campos, sentindo suas pernas e o vento no rosto. O 3D reforça o tom sensorial do filme, e funciona melhor nas cenas de animação. Nos interiores, em geral no laboratório (cuja cenografia aliás é brilhantemente funcional), seus efeitos são menores. O interesse maior de Avatar é pelo “lado de lá”. De qualquer forma, o filme é uma mistura insólita de Pocahontas, Rambo, O Novo Mundo, Robocop, e tantos outros filmes que nos vêm à cabeça durante sua projeção.

Avatar é um filme político. É um filme que denuncia a expansão imperialista norte-americana, ou ainda, o preço pago em torno da ganância e do progresso material. Os “bichinhos azuis” claramente são mostrados como índios, tornando o filme uma espécie de metáfora sobre a colonização americana. Pela forma contundente como critica a cobiça do domínio bélico norte-americano, Avatar decerto é um filme humanista, que denuncia os abusos da guerra, um filme romântico (uma eterna fábula) sobre o paraíso perdido, e nessa direção vai contra os arroubos gráficos e estilizados (pós-modernos?) de um Bastardos Inglórios. Assim como Invictus, Avatar defende uma ideia de um contágio entre dois supostamente “opostos”, mas ao contrário deste, conclui que a guerra é inevitável, não havendo possibilidade de aliança.

Nessa ideia de travessia e contagio, de uma fábula histórica, sensorial e política, Avatar se remete a Titanic, o último “ultramegalomaníaco” projeto de Cameron. Quando os investidores foram ao set para tentar impedir o suposto naufrágio de Titanic (o filme), diz a lenda que Cameron urrava que só sairia dali morto (há um ditado militar que o comandante deve ser o último a deixar o navio quando naufraga). Titanic e Avatar representam uma operação de guerra, luta cruel e desesperada de um criador por sua obra, utilizando o máximo da engenharia financeira e tecnológica disponível para o mundo do cinema.

Há uma frase no meio de Avatar que aponta para isso. Quando a pesquisadora vai à sala do chefe da missão cobrar explicações, ele aponta para uma espécie de minério que custa milhões de dólares e diz “não se esqueça que é isso o que financia as suas experiências”.
O grande paradoxo de Avatar é que ao mesmo tempo em que Cameron critica o imperialismo norte-americano, o filme se utiliza das armas do grande espetáculo para realizar essa crítica. O espetáculo amacia o teor crítico do filme, mas ainda assim ele é visível. É cruel a forma como os seres azuis são esmagados no primeiro ataque e claramente não compartilhamos dessa visão. Há uma dor pela sua incapacidade de resistir, uma dor romântica e latente, um sentimento de que o progresso está nos levando à destruição. Ao mesmo tempo em que o filme estimula a fantasia e o romantismo, é calcado na objetividade dos números de bilheteria, estimulada pela “mais nova invenção”: o 3D. Tecnologia, arte, fantasia, ciência, mercado: o genoma de Avatar reflete os paradoxos desse homem integrado e deslocado de seu tempo.