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terça-feira, abril 06, 2010

A juventude no cinema brasileiro recente (II): Estrada Para Ythaca

Dos quatro filmes, o mais radical é, sem sombras de dúvidas, Estrada Para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti. A radicalidade já está impressa no filme (ou melhor, gravada na fita, ou ainda, salva no HD) por compor um projeto coletivo, assinado por quatro diretores, experiência cada vez mais rara nos dias de hoje, em que o “cinema de autor” representa o trunfo do cineasta solitário, da “câmera-caneta”. Os quatro diretores não assinam somente a direção mas praticamente todas as funções técnicas. Dessa forma é um projeto essencialmente coletivo. A coletividade de seu modo de produção (o filme é todo financiado pelos realizadores, sem editais ou leis de incentivo) combina de forma orgânica com o próprio objetivo do filme, já que Ythaca é um filme sobre a amizade, a amizade entre os quatro diretores, e um quinto membro, cuja figura “fantasmagórica” paira durante todo o filme, ainda que eventualmente apareça: sua ausência física é compensada por uma presença marcante ao longo de todo o filme. Falo de Ythallo Rodrigues (cuja estranha grafia do primeiro nome inspirou a tresloucada grafia de Ythaca), amigo supostamente morto, que estabelece o mote para o filme: os quatro amigos embarcam em uma viagem de conotações físicas e metafísicas. Falo “supostamente”, pois Ythallo está morto apenas na diegese: apenas o personagem de si mesmo jaz, mas ele está “vivinho da silva” lá no Cariri, inclusive dirigindo seus próprios filmes. Essa ambigüidade entre as influências da representação e o real é uma das mais fortes marcas do filme.

Se em Morro do Céu, o gaúcho Spolidoro vai ao interior do Rio Grande do Sul para, sozinho, observar o tímido cotidiano do jovem Bruno Storti, num projeto viabilizado pelo DOCTV, Estrada Para Ythaca em várias medidas pode ser visto como um filme oposto, apesar de um diálogo marcante: são quatro diretores que, num projeto coletivo, bancado por eles mesmos, adentram pelo interior do Ceará, num autêntico road movie, a fim de encontrar algo que não se sabe muito bem, talvez rastros do amigo morto, talvez no fundo, apenas um passeio de fuga e de encontro de si mesmos.

Se Morro do Céu é um filme “introvertido”, que observa de forma delicada e discreta a vida de Storti, Ythaca é um filme “extrovertido”, irreverente, absolutamente radical em sua narrativa estilhaçada, profundamente debochado e autocrítico. Ythaca dá continuidade ao maravilhoso cinema produzido pelo Ceará. Aqui, o uso da palavra “continuidade” é curioso, pois justamente o que surpreende na atual “cena cearense” é a negação de uma “escola cinematográfica” em que cada diretor precisa se estabelecer na “cinematografia mundial” ao adotar determinados tiques ou cacoetes que os identifiquem com uma marca autoral, e que serão reproduzidos ad nauseam nos filmes seguintes. Ao contrário, cada filme é uma “metamorfose ambulante”, com viradas e mudanças radicais de um filme para o outro, ou mesmo dentro de um filme. Vejamos por exemplo a virada dentro de Passos no Silêncio, de Guto Parente, do interior para o exterior. Vejamos a “virada a cada plano” de um filme como Miúdos, de Pedro Diógenes. Ou ainda, a filmografia dos Irmãos Pretti, que sintetiza esse desejo da transformação e do gosto pelo processo, mais que o resultado final.

Mas falávamos que Estrada Para Ythaca é um filme sobre a amizade, espelhada na escolha radical dos quatro diretores em serem os protagonistas do próprio filme. Filme que é absolutamente ficcional mas ao mesmo tempo uma autobiografia. São nesses entremeios entre o documentário, o experimental e o cinema de ficção que os quatro diretores se filiam a uma certa tradição do cinema contemporâneo. Vendo Ythaca também parece claro que os diretores pisam num grande terreno de referências, que vão desde filmes americanos “high school” dos anos oitenta até ícones do cinema contemporâneo como Gerry, de Gus Van Sant, ou o cinema do catalão Albert Serra, ou mesmo uma direta citação a Vento do Leste, numa cena que deslumbrou os críticos presentes em Tiradentes (onde recebeu o prêmio de melhor filme) pelas possibilidades de leituras.

Mas acima de tudo – e esse é o objetivo desse texto – Ythaca é um filme jovem. Filme feito por jovens, todos diretores abaixo dos trinta anos, que brincam de fazer cinema, e enquanto brincam fingindo ser, acabam sendo. Ou ainda, por trás de suas barbas postiças e de seu jeito canastrão, os quatro diretores são jovens que não querem crescer, que não fazem planos para o futuro. Nessa fase fugidia que é a juventude, esses diretores são adolescentes tardios que não só se assumem jovens mas principalmente se orgulham disso (Rushmore??) Eles se preocupam em viver o presente, intensamente, em saborear os percursos desse caminho que os leva a lugar nenhum a não ser a si mesmos (como aliás uma cartela ao fim do filme aponta, uma citação de Kaváfis). Essa despretensão e essa ingenuidade por sua vez são acompanhadas por um cinema extremamente sofisticado de referências, permeado de uma certa melancolia, expressa num desejo pelos grandes planos gerais e tempos mortos, num deslocamento entre o corpo e a paisagem, num cinema sobre a amizade composto de poucos diálogos e preenchido por silêncios. É na forma particular como o filme trata essa necessidade de um afeto distante, esse desejo de fuga e de encontro, através de um cinema “leve e engraçadinho” (diria “cool”), que faz o seu encanto particular, um filme misterioso, irregular, difuso, talvez como o cinema e a vida.

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