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Cinecasulofilia

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quinta-feira, abril 15, 2010

A juventude no cinema brasileiro recente (III): As Melhores Coisas do Mundo

Quando digo que Estrada Para Ythaca é um filme “extrovertido”, tenho receio de ser mal interpretado. Na verdade, por trás das bebedeiras e de seus trejeitos “cool”, em Ythaca esses quatro amigos pouco falam entre si, e sua viagem é marcada pelo silêncio. É possível fazer uma leitura que, ainda que esses amigos murmurem poucas palavras, na verdade eles se comunicam intensamente (como comprova uma cena em que o Guto consola o Ricardo que está chorando), mas ainda assim Ythaca aponta para um certo esvaziamento do processo de viagem. A intimidade entre esses quatro amigos acontece de uma forma totalmente diferente do convencional, e sim através de um cinema de deslocamento entre o corpo dos personagens e a paisagem, num certo desconforto (arrumar comida, comer, pneu furado, perder-se na estrada, etc.). Não esperem nada parecido com um “Conta Comigo”, e sim com Gerry que, por sua vez, é devedor de alguns filmes do Bela Tarr e especialmente de A Cicatriz Interior, obra-prima de Phillipe Garrel.

O terceiro filme que fala sobre jovens que pretendo analisar é o As Melhores Coisas do Mundo, filme da Laís Bodansky que deve estrear hoje. Laís retoma a idéia de fazer um “filme jovem” após o sucesso de Bicho de Sete Cabeças, um filme que em muitas medidas eu acho lamentável como forma de olhar para as diferenças entre o jovem e os pais, ou mesmo como forma de encenação da “diferença”. Em seguida, a diretora mudou radicalmente o seu foco, fazendo um retrato da terceira idade, uma espécie de O Baile brasileiro, em Chega de Saudade. Em As Melhores Coisas do Mundo, inegavelmente Bodansky enriqueceu sua mise-en-scène, sua forma de compor personagens, mas ainda assim a diretora se mantém presa a vê-los como representantes de certos grupos. É curioso constatar que tanto este filme quanto o de Esmir Filho são filmes com um certo jeito de “filme médio” que falam sobre o universo adolescente bancados pela Warner. Interessante ver a major apostando neste tipo de filme, ao invés de candidatos a blockbusters como O Homem Que Desafiou o Diabo, por exemplo. De qualquer forma, dos quatro filmes, este tem um padrão um tanto mais comercial, com uma pretensão de falar para um “grande público”, mas ao mesmo tempo com um típico formato de um filme médio. No fundo, é tudo o que a diretora sempre buscou nesses três filmes: falar para “um certo grande público” mas sem abrir mão de “um certo estilo”. A questão é a ambiguidade desses “um certo”, o que exprime as virtudes e principalmente as carências de seu projeto cinematográfico. Daí que é nítido que Bodansky não se interessa em se aprofundar em demasia em uma certa questão: ao contrário, quando o filme começa a se aprofundar em algo, há um profundo desejo de mudar o foco para outra coisa, como se o olhar pela superfície é que desse “um ritmo” para o filme, e a contemplação fosse inimiga da dinâmica. De qualquer forma, há uma certa melancolia no protagonista Mano, valorizado pela contida interpretação de Francisco Miguez. Há algo que o aproxima do protagonista de O Passageiro, de Flavio Tambellini, ou ainda de Meu Tio Matou um Cara, de Jorge Furtado: uma certa tristeza, uma dificuldade de expressar os sentimentos, uma expressão de dúvida, uma “autocontemplação”. Assim como o personagem de Morro do Céu, ele tenta encontrar um sentido para sua vida e tenta sair com a menina de seus sonhos. Mas enquanto o protagonista de Spolidoro é um adolescente de classe média baixa do interior do Rio Grande do Sul, Mano é típico representante da classe média alta paulistana. Ele sabe o que quer e corre atrás dos seus planos. Independentemente se vai conseguir ou não, Mano sabe o que quer: quer a menina, quer a eleição da escola, quer fazer com que sua amiga descubra que o Deco é um canalha, etc. Ao mesmo tempo, ele pensa que sabe o que quer, pois, como adolescente, ele “está se descobrindo” ao longo do filme. Mas no fundo sabemos quem são os personagens, e o que eles representam dentro da narrativa. Em relação a isso, é muito sintomática a principal diferença de construção entre Morro do Céu e As Melhores Coisas do Mundo. No filme gaúcho, Spolidoro escolheu o menino e o acompanhou tal qual um documentário, embora com elementos tipicamente ficcionais. Já em As Melhores Coisas do Mundo foi realizado um laboratório com grupos de adolescentes masculinos e femininos, de modo que, através de diversas dinâmicas de grupo, os roteiristas do filme coletaram material para compor a narrativa de um filme absolutamente ficcional. De qualquer forma, são essas dinâmicas que inegavelmente dão um sopro de vida ao filme. Por outro lado, comprovam a intenção de criar personagens representativos, através de laboratórios que moldem uma argamassa tipicamente ficcional – um processo oposto ao cinema contemporâneo em que observar e filmar é orgânico (uma coisa só, de mesma natureza, como no filme do Spolidoro), e não filmar em decorrência (como estratagema, como um “segundo passo” ou de outra natureza) de um processo de observação. Em Morro do Céu, não é mais possível dizer onde começa o documentário e onde acaba a ficção, pois a própria gravação do documentário já é um processo de encenação, e a ficção ganha uma autonomia, um sopro, uma lufada de ar fresco, porque se alimenta de forma orgânica de um enfoque documental. Já em As Melhores Coisas do Mundo, o documental entra como pesquisa, como preparação para o ficcional: ou seja, é possível fazer relações, influências, mas nunca de forma orgânica, e sim de maneira esquemática. Ou ainda, a parte documental é meramente “funcional” para a realização da ficção.

O filme de Laís Bodansky reflete indiretamente sobre o processo de criação. A guitarra é a saída de Mano: como diz o personagem de Paulo Vilhena, é só para ela que ele pode contar os maiores segredos. Diante da desconfiança do outro e da possibilidade de traição, a canção é a possibilidade de criação, a partir da dor, a partir da melancolia e da solidão. Por outro lado, é esperança, é confronto com seus dilemas pessoais, etapa para a sua superação (flutuação ou sublimação). Um elemento que distingue As Melhores Coisas do Mundo dos demais três filmes é que este é o único filme em que o adolescente precisa negociar com os pais. Os problemas dos adolescentes são diretamente influenciados pelos problemas de seus pais, ou ainda, os jovens percebem que seus pais também possuem dificuldades intensas para se relacionar com o mundo, e que isso não é uma exclusividade da idade deles. Curiosamente esse abismo entre os pais e os filhos (cada qual com seus problemas não consegue ver o outro) é o que acaba os aproximando: eles têm algo verdadeiramente em comum, e precisam se entender e se ajudar. Ao longo do filme, Mano precisa claramente dizer de que lado está, e assumir sua posição: uma posição não apenas de foro íntimo, mas essencialmente uma posição política (o que fica claro nas eleições da escola em que Mano aceita participar de uma chapa). Mas ao mesmo tempo em que afirma a necessidade de Mano fazer escolhas e bancar as naturais resistências às suas opções, Laís Bodansky se esquiva das decisões mais radicais, não aprofundando os conflitos, deixando lacunas entre a solidão e a melancolia de Mano e sua aptidão a enfrentar as resistências. No mundo do jovem da classe média paulistana, é preciso negociar o tempo todo, não há como fugir do mundo, das pequenas traições do dia-a-dia, do combate diário que é enfrentar a diferença e lutar pelo que se acredita, firmar sua própria identidade e entender as carências do outro. Não há tempo para a contemplação da vida interiorana de Morro do Céu ou Estrada Para Ythaca: para não ser engolido, é preciso agir. Ou ainda, reagir.

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