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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, maio 25, 2010

Alice

Alice no País das Maravilhas
de Tim Burton
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Já vi Alice há um bom tempo, ainda no Rio mas queria aqui mesmo rapidamente dividir algumas impressões. A primeira é um certo desencanto na forma como Burton utiliza o 3D. Acho que o uso do 3D ainda é muito ingênuo pelos cineastas, mais preocupados em efeitos tipo montanha-russa, objetos atirados na direção das nossas retinas, do que propriamente pensar uma idéia da um cinema sensorial, ou uma dramaturgia que dialogue com uma outra percepção do espaço, ou uma decupagem que dialogue com essa alteração da percepção, coisas desse tipo. Sinto também que o avanço do 3D como dramaturgia está prejudicado pelo fato de que os filmes de 3D de hoje precisam ser lançados simultaneamente em 2D e em 3D, já que poucos são os cinemas do mundo preparados para a nova tecnologia (sem falar nas outras janelas, como o vídeo e a TV), e então o diretor precisa fazer o filme pensando ao mesmo tempo em 3D e em 2D, o que é uma sandice.

Mas o que quero de fato dizer é que Alice é um dos mais pessoais trabalhos de Tim Burton. De um lado, o fiolme dá continuidade à evolução de Burton como artesão: é exemplar a articulação da parte visual do filme, como é notável!!! É notável como Burton consegue visualizar um mundo abstrato e onírico como aquele passado em Alice. Sua precisão técnica é indiscutível.

Mas Alice me interessa para além disso. Todo o filme se articula de forma muito coerente como uma reflexão entre o acaso e o destino, sobre a questão do livre-arbítrio. Até que ponto podemos tomar decisões na nossa vida? Até que ponto os acasos que inevitavelmente acontecem são simplesmente acasos, ou fazem parte do destino? Esse belo tema é desenvolvido por Burton de formas impensáveis, se pensarmos no prólogo e o epílogo do filme, de tom realista, mas um realismo estranho, um pouco caricato. Todo o filme se baseia na dúvida dessa menina se deve se casar e seguir “o que se espera dela”, ou se deve enfrentar o seu destino e tomar sua própria decisão. É claro que ela escolhe ter a sua própria vida, mas acontece que claramente Burton quer falar de algo maior: a menina representa a ascensão da burguesia sobre uma aristocracia decadente. E isso – como já mostrou Visconti em O Leopardo – já estava escrito, isto é, era uma questão de tempo.

Isso torna Alice um filme híbrido, de proporções maiores do que inicialmente possamos pensar. Alice é uma espécie de híbrido entre O Mágico de Oz e Titanic. De um lado, a ambição de fazer um filme infantil (falsamente infantil) que traga um legado sobre as perspectivas de um certo público. De outro, herdeiro do cinema visionário de James Cameron, que alia tecnologia a questões pessoais, que seguem as convenções da narrativa clássica para tentar dar conta de um mundo, que às vezes parece submerso pelos limites do fantástico, mas que está lá. Com Alice, Burton decisivamente se insere na linhagem de um cinema clássico.

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Viajo porque preciso, volto porque te amo
de Karim Ainouz e Marcelo Gomes
Unibanco Dragão 2 ter25 10:30
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O novo filme de Karim Ainouz e Marcelo Gomes dá continuidade a um certo caminho estético desenhado por ambos os diretores em seus trabalhos anteriores, mesmo que separadamente. Viajo herda um gosto por um percurso geográfico e íntimo de um Nordeste, um ponto de vista que se associa à solidão, uma idéia de viagem como fluxo necessariamente transitório e imperfeito. Acabamos por nos lembrar mais de Karim, porque Cinema, Aspirina e Urubus se passava mais no sertão árido, cuja fotografia tilintava com os tons de Mauro Pinheiro Jr. A estrada onde Viajo começa nos lembra do início (fim) de O Céu de Suely, além das prostitutas que povoam a parte final do filme. Mas é nessa idéia de um percurso por um Nordeste interior e pela problematização da idéia de viagem que os dois diretores se aproximam.

Viajo é um diário de viagem, narrado por um protagonista (Irandir Santos) que nunca vemos, apenas o ouvimos. Protagonista que compõe o hibridismo desse filme, que se equilibra entre a ficção (o geólogo que tenta esquecer as lembranças de sua amada) e o documentário (o olhar pelo interior do Nordeste, a fotografia). É muito interessante constatar que, após dois filmes de grande repercussão inclusive internacional, Marcelo Gomes e Karim Ainouz optaram por um filme conjunto, em somar forças, realizando um projeto simples e singelo, descaradamente menor. Um projeto íntimo, uma viagem interior por um Nordeste. Um filme assumidamente pequeno.

Após um começo francamente poético, em que os diretores dialogam com um certo estado de coisas do cinema contemporâneo (um olhar radical por um espaço físico, os planos longos, a solidão da estrada), o filme lá pela sua metade começa a se escorar em estratégias um pouco mais convencionais de retratar esse lugar (uma família sozinha, as prostitutas, um motel, o baile de forró). O filme tem um curioso tratamento fotográfico, dirigido por Heloísa Passos, que mistura vídeo em alta resolução e imagens não tão tratadas, inclusive com grandes variações de foco. Nessa opção em evitar uma plasticidade meramente ilustrativa, Viajo expõe sua fragilidade no próprio corpo das imagens filmadas.

Apesar de irregular, a integridade de Viajo porque preciso, volto porque te amo precisa ser defendida.

Viajo porque preciso, volto porque te amo.
Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo.

quinta-feira, maio 20, 2010

"momento quiz": alguém sabe que filme contém esse maravilhoso prólogo sobre a obra de Ozu? Acho que esse é um dos melhores resumos sobre o sentido da obra de Ozu, para além dos fetiches de sua extraordinária gramática visual.



"Se ainda existir algo sagrado no nosso século, se houver algo como um tesouro sagrado do cinema, então para mim seria a obra do diretor japonês Yasujiro Ozu. Ele fez 54 filmes, filmes mudos nos anos 20, filmes em preto e branco nos anos 30 e 40, e finalmente filmes coloridos, até sua morte em 12 de dezembro de 1963, no seu aniversário de 60 anos. Com uma extrema economia de recursos, e reduzido apenas ao mais essencial, os filmes de Ozu contam sempre a mesma simples história, sempre das mesmas pessoas e na mesma cidade: Tóquio. Essa crônica, que atravessa 40 anos, mostra a transformação da vida no Japão. Os filmes de Ozu falam da lenta deterioração da família japonesa e, assim, da deterioração da identidade nacional. Mas eles não falam com angústia sobre o que é novo, ocidental ou americano, mas lamentam, com um profundo senso de nostalgia, a perda que ocorre ao mesmo tempo. Mesmo sendo profundamente japoneses, esses filmes também são universais. Neles, eu pude reconhecer todas as famílias, em todos os países do mundo, assim como os meus pais, meu irmão e a mim mesmo. Para mim, nunca antes e nunca depois o cinema chegou tão perto de sua essência e de seu propósito, de mostrar a imagem do homem de nosso século. Uma imagem útil, verdadeira e valiosa, na qual ele não apenas se reconhece, mas sobretudo com a qual ele pode aprender sobre si mesmo."

terça-feira, maio 18, 2010

Delícia de declaração do Merten em seu blog sobre Godard e os filmes de Truffaut. Estou gostando da cobertura de Cannes do Merten em seu blog, porque é uma cobertura humana:

"Mas vou aproveitar para contar uma história ótima de Jean-Luc. Ele é o entrevistado deste mês da revista ‘Les Unrocktibles’. A revista editou um fascículo com a entrevista, que distribui pela Croisette. Godard esculhamba antigos colegas da nouvelle vague. O entrevistador lhe pergunta se é mesmo verdade que ele achava os filmes de François Truffaut nulos. Ele diz que não mais do que os de Claude (Chabrol). Não é que sejam nulos, esclarece, mas não são os filmes pelos quais sua geração fez a nouvelle vague. "

quarta-feira, maio 12, 2010

As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty

As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty.

Um título de enorme beleza e poder de síntese.
Enquanto Walden: Diaries, Notes & Sketches era um título ainda ligado ao racional, expondo de forma descritiva uma metodologia (citação a Thoreau, explicitar o filme como um diário e o caráter de incompletude), Glimpses coloca tudo isso mas não de uma forma analítica, mas de uma forma íntima.
A extensão do título, que remete à extensão do filme, e que passa uma idéia de duração, tempo, movimento. Contínuo.
O uso do passado, que remete ao papel da memória. (WAS MOVING – SAW). Mekas “rememora” a partir de hoje.
Ao mesmo tempo, andar para frente, olhar para o futuro.
O maravilhoso uso do advérbio “ocasionalmente”
BRIEF GLIMPSES: é linda a idéia de poder contemplar uma beleza, mas que é fugidia.
GLIMPSES: linda palavra para resumir a fugacidade dos planos de Mekas, que constituem uma caligrafia particular.
Ave Mekas!!!

II.

Nem sempre a noite é fria.
Algumas vezes há um vento suave que nos cobre a face.
As luzes invadem as frestas das janelas e projetam sombras sobre
[as paredes descascadas.
Em algumas delas vejo monstros.
Em outras, descubro o seu colo.
Fugidias, desaparecem com o vento da noite
que nem sempre é fria.

I.

Quando acordei, percebi que algo estava diferente:
os móveis da sala estavam fora de lugar;
o ventilador, caído num canto, com as hélices retorcidas;
as lâmpadas, com os filamentos queimados.
Não havia o som das buzinas do trânsito de quinta-feira.

Mas quando abri a porta do quarto,
vi o seu corpo sobre a cama.
De bruços, os braços sob o rosto
da mesma forma que anteontem.

terça-feira, maio 04, 2010

Filme Cultura 50

Saiu a edição num 50 da Filme Cultura, relançamento da prodigiosa revista que existia desde a época do INC. Acho que nesse momento em particular em que passa o cinema brasileiro, o lançamento de uma revista crítica impressa plural é bastante importante, e diante disso foi muito acertada a formação de um dossiê “cinema brasileiro agora”. Acontece que o foco escolhido pela revista foi um foco regional: para falar do cinema brasileiro de hoje, precisa-se falar do cinema brasileiro que acontece em cada estado. Há por trás disso um discurso de descentralização e regionalização típico das políticas do governo federal. Ainda, como o Gustavo Dahl apontou muito bem no prólogo, buscou-se fugir das eternas falsas discussões sobre os aspectos econômicos ou industrialistas do cinema brasileiro, para se investir numa análise estética, pensando principalmente num cinema brasileiro de linguagem, ou de novos talentos. Ou seja, houve um recorte claro, buscou-se não falar do cinema brasileiro de hoje, mas de “um certo cinema brasileiro”.

E quando se fala de um certo cinema brasileiro, não se pode deixar de citar um pequeno estado lá no Nordeste, um estado fudido, um dos estados mais desiguais do Brasil, com um dos piores IDHs do país: o Estado do Ceará. O cinema que está sendo feito em Fortaleza está presente em toda a revista, não só restrito ao capítulo especificamente destinado ao cinema do estado, mas na revista como um todo, desde o brilhante epílogo do texto do Francis Vogner sobre o mal-estar no cinema brasileiro, passando pelo cinema mineiro e pernambucano. Até no cinema carioca se fala no cinema cearense! (é só ver as declarações dos cineastas cariocas aqui http://www.filmecultura.org.br/?p=145, onde quase todos falam do cinema no Ceará). Diante de uma cidade cada vez mais fudida, abandonada pelas políticas públicas e descaradamente desigual, um conjunto de realizadores resolveu ver nas deficiências da cidade uma inesperada potência de criação, um desejo de “estar juntos”. Esse “estar junto”, essa união, essa amizade, está refletida não apenas nos filmes, que despertam diálogos impossíveis e impensáveis, todos de uma beleza esguia e misteriosa, que não se revela de cara, num primeiro momento, mas essencialmente nos encontros “pra valer”, nos bares “cafuçus” da cidade, numa laje, onde quer que seja. Estado abandonado mas que ao mesmo tempo oferece uma certa política pública que tenta dar suporte ao que anda acontecendo por aqui, tanto em termos dos diversos cursos de formação, da extraordinária repercussão da ainda incompleta Vila das Artes, e especialmente da Escola do Audiovisual (o primeiro longa realizado por alguns dos alunos da primeira turma simplesmente foi parar na Cahiers du Cinema!), e também dos editais a nível estadual e municipal. Potência de criação que dialoga com outras vertentes, como a música e a dança, reforçando um caldo cultural do lugar.

Além dos meus comentários provocativos sobre o atual estado de coisas do cinema carioca, para mim, pessoalmente, neste particular momento de mudança radical da minha vida, a publicação da revista veio num momento mágico, ao mesmo tempo confirmando uma trajetória tímida mas que vem se consolidando pela insistência, pela teimosia, pela resistência, e também, claro, acredito que, pela coerência. O lançamento da revista aconteceu justamente na véspera do meu embarque para o Ceará. Mas o que quero dizer especialmente é que este blog, este modesto blog, mas que ao mesmo tempo está perto de completar seis anos de existência, teve a honra de ser incluído nessa edição histórica. É lá na seção “Peneira Digital”, em que se apontam três blogs de destaque na net, e o Cinecasulofilia é um deles. Não bastasse a mera citação, que já seria suficiente motivo de orgulho, a delicadeza e a precisão das palavras do Carlos Alberto Mattos me deixam extremamente encantados, por confirmar a possibilidade deste blog de ter um olhar original e pessoal sobre o cinema e o mundo. Pena que uns gêmeos me raptaram a revista e não posso agora reproduzi-las aqui...