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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sábado, junho 26, 2010

haikai torto

Quando acordei um grande pássaro azul pousou sobre meu colo
ele abriu as asas e repousou suavemente
como se tivesse chegado afinal
ao seu frágil
nin
h
o

sexta-feira, junho 04, 2010

Acabei de ver FESTA NA BOCA, do Candeias, e estou extasiado. Acho que nada me encanta mais do que um "filme-diário". Festa na Boca é lindo: o filme é assinado como “uma reportagem de Ozualdo R. Candeias” (vejam bem a humildade de Candeias, que começou justamente fazendo reportagens, institucionais). Nada resume melhor o filme do que a frase que o abre: “no último dia do ano de 1976 o pessoal da Boca do Lixo Cinema dançou, comeu, capoeirou e bebeu”. Um clima de união e harmonia, uma festa “que não foi oficial mas muito menos oficiosa”. Naquela festa estava se fazendo cinema, e Candeias, com muita intimidade com aquele lugar, “registra” o espírito libertário daquele lugar, que é contagiante. Nem parece o cinema brasileiro que nós conhecemos. Candeias passeia de rosto em rosto, de corpo em corpo, em movimentos fugazes, sempre de aproximação, entre a multidão risonha, que se confraterniza. Festa na Boca é acima de tudo um cântico de celebração a uma possibilidade de viver, e o cinema como fator de comunhão. O mais honesto registro de um tempo.

Hadewijch

Hadewijch
de Bruno Dumont
Unibanco Dragão sex 4 16:20
*

Em um certo momento de Hadewijch, o irmão do menino árabe, uma espécie de pastor da comunidade muçulmana, fala sobre a presença de Deus em meio ao invisível. Parece clara a busca de Bruno Dumont por um sentido religioso da imagem, uma busca pelo além das superfícies do plano, uma certa angústia de viver, uma certa dificuldade de os corpos se tocarem, numa sociedade francamente desigual. Se a filmografia de Dumont sempre trabalhou os limites exíguos entre o sublime e o grotesco, a inocência e a brutalidade, ou ainda, como a violência pode emergir de um mundo idílico, em seus últimos trabalhos Dumont caiu no excesso. Com isso não me refiro somente às explosões nonsense de Flandres ou ao esdrúxulo final de Twentynine Palms, mas especialmente ao fato de que Dumont vem se acomodando a uma certa feição do seu trabalho, cercada por uma certa polêmica e por um discurso do vazio do mundo quase pueril. Em Hadewijch há uma certa mudança, há um certo retorno ao cinema de A Humanidade e A Vida de Jesus, mas ao mesmo tempo há um achatamento de sua construção de cinema. Existe muitas vezes uma beleza plácida em Hadewijch, uma busca por uma simplicidade, o rosto nu de Julie Sokolowski, uma busca pelo invisível que parece que nunca vem, um certo rigor marcado pela contenção. O maior exemplo é a linda sequência em que Celine vai à Igreja e ouve o ensaio de um pequeno concerto, filmado num belo e simples campo-contracampo. Se por um lado a busca por um êxtase que é sempre peremptório se associa a todo o cinema de Dumont, aqui atinge quase um paradoxo: a busca por um cinema metafísico é entrecortada por um sentido de urgência de um mundo, a minoria árabe, a alienação das elites, as ações de terrorismo. No meio de tudo isso, Dumont ainda busca confirmar sua vocação como cineasta, evocando climas e recorrências de filmes de Dreyer e Bresson. Entre Mouchette e Do Outro Lado, Dumont não é nem Bresson nem Faith Akin. Por um lado é positivo o fato de Dumont nitidamente querer fugir do “espetáculo dos horrores” que caracteriza seus últimos dois filmes, mas, ainda assim, preocupado em evocar Bresson, Dumont não percebe o que os Dardennes fizeram antes, em Rosetta. Os Dardennes fizeram uma grande homenagem a Bresson com um filme com uma incômoda câmera na mão e um som ensurdecedor, mas existia todo um percurso que honrava sua sequência final – é só pensar em Pickpocket. Mas Dumont ainda está preso aos sentidos literais da homenagem: a epifania precisa vir acompanhada de raios solares, o pré-clímax é inundado pela chuva e pela música de Bach. Esses recursos não são ruins em si mesmos mas acontece que Dumont sempre fica no meio do caminho. Seu filme não chega a ser ruim, mas simplesmente trai a tudo aquilo o que ele homenageia, a tudo aquilo o que ele supostamente busca: a possibilidade de uma iluminação.

Singelo texto sobre Corrida Sem Fim, de Monte Hellman, que escrevi há muito tempo atrás e por acaso acabei topando com ele. Ainda continuo concordando com ele... em pelo menos 90%.

A matéria-prima de Two-Lane Blacktop é o cinema. Nada mais. É um filme feito puramente de cinema, das relações entre tempo e espaço. Ou ainda, feito a partir de um deslumbramento ante o ato de filmar e um desencantamento ante o ato de viver.
Não há “entrecho”; não há psicologia. Apenas o cinema.
O piloto e o mecânico são. Gostam de carros; dedicam-se às suas máquinas. Estão em busca de competição, seja para conhecer outras máquinas, seja para ganhar a grana que precisam para sustentar suas vidas. O caminho não é mais sinal de encontro, de um acerto de contas, ou de resgate ao passado, como no simbólico percurso de um Morangos Silvestres. O caminho simplesmente é.
Warren Oates e a menina estão em busca de ser. Ele, com seu palavrório falso e afetado. Ela, com seu ar como se dominasse a situação.
Mas todo o estilo descritivo e árido de Monte Hellman não consegue deixar de revelar que seu filme é fruto de um irreprimível e incontrolável sentimento de ser.
Todo o estilo despojado de Monte Hellman não consegue esconder o rigor do enquadramento (o trabalho com as linhas verticais e horizontais), a crucial participação da montagem (do próprio Hellman). Praticamente não há improviso; todo o estilo relaxado é fruto de marcação.
As pessoas vêm e vão. Nenhuma relação consegue se fixar. Há apenas o caminho. O caminho não é meio, é fim.
Mas ainda há mais, porque, como dizíamos, Two-Lane Blacktop é um filme feito de cinema. Há o final. Mais uma competição, como qualquer outra. Há um campo-contracampo dos mais sugestivos, quando o piloto olha, de dentro do carro, para as pessoas lá fora, lá longe. O sinal é dado, a bandeira se agita, mas há algo estranho. A máquina não mais responde, mas desta vez é a máquina fora da diegese, a máquina do filme. O filme se esgarça; tudo acaba. É um dos finais mais desconcertantes. Toda a fragilidade do universo de Two-Lane Blacktop é tão intensa que contamina até os grãos da película. O filme é processo físico, exibido em suas entranhas, em seu tecido epidérmico. Como substância química, é tão perene quanto a vida.