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Cinecasulofilia

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segunda-feira, setembro 06, 2010

A crítica ( o crítico) como um barco à deriva

A crítica ( o crítico) como um barco à deriva

Como escrever uma crítica? Me incomoda o fato de que alguns críticos, quando analisam obras cinematográficas vanguardistas, o façam a partir de um texto acadêmico, rançoso. Isso por mim já é uma contradição por si, ainda mais quando se investiga um cinema contemporâneo, um cinema grávido do hoje. Uma escrita acadêmica para se defender um cinema do futuro, um cinema que desafia as possibilidades? Quero uma crítica que vá além do filme, e para ir além do filme, ela precisa naturalmente ir além das palavras. As pessoas – e nisso incluo os próprios estudos de comunicação – ainda não conseguem perceber que para o texto ser rigoroso ele não precisa ser necessariamente acadêmico. Há uma defesa por uma “militarização da escrita”, por um “bom gosto” da escrita, que na verdade é o mesmo bom gosto academicista que recusou os quadros dos impressionistas e dos modernistas, por exemplo. É tão absurdo como se se dissesse que o cinema de Wiseman não é rigoroso porque sua câmera é trôpega. Há pessoas que escrevem sobre o cinema de James Benning como se estivessem escrevendo sobre o sétimo filme de Elia Kazan (e nem mesmo o sétimo filme de Kazan merece que se escreva desse jeito). O rigor do texto parte do olhar de quem o escreve, e não pela “militarização da escrita”. Como se pode defender um cinema antibelicista se se utiliza uma escrita militar? Como pensar o papel do crítico? Não me interessa o crítico que vomite verdades para o leitor, me interessa a crítica que “tira o chão” do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não o que “o ensina o que ele deveria ter visto”. Não me interessa a crítica que “oriente”, “informe” o leitor, mas sim aquela que o “desoriente”, “desnorteie”, aquela que faça o espectador não mais saber o que é o filme que ele pensou ter visto. Uma crítica que espalhe incertezas, dúvidas. E acredito que isso só é possível de uma forma: a de que o leitor seja um cúmplice do escritor. A crítica como um barco à deriva, “totalmente” ao léu (“totalmente” em termos). Escrever passa a ser lançar-se a uma aventura na folha de papel em branco, guiada pelos sentimentos que o filme trouxe mas como ponto de partida, e não como destino de chegada. Não me interessa a crítica como um porto seguro, e sim como um barco à deriva. O crítico escreve sobre o filme, que ele no fundo não sabe bem como é. Ele escreve para tentar decifrar. Ele então divide com o leitor as suas dúvidas, as suas angústias. Ele no fundo escreve sobre si. Ele no fundo escreve para si. Ele escreve para tentar entender, mas não consegue, fracassa. “Decifra-me ou te devoro”, e o crítico é sempre devorado pela esfinge fílmica. A boa crítica é aquela preenchida pelo fracasso, consumida pelo sentimento do crítico de não conseguir dar conta do que é o filme. Como isso é possível? Através de uma escrita trôpega, e não cartesiana, retilínea, apolínea, academicista, militar. Toda a crítica é subjetiva, não existe um caráter científico, não existe método. Ou melhor, o único método válido para a crítica é a sinceridade, a honestidade, a franqueza. Espero que esteja claro que o que proponho para a crítica tem um sentido positivo, e não meramente niilista. Ou seja, o que venho falando evidentemente não significa que se pode escrever qualquer coisa, que se atire pelo papel em branco as palavras soltas, sem encadeamento. Evidentemente não é isso o que quero defender. Mas sim a possibilidade da crítica ser algo menos rançoso, que ela não deixa de ser rigorosa só porque fugiu do “vovô viu a uva”. O crítico deve descer do seu pedestal de “especialista” e se embrenhar na mata fechada que é o universo do filme. Deve ver o filme sentado na mesma poltrona dos espectadores, e não no camarote, convidado pelos príncipes palacianos. A crítica não deve ser usada como palanque de interesses além do filme, isto é, discursos politiqueiros (vejam bem, “politiqueiros”, e não políticos), brigas eleitoreiras, picuinhas acadêmicas, conchavos interesseiros, floreios parnasianos, etc. A crítica deve ser “desinteresseira”, e não “desinteressada”. Ou seja, a crítica não pode ser instrumento de exercício de poder (como “quem tem a razão?”, “quem tem o discurso dominante sobre tal filme?, ou sobre “as tendências do momento”). Da mesma forma que quando digo que o crítico no fundo fala de si – ou ainda, que escreve para si – com isso de modo algum quero dizer que se faz crítica por autoanálise, por mero exercício narcisista. Entender dessa forma é tão absurdo quanto alguém dizer que os filmes-diários de Jonas Mekas são meros exercícios exibicionistas, que não interessam a ninguém a não ser o seu círculo de amigos. Ao contrário, o crítico escreve para ser lido, mas que essa leitura torne o leitor mais ativo, e não meramente passivo, ou meramente apre(e)ndendo os “ensinamentos do crítico-especialista”. Essa sim é que é uma forma narcisista e egoísta de escrita. A que proponho, ao contrário, é uma forma livre, cuja leitura seja um ponto de partida para o leitor, que, a partir dela, formule o seu próprio filme. A crítica deve ser vista como um exercício impossível. Jornais, revistas, livros, sites, blogs, etc.: o meio de circulação da crítica é cada vez mais variado mas, se atentarmos bem, sua forma continua rigidamente cristalina: de um lado, a crítica como “entretenimento” ou “informação”; de outro, a crítica como “ciência da comunicação” (a crítica acadêmico-escolar, de caráter apostolar e episcopal, formando “seitas” e “súditos” que devem se digladiar defendendo ou denegrindo o próximo filme do diretor beltrano, mesmo que ele ainda sequer tenha sido filmado). Já imagino que, a partir deste texto, as pessoas do meio já digam que estou acusando “beltrano, ciclano e fulano”, mas aqui não se trata de dar “nomes aos bois”. Não quero denegrir o trabalho de ninguém, mas apenas expressar minha insatisfação com o que leio sobre cinema. E não só no Brasil mas no mundo, já que muito do que se escreve no Brasil é copiado de um estilo de crítica que vem de fora, seja qual for o lado da moeda (é como os realizadores brasileiros que ou copiam hollywood ou copiam apichatpong). Se eu rotular, classificar, categorizar os veículos e os críticos em “A, “B” ou “C”, estarei fazendo exatamente aquilo que eu tento combater nesse texto. Não quero ensinar ninguém a escrever (esse texto não pretende inaugurar um curso de “métodos como fazer uma escrita trôpega”, etc). Mas, ao contrário, esse texto pretende espalhar dúvidas, incertezas, dividi-las com o leitor. E não afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico. Se ele fizer isso, terá cumprido o seu papel.

7 Comments:

Anonymous Ailton Monteiro said...

Taí um belo texto de reflexão sobre a arte de escrever sobre filmes, Marcelo. Gostei. Geralmente me sinto mais assim, á deriva, quando vou escrever sobre um filme do Godard, por exemplo. Pena que veja tão poucos. heheh.

12:21 PM, setembro 06, 2010  
Blogger pseudo-autor said...

Marcelo,

Sou novo aqui (descobri seu blog pelo link no blog Rastros de Carmattos) e gostei muito, principalmente pelo fato do primeiro post que aparece na tela ter tudo a ver com o meu TCC final da graduação (falo da blogosfera como cenário da crítica cinematográfica). Desde já aviso: ganhou mais um visitante assíduo.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

12:00 PM, setembro 17, 2010  
Anonymous Anônimo said...

Marcelo

4:27 PM, setembro 20, 2010  
Anonymous Anônimo said...

Bacana o blog Marcelo!
Cara estou postando aqui por uma razão, não consegui localizar seu e-mail, apesar de ter dado uma rodada bacana na NET.
Mas, enfim, a razão que abordei acima diz respeito a um trabalho de Comunicação Organizacional, passado pela Prof Flora Daemon, que tem o objetivo de divulgar pesquisas do programa de pós-graduação em Comunicação da UFF.
Ela disponibilizou uma série de pesquisas da pós aos alunos, acabei optando pela sua por achá-la bem interessante.
É o seguinte, o objetivo final do curso é que os alunos atuem com "assessores de imprensa" do pesquisador, conseguindo emplacar uma matéria de um determinado projeto num meio de comunicação qualquer (jornais, revistas, etc).
Gostaria de vislumbrar com você se seria possível trocarmos alguma ideia a respeito do seu projeto e sobre essa dinâmica do curso da Flora.
Deixarei meu contato de e-mail: barcelos81@yahoo.com.br.
Desde já agradeço a atenção dispensada.
Grande abraço! Cordialmente, Marcos.

4:46 PM, setembro 20, 2010  
Blogger espelho de espasmos said...

Marcelo, postei o texto do trabalho da especialização no meu blog. Fiz isso porque descobri que não tinha teu e-mail e estamos em período de recesso na especialização. enfim, espero que você leia. um abraço. a disciplina foi massa.
vinícius

5:30 PM, setembro 30, 2010  
Blogger Película Criativa said...

Parabéns pelo blog.

Gostei muito do post. Críticas de filmes não são tão simples de escrever como parecem. Sempre tenho dificuldades.

2:10 PM, outubro 15, 2010  
Blogger André Setaro said...

Análise de grande lucidez e coragem para um crítico.

2:08 PM, outubro 30, 2010  

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