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Cinecasulofilia

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quarta-feira, outubro 27, 2010

ainda sobre tropa de elite 2

Palavra-chave dos dias de hoje: NEGOCIAÇÃO. O código de ética do treinado André Mathias não dá mais conta das necessidades do mundo atual. O Capitão Nascimento rompe com Matias, embora sinta muito por romper com algo que ele próprio construiu. Agora, o Capitão Nascimento precisa deixar de ser o “policial técnico” e agir como um “policial político”: o rígido código de ética de Mathias não levou a nada, além de sua própria morte. Pior: ingênuo, acabou sendo usado pelo sistema, por sua competência técnica, mas quando não mais lhe serviu, cuspiu-o fora. Esse “recuo estratégico” do Capitão Nascimento no entanto não é agradável, dói fazê-lo. Seu semblante diz tudo. Há um momento no filme em que isso é problematizado: Mathias diz ao Capitão Nascimento que ele não vai mudar o sistema, e sim o sistema é que vai mudá-lo, se é que já não o mudou. Essa talvez seja a frase mais dura de todo o filme. Mas esqueçamo-la, pois Tropa de Elite 2 é um filme romântico: o Capitão arrisca abrir mão de sua coerência, de sua família, de sua própria vida para tentar combater “os verdadeiros inimigos”, para tentar “construir um mundo melhor”. Capitão Nascimento é um idealista. Só que é um idealista que aprendeu a “dançar conforme a música”, a “se sujar com a realidade”, ou ainda, vê-la de uma perspectiva mais complexa, multifacetada. Para tentar mudar as coisas de verdade, é preciso se sujar. Se sujar mesmo, de verdade, não tem jeito. Esse novo “pragmatismo da esquerda” vem ecoando dos governos para as empresas, para as instituições, para as relações entre vizinhos, para as famílias, para as relações amorosas, para os indivíduos. É o romantismo do século XXI, a palavra de ordem dos nossos tempos.

André Mathias, c´est moi!

breve poema sobre a epifania

quando te vi
algo me pareceu estranho

estava de olhos fechados
mas não dormia

tudo era outro em mim

segunda-feira, outubro 25, 2010

mais sobre antes que eu esqueça

Como um filme sobre um homossexual na terceira idade na França pode interessar a mim, um jovem heterossexual brasileiro? É claro que interessa, pois as questões de Antes que eu Esqueça são basicamente questões ligadas a como encenar a si mesmo de uma forma ética. Ou seja, como se colocar em quadro. A pungência do filme de Nolot é a forma frontal como é confrontada a encenação. Colocar-se em quadro, mas não se trata de um estilo documental: tudo é encenado, ensaiado, decupado. Não é essa encenação que torna o filme menos humano. Ao contrário, seu despojamento está na frontalidade dessa autoencenação assumida.

Antes que eu Esqueça não é um filme bonito. Também não é um filme sujo, descuidado. Não há espaço para firulas: há um tom duro, rascante, uma economia que não procura perder tempo com futilidades. Existe uma força que provém dessa estrutura sólida, de uma austeridade consciente e nada autobajulatória.

Uma das enormes questões do filme é entrar ou não no Pigalle (um cinema pornô). Essa questão poderia ser colocada de outra forma: fazer ou não um filme. O que muda? Tudo; nada. É preciso não pensar; é preciso pensar. É preciso, é temerário, é nojento, é irressistível, é inevitável. Entrar no Pigalle: uma dolorosa via de libertação. Um suicídio possível. Dói, mas é preciso.

Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2
de José Padilha
Shopping Benfica 1, sex 15 ago 13hs


Havia algo de positivo em Tropa de Elite 1: por trás de toda a canalhice do filme, abertamente favorável à violência e à tortura, havia um discurso franco, direto, cristalino. Havia, é claro, uma certa irresponsabilidade: os produtores certamente nunca esperavam sua enorme repercussão, muito menos os ataques recebidos por vários flancos, principalmente os que o acusaram de uma certa militância fascista. Ainda que não se concorde com seu discurso, era admirável a forma sem rodeios como Tropa de Elite 1 se apresentava, especialmente tendo em vista um cinema brasileiro que sempre busca os meios-termos, o discurso da conciliação. Tudo isso fica muito claro vendo Tropa de Elite 2: neste filme há um recuo, como se aceitassem as críticas sofridas pelo anterior mas sem deixar de avançar no discurso provocativo que tanto marcou o primeiro filme. É nisso que reside a complexidade deste filme: de um lado, pode ser vista como notável a tentativa de Padilha de recuar, de ouvir as críticas e fazer um filme um tanto mais humano que o anterior; de outro, esse recuo pode ser entendido como um mero discurso de conveniência, um recuo estratégico dentro da verdadeira estratégia do filme, muito mais a ocupação de um mercado do que a conscientização sobre uma realidade. Em Tropa de Elite 2, o tempo todo se tem a consciência de que se pisa em “campo minado”, e assim como o Capitão Nascimento formula sua estratégia pessoal para sobreviver dentro do subdesenvolvimento, é como se o próprio Padilha tentasse “pisar em ovos” para sobreviver dentro da briga de egos e vaidades que se tornou o cinema brasileiro. Extremamente defensivo, Tropa de Elite 2 busca o improvável: por trás de suas irreverências, de seu discurso provocativo, de seus ataques à imprensa, às milícias, à polícia e aos políticos, o filme busca na verdade a esfera da conciliação. E acaba conseguindo, tornando-o um dos mais notáveis exemplares não só do cinema brasileiro de hoje mas do próprio cenário do país que se vive.

No primeiro Tropa de Elite, as coisas eram muito claras: a violência precisava ser combatida por uma polícia treinada, que responderia com mais violência. Os inimigos eram claros. Agora no novo Tropa de Elite, parte-se de uma dualidade inicial, de duas formas de combater a violência: de um lado, o discurso duro do Capitão Nascimento; de outro, o discurso de Fraga, militante social. A princípio, os dois discursos são antagônicos: para o Capitão Nascimento, o Fraga defende os bandidos, que precisam ser exterminados. Em seguida, todo o discurso de Tropa 2 é que o espectador perceba que esses discursos não são antagônicos mas que na verdade são complementares, e que precisam ser reunidos para combater os verdadeiros inimigos: os políticos, que se alimentam dessa verdadeira “indústria da precariedade”. Em torno dessas questões, há um elo comum, que só um roteirista maquiavélico como Bráulio Mantovani poderia reunir: a família. Eis que um elemento inesperado surge diante do cenário violento de Tropa de Elite: a família, o dever do pai diante de um filho. O filho do Capitão Nascimento é criado por Fraga, e o menino vive uma crise de consciência entre a violência do pai e o discurso social do padrasto. A conciliação e o discurso anti-violência de Tropa de Elite 2 eclodem numa questão familiar: o futuro das novas gerações, inocentemente atingidas nessa guerra de fogo. Ou seja, é como se Tropa de Elite 2 fosse o Avatar do cinema brasileiro: denuncia as atrocidades de um sistema, utilizando o mais pesado arsenal da indústria de entretenimento, amortecendo seu potencial subversivo junto ao espectador. Resta um Wagner Moura numa atuação surpreendentemente contida, como se fossem os policiais de Takeshi Kitano, quase que percebendo a tragédia de sua própria existência, dando ao filme um tom sóbrio que anuncia a jornada de fracasso de seu protagonista, mas ao mesmo tempo colocando uma consciência ética completamente ausente do primeiro filme. Em relação ao filme anterior, é inegável que Tropa de Elite 2 seja menos um filme de ação do que um thriller psicológico, um filme sobre o fracasso dos ideais de um policial, amordaçado por um sistema tautologicamente corrompido por dentro. Por outro lado, o filme denuncia a sordidez desse sistema, com a mesma ferocidade proposta pelos meios de comunicação, quando cobriram o escândalo das milícias e suas relações com o crime organizado e o poder estabelecido. Transforma e embala esse jornalismo já visto em grande espetáculo. Filme urgente sobre as contradições atuais de um país ou mero oportunismo de ocasião? Difícil dizer. De qualquer modo, não deixa de ser curiosa a transformação do irascível Padilha num articulador da conciliação. Conciliação contra “os verdadeiros inimigos”. Quais são mesmo? Acaba ficando ao gosto do freguês pensar se Tropa de Elite 2 está mais para Lula, o Filho do Brasil ou para Invictus. No fundo, acaba dando no mesmo, porque a verdadeira batalha trilhada pelo filme é o da ocupação de um mercado. Batalha que foi vencida com indiscutível brilhantismo.

sábado, outubro 02, 2010

bressonianas

Fazer cinema não é espalhar certezas, é criar dúvidas. Pôr em crise. Desestabilizar. Pôr em xeque. Não sei qual é o filme que eu pensei ter feito. Não sei qual é o filme que eu pensei ter visto. Não sei mais o que é o cinema. Não sei mais o que é o mundo. Não sei mais quem eu sou. Ainda que isso não seja nada confortável. Viver, filmar, criar não pode ser confortável. Ser delicado não significa estar em conforto.

Quanto mais se reflete, quanto mais se pesquisa, quanto mais se debruça sobre ele, o filme, a vida, o cinema, o eu permanece sendo um mistério. Perseguir a dúvida sistematicamente.

Viver, filmar, escrever: estar na corda bamba, na ponta da navalha. Amar e sofrer. Mas sem anestesia. É preciso viver sem anestesia. Ainda que doa, e que não seja somente um pouco.

Ir além da superfície das coisas, das aparências que enganam, que nos confortam. O céu é azul. Será? Aproximarmos mais das coisas, para vislumbrarmos os semitons de azul, perceber que os tons não são homogêneos. Mas não aproximar demais a fim de que o contato distorça nossa percepção do mundo. Estar na corda-bamba entre as panorâmicas íntimas e o debruçar sobre os umbrais do mundo.

Fazer cinema é ver epifanias diárias. Da janela do ônibus, vejo um menino de dez anos tirar o canudinho de coca-cola de sua boca e o colocar na de sua mãe, enquanto ela segura duas sacolas de compras e espera o ônibus chegar. A beleza não está na imagem, está para além dela. A beleza está aquém e além da imagem, mas nunca nela mesma. A imagem não é o que ela mostra, mas o que ela esconde.

Encenar não é mostrar, organizar um mundo, mas apontar para o que se esconde. Desestabilizar mas não necessariamente fragmentar. Apontar não para o fora-de-quadro, mas para o além-do-quadro. Camadas: um olhar para “dentro”, e não para “fora”. Concentrar para aprofundar. Resumir para aprofundar. Diminuir para acrescentar. Subtrair para exponenciar.