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segunda-feira, outubro 25, 2010

Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2
de José Padilha
Shopping Benfica 1, sex 15 ago 13hs


Havia algo de positivo em Tropa de Elite 1: por trás de toda a canalhice do filme, abertamente favorável à violência e à tortura, havia um discurso franco, direto, cristalino. Havia, é claro, uma certa irresponsabilidade: os produtores certamente nunca esperavam sua enorme repercussão, muito menos os ataques recebidos por vários flancos, principalmente os que o acusaram de uma certa militância fascista. Ainda que não se concorde com seu discurso, era admirável a forma sem rodeios como Tropa de Elite 1 se apresentava, especialmente tendo em vista um cinema brasileiro que sempre busca os meios-termos, o discurso da conciliação. Tudo isso fica muito claro vendo Tropa de Elite 2: neste filme há um recuo, como se aceitassem as críticas sofridas pelo anterior mas sem deixar de avançar no discurso provocativo que tanto marcou o primeiro filme. É nisso que reside a complexidade deste filme: de um lado, pode ser vista como notável a tentativa de Padilha de recuar, de ouvir as críticas e fazer um filme um tanto mais humano que o anterior; de outro, esse recuo pode ser entendido como um mero discurso de conveniência, um recuo estratégico dentro da verdadeira estratégia do filme, muito mais a ocupação de um mercado do que a conscientização sobre uma realidade. Em Tropa de Elite 2, o tempo todo se tem a consciência de que se pisa em “campo minado”, e assim como o Capitão Nascimento formula sua estratégia pessoal para sobreviver dentro do subdesenvolvimento, é como se o próprio Padilha tentasse “pisar em ovos” para sobreviver dentro da briga de egos e vaidades que se tornou o cinema brasileiro. Extremamente defensivo, Tropa de Elite 2 busca o improvável: por trás de suas irreverências, de seu discurso provocativo, de seus ataques à imprensa, às milícias, à polícia e aos políticos, o filme busca na verdade a esfera da conciliação. E acaba conseguindo, tornando-o um dos mais notáveis exemplares não só do cinema brasileiro de hoje mas do próprio cenário do país que se vive.

No primeiro Tropa de Elite, as coisas eram muito claras: a violência precisava ser combatida por uma polícia treinada, que responderia com mais violência. Os inimigos eram claros. Agora no novo Tropa de Elite, parte-se de uma dualidade inicial, de duas formas de combater a violência: de um lado, o discurso duro do Capitão Nascimento; de outro, o discurso de Fraga, militante social. A princípio, os dois discursos são antagônicos: para o Capitão Nascimento, o Fraga defende os bandidos, que precisam ser exterminados. Em seguida, todo o discurso de Tropa 2 é que o espectador perceba que esses discursos não são antagônicos mas que na verdade são complementares, e que precisam ser reunidos para combater os verdadeiros inimigos: os políticos, que se alimentam dessa verdadeira “indústria da precariedade”. Em torno dessas questões, há um elo comum, que só um roteirista maquiavélico como Bráulio Mantovani poderia reunir: a família. Eis que um elemento inesperado surge diante do cenário violento de Tropa de Elite: a família, o dever do pai diante de um filho. O filho do Capitão Nascimento é criado por Fraga, e o menino vive uma crise de consciência entre a violência do pai e o discurso social do padrasto. A conciliação e o discurso anti-violência de Tropa de Elite 2 eclodem numa questão familiar: o futuro das novas gerações, inocentemente atingidas nessa guerra de fogo. Ou seja, é como se Tropa de Elite 2 fosse o Avatar do cinema brasileiro: denuncia as atrocidades de um sistema, utilizando o mais pesado arsenal da indústria de entretenimento, amortecendo seu potencial subversivo junto ao espectador. Resta um Wagner Moura numa atuação surpreendentemente contida, como se fossem os policiais de Takeshi Kitano, quase que percebendo a tragédia de sua própria existência, dando ao filme um tom sóbrio que anuncia a jornada de fracasso de seu protagonista, mas ao mesmo tempo colocando uma consciência ética completamente ausente do primeiro filme. Em relação ao filme anterior, é inegável que Tropa de Elite 2 seja menos um filme de ação do que um thriller psicológico, um filme sobre o fracasso dos ideais de um policial, amordaçado por um sistema tautologicamente corrompido por dentro. Por outro lado, o filme denuncia a sordidez desse sistema, com a mesma ferocidade proposta pelos meios de comunicação, quando cobriram o escândalo das milícias e suas relações com o crime organizado e o poder estabelecido. Transforma e embala esse jornalismo já visto em grande espetáculo. Filme urgente sobre as contradições atuais de um país ou mero oportunismo de ocasião? Difícil dizer. De qualquer modo, não deixa de ser curiosa a transformação do irascível Padilha num articulador da conciliação. Conciliação contra “os verdadeiros inimigos”. Quais são mesmo? Acaba ficando ao gosto do freguês pensar se Tropa de Elite 2 está mais para Lula, o Filho do Brasil ou para Invictus. No fundo, acaba dando no mesmo, porque a verdadeira batalha trilhada pelo filme é o da ocupação de um mercado. Batalha que foi vencida com indiscutível brilhantismo.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

SEN SA CION NAL ... !!!
Vc é um gênio, eu vivo falando isso e sei que vc nem liga.

Agora, nem um fã como eu esperava o brilhantismo,
tampouco a contundência dessa descrição de Tropa 2:
"um filme sobre o fracasso dos ideais..."

Seria um desperdício eu dizer qualquer coisa mais, além de Parabéns.

Abração,
Marcus
marcus@sodrefamily.com

12:05 AM, outubro 26, 2010  
Blogger Pedro Migão said...

Vai pro Ouro de Tolo sexta, até para contrapor à crítica sobre o mesmo filme que escrevi na sexta passada.

abraços

6:24 PM, outubro 26, 2010  
Anonymous Thiago said...

Marcelo,

muito bom o texto!! Achei que vc não fosse gostar do filme.
Concordo com a tese do "discurso de conciliação" e da postura "defensiva". No entanto acho que faltou uma análise da construção e função dramática do personagem do "Capitão/Ten.Cel. Nascimento", que se tornou um personagem quase mítico no imaginário social.

Abraços,
Thiago

1:01 PM, outubro 27, 2010  
Anonymous carmen said...

Pois é Marcelo!

Tive esta impressão do filme também. Adorei sua colocação. Achei a atuação do Wagner muito emocionante; no que diz respeito a ele ter que encarar no espelho quem ele é, seu papel dentro da sociedade. Ele chega a andar sempre deprimido..fruto e resultado do sistema que ele vivia e vive. E ter que lutar da forma que pode dentro da mediocridade que sua posição lhe oferece. Chega a ser triste, ele saber demais sobre o que foi se passado, o que é seu presente e o que será seu futuro, de seu país, filho e cidadãos da nação. É muito forte e sem volta pra alma dele, ele ter tido este caminho.

2:04 PM, novembro 01, 2010  

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