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Cinecasulofilia

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terça-feira, janeiro 25, 2011

TIRADENTES (I): CAVI

ENCHENTE é um filme com questões relevantes. Mas para o que me interessa aqui – pensar o cinema independente através de uma atitude que se expressa por um olhar próprio para o mundo (a arte revolucionária só é possível com uma forma revolucionária) – me interessa aqui falar do Enchente na medida que aponta para o projeto de Cavi Borges. No debate aqui em Tiradentes na manhã seguinte após a exibição do filme, Cavi encantou a todos com sua simplicidade e sua franqueza, desnudando seu processo de produção, descrevendo em minúcias como consegue driblar os CPBs da ANCINE, a duração dos longas nos festivais, o prazo de validade dos prêmios das empresas de infra-estrutura, etc. Todos esses dribles, que a princípio podem parecer antiéticos, revelam-se extremamente éticos porque enfrentam de frente a precariedade de seu modo de produção, e suas soluções criativas para fazer com que seus projetos sejam possíveis. Ou seja, ao invés de se lamentar pela falta de ação do Governo (estratégia típica dos cineastas), Cavi prefere ver as brechas como possibilidades. Cavi, produtor carioca, dá o seu jeitinho, mas ao contrário da estratégia de um ex-lutador de judô (Cavi quase chegou a ir para as Olimpíadas...), Cavi derruba todos os obstáculos não com negatividade, mas seus “jeitinhos” são feitos para viabilizar sonhos e para consolidar parcerias. Com isso, Cavi já conseguiu realizar vários longas (chutaria uns oito) e mais de uma dezena de curtas, sem depender de financiamento estatal nem da política das associações ou coisas do gênero. Cavi é o grande empreendedor do cinema independente carioca. No debate, Cavi falou uma coisa clara: seus longas custam no máximo R$50 mil, porque um filme de R$50 mil consegue se pagar; um de R$1 milhão, não. Claro, pois não há mercado no Brasil. Ou melhor, só há mercado ou para um longa de R$100 mil ou para um longa de R$10 milhões. De um lado, um mercado concentradíssimo, em que 3 filmes ocupam 70% das salas, e apenas com um grande orçamento de marketing (leia-se Globo Filmes) é possível fazer um lançamento maciço e recuperar custos. Mas de outro lado há outra opção, que poucos (ainda) reconhecem: os nichos de mercado. LAPA, Pretérito Perfeito, Vida de Balconista, Riscado, Enchente, Copa Vidigal.... filmes lançados com um sem-número de possibilidades: pré-venda para a TV (grana do Canal Brasil), “distribuição criativa” (lançamento nos cinemas com distribuição de ingressos), “distribuição pirateira” (dar o DVD para os piratas venderem, como forma de atrair marketing para o filme), etc, etc. Cavi: grande visionário do cinema independente carioca: produtor, diretor, cineclubista, distribuidor, ... Cavi possui um enorme talento. Mesmo trabalhando quase sempre com carne de terceira, consegue viabilizar sonhos. Eu só espero que algum dia o Cavi consiga, nem que seja uma única vez, cozinhar, ainda que não seja com filé mignon, pelo menos com uma alcatra...

sábado, janeiro 15, 2011

Hereafter

Além da Vida
de Clint Eastwood
Pátio Dom Luis sex 21:30

Há algo bonito sob a superfície do projeto deste irregular Além da Vida. É curioso como Clint Eastwood faz, em seguida, dois filmes mais brasileiros que os feitos no Brasil (ou ainda, filmes sobre o brasil): se Invictus era a melhor análise já feita sobre o Governo Lula, Além da Vida é um filme não apenas sobre o movimento do espiritualismo no cinema brasileiro mas também sobre a insistência de alguns diretores na narrativa paralela. Além da Vida é – claramente, notadamente – um filme de concessões: repleto de merchandisings (google, apple, serviços de correio, etc.) e com concessões ao espetáculo (a célere cena do tsunami, a produção executiva de Steven Spielberg). Mas para além de tudo isso, o filme é, acima de tudo, um projeto de continuidade na filmografia desse mestre do cinema americano atual (numa certa medida, Além da Vida pode ser comparado com o novo filme do Woody Allen, mas não vou entrar nisso aqui).

Mas como estava dizendo, e quero ir direto ao assunto, há algo bonito sob a superfície do projeto deste irregular Além da Vida. É muito curioso perceber que esse carrancudo diretor e ator de westerns tem se tornado cada vez mais um romântico diretor de melodramas, ainda que seus filmes tenham a austeridade e a secura de um certo cinema americano. Há um comentário sobre o papel de Eastwood quando Matt Damon tem uma admiração por Charles Dickens. Dickens, escritor popular, pouco avesso a arroubos de inovação de linguagem, mas um grande observador de sua época e fino prosador, pode ser visto como um dos ícones de uma linguagem clássica – há um belo texto do Eisenstein sobre isso, chamado “Dickens, Griffith e nós”.

Esse “pára-institucional do espiritismo” se transforma nas mãos de Eastwood num filme de continuidade, com algumas cenas memoráveis. Uma delas é quando, de olhos fechados, Dammon conhece melhor Bryce Dallas Howard, combinando confidências, cegueira e paladar. Ver além, ou ainda, não querer ver – um belo tema para um filme. Há um campo-contracampo estranho, progressivamente cada vez mais fechado, com diversas quebras de eixo. Lembrei da linda cena de Marcas do Destino quando o menino deformado tenta mostrar para a moça cega o que são as cores através de coisas com temperaturas diferentes. Fazer cinema: encontrar circunstâncias para encenar as coisas que vão além dos diálogos. Além da Vida possui uma fotografia estranha, geralmente sombria, deixando os personagens na penumbra, mas indo além das convenções do sombrio como sobrenatural. Exemplo disso é a melhor cena do filme, quando Dammon mostra a Dallas Howard seus poderes de vidência. Há algo de obsceno em ver demais. O cineasta é amaldiçoado com esse dom, por meio do qual os oportunistas (seu irmão) podem ganhar dinheiro. Mas Eastwood não quer “ver além”, ele quer apenas encontrar o seu lugar no mundo, e isso me parece extremamente comovente.

Mas estou me perdendo um pouco. O que quero dizer é que, para além dos itens de institucional do espiritismo, do veículo para alguns atores, do cinema-espetáculo, do mershandising discarado, Além da Vida dá continudade ao cinema recente de Clint Eastwood porque é essencialmente um filme sobre a importância do encontro. O encontro: este também era o grande tema de Invictus. As melhores cenas de Invictus não são as do jogo (o espectáculo) mas sim quando os personagens se encontram (Morgan Freeman se encontrando com sua equipe e os demais funcionários logo após assume o cargo, e especialmente o primeiro encontro entre Dammon e Freeman, filmado num elegante campo-contracampo de tirar o fôlego). O que mais o cinema pode querer filmar, “dickenseanamente”, a não ser duas pessoas que se encontram?

Com oitenta anos completados, mais perto da morte do que da vida, Eastwood se interessa muito pouco pelo que há “além da vida”, e sim no que há agora, “nesta vida”. Como Manoel de Oliveira, Eastwood olha para o futuro, muito mais do que para o passado. Um dom ou uma maldição? O que há de belo em Além da Vida é como Eastwood se interessa muito mais pela vida e pelo futuro do que pela morte e pelo passado. Esse projeto afirmativo é apresentado aqui num filme com poucas possibilidades, muito mais irregular que seus filmes anteriores, mas a sobriedade das opções de Eastwood, vide o belo final em que há um flashforward (ou apenas um desejo) –, o que me lembrou de leve do final de Não Amarás – garante o interesse de Hereafter.

Outra forma de ver a filmografia de Eastwood é pensar como ele vem deixando de lado ser um cineasta do corpo para se tornar um músico.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

por que faço filmes?

Outro dia me perguntaram porque eu fazia filmes, ou uma pergunta do tipo, “o que você tem a dizer ao mundo”. Nada respondi, mas o que eu gostaria de dizer é que, para tentar responder isso, eu precisaria de oito horas, talvez oito dias, e não um minuto. Eu não conseguiria responder isso em um minuto, eu não tenho esse poder de síntese. E que para responder isso eu teria que inevitavelmente contar histórias da minha vida pessoal, porque, para mim, cinema e vida são a mesma coisa, ou melhor, não é que sejam a mesma coisa, mas sim que os limites entre um e outro são muitas vezes impossíveis de assinalar com precisão, e uma coisa está umbilicalmente ligada à outra. E, ainda, que para responder isso, eu teria que falar sobre coisas muito desagradáveis, teria que fazer confidências que não sei se alguém estaria preparado para ouvir, e não sei se eu estaria pronto para dizer para uma pessoa que não conheço muito bem. Que para dizer isso eu teria que usar fotos, músicas, filmes que passariam isso melhor do que eu poderia expressar por palavras. Em suma, tentar dizer isso exigiria uma descarga emocional tão grande, um esforço tão grande que talvez eu não pudesse suportar. E o pior: provavelmente você não estaria muito interessado em ouvi-lo, para além da superfície de algumas frases de efeito que durariam no máximo um minuto.

Vazio sou.
Nada me falta.
Nasço a cada dia.
Morro intensamente.
Como uma balsa que naufraga
delicadamente
num oceano
de lágr
ima
s.