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Cinecasulofilia

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terça-feira, fevereiro 08, 2011

Tiradentes (III): Os Monstros

Os Monstros
de Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente, Pedro Diógenes
Mostra de Tiradentes

Depois da grande repercussão (inesperada) de Estrada Para Ythaca, vem Os Monstros, um novo projeto coletivo de quatro diretores (Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente, Pedro Diógenes), sem recursos públicos, totalmente independente. O mesmo modo de produção, um cinema de continuidade, mas bem diferente. Sobre o Ythaca, eu sempre disse que me parecia que a maior parte das pessoas gostava do Ythaca pelos motivos errados. Agora Os Monstros, muito mais sóbrio e conciso que o anterior, pode nos fazer compreender melhor o projeto dos “meninos” de Fortaleza. Ou ainda, Os Monstros podem nos fazer entender o que Ythaca é de fato.

Mas que motivos errados seriam esses? Essa ideia de que Ythaca é meramente fruto de amigos que bebem cachaça e fazem filmes “galerosos”, é o conceito “ythaca-uhuuu”. E o que ele é de fato? Um projeto político sobre a amizade, uma forma jovem de encenar, um “entre o sublime e o patético é apenas um passo”.

Os Monstros são sobre artistas que para criar precisam estar juntos. No entanto, eles têm uma certa dificuldade de dizer o que sentem uns aos outros, dizem melhor quando estão bêbados ou através das músicas. Mas as músicas, ninguém entende; e quando estão bêbados, não estão sóbrios. Mas, por outro lado, estão extremamente sóbrios quando bebem e quando tocam. Como dizia Baudelaire, é preciso viver embiagado, sempre, seja de vinho seja de poesia!

Eles precisam estar juntos; é tudo o que se tem. Tudo é tão delicado que parece prestes a desabar. Mas ao mesmo tempo há um certo humor. Uma leveza. Humor e leveza cearenses, que talvez seja uma outra forma de lidar com a dor de viver, ou simplesmente uma forma de ver a esperança.

Esses artistas que criam juntos são músicos. Para o filme, não importa muito que sejam compositores ou técnicos de som. Há uma beleza na forma de entender que os técnicos de som são tão artistas quanto os compositores.

Juntos, existe uma possibilidade. Que possibilidade é essa? De ser. Não importa que o público saia durante as apresentações e que as esposas fujam, é preciso ser. Na verdade, não é que não importe, mas não há outro caminho, a não ser ser.

Daí surge o lindo final de Os Monstros, em que os quatro são. São juntos. No debate em Tiradentes, Ricardo Pretti disse algo lindo sobre isso, que o quarteto não apaga as individualidades, mas, ao contrário, cada indivíduo pode se manifestar mais intensamente estando em conjunto com o quarteto. É lindo, pois o coletivo não ofusca as individualidades, ao contrário, as reforça. Ele estava falando, no fundo, do projeto político de cinema que implica a insistência (resistência) em fazer filmes juntos. Até quando? Não se sabe dizer.

Os quatro são. Ou seja, tocam. A música, simplesmente ela. É linda, e é terrível. Toda a jornada do filme vale por aquele momento singular: a possibilidade de essa música existir ali, daquela forma. Como uma vez falei no meu Éxodo: “é um presente. Talvez não seja o presente que você gostaria de receber, mas ele é sincero.” Uma música da alma e do corpo. Do improviso e da encenação. Seria possível fazer mil referências e jogos de espelho entre os personagens e os autores, entre a música que é tocada e o próprio filme, entre o que é improviso e o que é marcação. Mas meio que não vale a pena explicitar todos esses jogos de espelho. Os Monstros são um filme “cassavetiano”. Mas não o Cassavetes de Faces ou Glória, e sim o Cassavetes de Too Late Blues. Esse pouco conhecido filme de Cassavetes, que fala de um músico de jazz, espelha a fissura entre o cinema independente e o industrial, quando Cassavetes fora convidado a dirigir três filmes para a Columbia. Os “meninos” não foram convidados por Hollywood, mas já estiveram em Veneza. É quase isso.

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