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Cinecasulofilia

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quinta-feira, março 31, 2011

Bruna Surfistinha

Bruna Surfistinha
de Marcus Baldini
Odeon ter 29mai


Fui assistir com interesse a Bruna Surfistinha. Filme pragmático sobre uma mulher pragmática. Filme de mercado que tenta fugir da aura de escândalo mas que se apropria dele: o politicamente incorreto politicamente correto. Hoje para se fazer dois milhões de espectadores um filme não pode ser extremamente vulgar mas ao mesmo tempo ele só pode fazer dois milhões se for extremamente vulgar. Ele tem que ser extremamente vulgar mas de uma forma que o espectador não se dê conta disso. Um equilíbrio improvável. As pornochanchadas eram aparentemente vulgares mas no fundo ingênuas: eram filmes (vários deles) que propunham uma crônica crítica de costumes, e uma leve subversão dos valores. Os blockbusters de hoje são filmes aparentemente ingênuos mas profundamente vulgares: são meros produtos ligeiros que reafirmam o mundo da futilidade, da vaidade e das aparências.

Toda a proposta de Bruna Surfistinha é tentar por termos a essa “equação”: equilibrar o vulgar com o invulgar. Tornar o vulgar palatável. Ora, mas não é disso que se trata o filme? O sucesso de Rachel Pacheco se dá exatamente por isso: por encontrar um modelo de negócio compatível com esse equilíbrio improvável. Ela não quer realizar fantasias, nem dela nem de outros: ela quer apenas se dar bem. Bruna Surfistinha, o filme, é coerente, e desenvolve cenicamente sua proposta de forma objetiva, sem atropelos, com eficiência. Extremamente vulgar na sua essência (um mero produto); mas na sua superfície falsamente vulgar. Prostituição de luxo. Não é um filme sobre o prazer ou sobre a perversão. É um filme sobre uma mulher que se prostituiu para lutar pelos seus sonhos. Mas quais são seus sonhos mesmo? Se dar bem.

Rachel não abre o blog porque tem uma necessidade íntima de se expressar, para expressar um ponto de vista sobre o mundo, mas essencialmente como instrumento de marketing para vender um produto. O que ela vende? Não importa que ela seja a mais gostosa, a mais bonita, a mais sacana. Ela encontrou um “modelo de negócio”, ela fez parte da “economia criativa”. Um modelo de negócio cheio de “formatos inovadores”, utilizando a “cultura da convergência” e os “nichos de mercado”. Mais que o seu corpo, Surfistinha vende sua imagem. Ou seja, Bruna Surfistinha é uma empreendedora do novo milênio.

Bruna Surfistinha é um filme sobre o cinema brasileiro. Pura metalinguagem. Surfistinha é uma cineasta: antiga, nova, novíssima. A forma direta (frontal) com que Marcus Baldini encena essa mistura de oportunidade e oportunismo é desconcertante. Bruna Surfistinha é um filme sobre o Brasil. Não é cínico. É simplesmente pragmático.

segunda-feira, março 21, 2011

cartas

Neste domingo, foram exibidas no CCBB algumas cartas audiovisuais que fiz e mandei para algumas pessoas. Escrevi no catálogo da Mostra do Filme Livre um texto que procurava dar conta desse projeto. Abaixo segue o resumo de um outro texto, complementar àquele, que tenta mostrar qual é o sentido de fazer essas cartas:

Quando escrevo cartas, penso que falo com você mas na verdade não falo com ninguém a não ser comigo mesmo. Vivo porque tenho essa esperança louca de que essa carta chegue até você. Será que essa carta chegará até você? Viajei tanto para poder te ver, deixei toda a minha vida para trás, mas quando cheguei no pé do seu prédio, preferi recuar. Tive medo que você não quisesse me receber. Não sei mais o que vou fazer. Eu te amo mas não sei o que fazer com esse tanto amor. Hoje, pelo menos hoje, é melhor que eu me concentre e termine essa carta. É bom procurarmos terminar o que começamos. Depois, posso dormir para ver se amanhã é um novo dia e se amanheço mais calmo.

Janelas Livres

Compartilho com vocês o texto que escrevi para a apresentação da sessão "Janelas Livres", dentro da Mostra do Filme Livre, no CCBB/RJ. Ele consta do catálogo, mas como não está no site da Mostra, e considero um texto bem singelo, e bem típico do tipo de olhar íntimo que venho procurado desenvolver ao longo dos meus últimos textos, eu coloco ele aqui.

Nos últimos anos, uma brisa de ar fresco vem assombrando o pacato litoral do cinema brasileiro. Uma brisa suave que respira um sentimento de juventude e de renovação. Na verdade não se sabe muito bem que brisa é essa, apenas que se tem a sensação que ela brilha e nos refresca. Não é um tsunami, mas simplesmente uma brisa serena, que transforma porque abre portas. Essa brisa tem ganhado diversos nomes, “novíssimo cinema brasileiro”, “nova cena”, ou, como colocamos aqui, um “jovem cinema contemporâneo brasileiro”. Independentemente do rótulo ou do fato de que não sabemos muito bem qual é a sua natureza, é possível senti-la se passearmos por aí, fora do ar condicionado central dos shopping centers, ou simplesmente se desligarmos nossas televisões e abrirmos as janelas para escutar o canto dos pássaros. Mas é preciso abrir não somente as janelas que dão para dentro, mas as janelas do mundo, pois criação e vida passaram a ser, cada vez mais, parte do mesmo processo, assim como ficção e documentário passaram a ser indissociáveis. Essa brisa tem cheiro de chuva e gosto de relva. Essa brisa tem gosto de afeto, vem da necessidade de estar junto, de romper a hierarquia dos sets de filmagem das grandes produções, e trabalhar todos juntos para plantar sonhos. O cinema como vocação, e não como profissão. Essa brisa surge do cansaço com o mormaço de um cinema que quer ser meramente uma mercadoria para ser exposta num botequim, posando de grã-fina enquanto está no cheque especial. De roupagem elegante e espírito pobre. (Ou ainda, de uma roupagem elegantemente brega). Sentimos essa brisa de pés descalços e corações abertos, pois “não temos tempo de temer a morte”. Um cinema que transforma suas precariedades em potência, um espírito coletivo que rompe a armadura dos pólos para aproximar as teias das redes. De Fortaleza a Belo Horizonte é apenas um passo. Um cinema que é leve como um beijo e violento como um soco no estômago. Um cinema jovem e travesso mas maduro e sereno. Essa brisa traz algo de novo no ar que eu não sei bem o que é: eu só sei que é lindo, e que quero fazer parte disso. Não sei quanto tempo vai durar, se é uma pura ilusão, ou se é uma mera impressão. Se isso já aconteceu antes, se não é nada novo, não me importa, eu nunca vi. Eu só sei que há algo de novo no ar, que eu não sei bem o que é, e que quero senti-la, pelo menos hoje. Eu te amo.