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Cinecasulofilia

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segunda-feira, março 21, 2011

Janelas Livres

Compartilho com vocês o texto que escrevi para a apresentação da sessão "Janelas Livres", dentro da Mostra do Filme Livre, no CCBB/RJ. Ele consta do catálogo, mas como não está no site da Mostra, e considero um texto bem singelo, e bem típico do tipo de olhar íntimo que venho procurado desenvolver ao longo dos meus últimos textos, eu coloco ele aqui.

Nos últimos anos, uma brisa de ar fresco vem assombrando o pacato litoral do cinema brasileiro. Uma brisa suave que respira um sentimento de juventude e de renovação. Na verdade não se sabe muito bem que brisa é essa, apenas que se tem a sensação que ela brilha e nos refresca. Não é um tsunami, mas simplesmente uma brisa serena, que transforma porque abre portas. Essa brisa tem ganhado diversos nomes, “novíssimo cinema brasileiro”, “nova cena”, ou, como colocamos aqui, um “jovem cinema contemporâneo brasileiro”. Independentemente do rótulo ou do fato de que não sabemos muito bem qual é a sua natureza, é possível senti-la se passearmos por aí, fora do ar condicionado central dos shopping centers, ou simplesmente se desligarmos nossas televisões e abrirmos as janelas para escutar o canto dos pássaros. Mas é preciso abrir não somente as janelas que dão para dentro, mas as janelas do mundo, pois criação e vida passaram a ser, cada vez mais, parte do mesmo processo, assim como ficção e documentário passaram a ser indissociáveis. Essa brisa tem cheiro de chuva e gosto de relva. Essa brisa tem gosto de afeto, vem da necessidade de estar junto, de romper a hierarquia dos sets de filmagem das grandes produções, e trabalhar todos juntos para plantar sonhos. O cinema como vocação, e não como profissão. Essa brisa surge do cansaço com o mormaço de um cinema que quer ser meramente uma mercadoria para ser exposta num botequim, posando de grã-fina enquanto está no cheque especial. De roupagem elegante e espírito pobre. (Ou ainda, de uma roupagem elegantemente brega). Sentimos essa brisa de pés descalços e corações abertos, pois “não temos tempo de temer a morte”. Um cinema que transforma suas precariedades em potência, um espírito coletivo que rompe a armadura dos pólos para aproximar as teias das redes. De Fortaleza a Belo Horizonte é apenas um passo. Um cinema que é leve como um beijo e violento como um soco no estômago. Um cinema jovem e travesso mas maduro e sereno. Essa brisa traz algo de novo no ar que eu não sei bem o que é: eu só sei que é lindo, e que quero fazer parte disso. Não sei quanto tempo vai durar, se é uma pura ilusão, ou se é uma mera impressão. Se isso já aconteceu antes, se não é nada novo, não me importa, eu nunca vi. Eu só sei que há algo de novo no ar, que eu não sei bem o que é, e que quero senti-la, pelo menos hoje. Eu te amo.

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