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Cinecasulofilia

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segunda-feira, abril 18, 2011

Copie Conforme

Cópia Fiel
de Abbas Kiarostami


Cópia Fiel é um filme sutil, de diversas camadas, que provavelmente precisará de anos para ser de fato avaliado. O que dizer sobre Cópia Fiel? O que mais gostaria de dizer é que ele é um remake de Viagem à Itália, ou ainda, que a posição de Cópia Fiel na filmografia de Kiarostami possui muitos diálogos com a posição de Viagem à Itália na de Rossellini. Depois de três filmes bastante radicais, em que Kiarostami tensiona os limites entre a representação e o documental, com planos muito longos, fortemente calcados numa estrutura formal, experimentando com o digital, como em Dez, Cinco e Shirin, agora Kiarostami retorna ao “cinema propriamente dito”, ao enredo ficcional. E mais: trata-se de sua primeira produção internacional, a primeira filmada fora do Irã, com o star system do cinema de arte (Juliette Binoche). O que essas mudanças trazem para a encenação do filme? Poderíamos dizer que, em contraste com a radicalidade de seus três filmes anteriores, Cópia Fiel é mais convencional?

É difícil tentar precisar o que representa esse passo de Kiarostami, pois, num certo sentido, Cópia Fiel pode se parecer com Antes do Pôr do Sol, o filme do Linklater, em que um antigo casal se reencontra após o lançamento do livro de um deles, e passeiam ombro a ombro em Paris, como se fosse uma radionovela temperada com planos cartão-postal de Paris. “Pode se parecer” é uma expressão boa, pois Cópia Fiel é um filme sobre as falsas aparências, até porque nada se afastaria mais de Cópia Fiel do que o tão próximo filme de Linklater. É por isso que retomo a comparação com Rossellini: Viagem à Itália, no início dos anos cinquenta, poderia parecer um filme-óvni, pois as opções de Rossellini (como a escolha dos atores, mas, claro, não só isso...) muito fugiam do que se esperava de um cineasta egresso do neorealismo italiano. Mas nada era conservador, pois no filme tudo o que se mostrava na verdade escondia, e todo o filme é uma construção aguda da crise de um casal, que se descobre na falta, e o tom cristalino de Viagem à Itália revela um “desentendimento” entre a geografia física do interior italiano e a geografia íntima desse casal.

O próprio título já nos apresenta as torções entre documentário e ficção, ou entre representação e real, de uma outra forma, mais estranha que costumamos a ver: Cópia Fiel. Uma palestra, campo-contracampo. Mas há algo estranho que não está lá, que sempre nos falta, apesar do estilo cristalino de Kiarostami (num exemplo mais básico: o olhar do filho de Binoche que desvela as atitudes da mãe). Cópia Fiel é sobre o quê, se não essencialmente sobre um jogo de ser, sobre os mil jogos de espelho, em que narrativa e representação se confundem com a própria essência de ser dos personagens? Enquanto somos, brincamos de ser, jogamos com nossas próprias representações de nós mesmos.

Cópia Fiel, é claro, também prossegue com alguns modelos-fetiche de Kiarostami, inserindo novas camadas nesses diálogos. Um deles é entre o interior e o exterior. Há os lugares fechados, os diálogos nos carros, os becos, mas por outro lado Kiarostami observa a Itália e a Toscana, caminha pelas ruas e respira desse clima como poucos filmes do cinema recente (lembro talvez A Religiosa Portuguesa). Cópia....fiel: os jogos de espelho confundem o espectador que espera um filme transparente, um repouso confortável. Jogos de temporalidade, jogos entre a relação entre os dois personagens (quando começaram a ser um casal?: ora, começaram a ser um casal após a primeira meia hora de filme, após a cena do café...), jogos entre a beleza da Toscana (o clichê do amor como mercadoria para turista nos casamentos bregas ou de fato ainda assim pode-se encontrar o verdadeiro amor?), ou ainda, jogos entre as convenções do “cinema de arte”. Existe uma ironia fina no filme que nos perturba, mas que não impede que Kiarostami construa, ainda assim, um cinema em continuidade estilística com diversas de suas preocupações. Em suma, se os primeiros filmes de Kiarostami foram muito identificados com o neorealismo italiano, é possível dizer que Cópia Fiel é um remake de Viagem à Itália, de Rossellini.

Na verdade, não faz mais sentido falar em “jogos de espelho” ou “jogos de quebra-cabeça” em Cópia Fiel. Melhor dizendo, Cópia Fiel é um filme sobre o “desentendimento”. Desentendimento entre os membros de um casal, que ecoa para um desentendimento entre o filme e o espectador.

sábado, abril 02, 2011

CARTAS AO CEARÁ

Num momento em que Tropa de Elite 2 bate todos os recordes de público do cinema brasileiro, e num momento em que os festivais no Brasil florescem e dão suporte ao surgimento dessa bela nova cena de um cinema brasileiro contemporâneo, tenho a necessidade de fazer filmes para poucos, que circulem pouco, o menos possível. Diminuir o número de pessoas a quem se destinam os filmes e restringir seu circuito de circulação. Com uma pequena câmera e uma pequena ilha de edição, posso fazer pequenas obras audiovisuais que não sejam um produto, uma mercadoria, que circula num mercado, em busca de uma formação de preço, em busca de uma vitrine que irá legitimar sua produção, encontrar o “seu valor”. Essas obras audiovisuais podem ser, ao contrário, singelos sinais de amizade, simples gestos de amor, breves mensagens colocadas dentro de garrafas e jogadas ao mar.

Por isso, fiquei com vontade de fazer diversas cartas audiovisuais e mandar para os meus amigos. O “circuito de difusão” da obra seria esse: mandar pelo correio o DVD com o filme para três ou quatro pessoas. Encontrei o formato da carta como um formato que me oferecia muitas possibilidades, pois uma carta é sempre um face-a-face: quem escreve uma carta, fala para o destinatário, mas acaba inevitavelmente falando também para si mesmo. Uma carta é sempre uma tentativa de comunicação, uma abertura para o mundo, uma abertura de si para o outro. Ao mesmo tempo, toda carta traz consigo uma inevitável ideia de saudade e distância. Escrevemos uma carta porque, por um motivo ou outro, não podemos estar junto, não podemos estar perto do outro. A carta supriria essa saudade ou essa distância. Uma distância física que se transforma em uma distância íntima. Essa “geografia emocional” baseada na distância e na proximidade (uma tentativa de comunicação, um diálogo de uma intimidade) em muito me interessam, pois acredito que todos os meus filmes até então foram baseados exatamente nisso.

Essas cartas no entanto não seriam meramente confessionais ou meramente descritivas de uma rotina. Com isso, quero dizer que procurei nessas cartas travar um diálogo sutil que pudesse mostrar a mim mesmo e a minha rotina não como mera descrição (uma narração em voz-over que ilustrasse imagens, como se fosse uma carta escrita), mas sim através de uma escrita não literária mas cinematográfica, a partir de uma articulação entre imagens e sons. Essas cartas não seriam portanto diálogos diretos para as pessoas (“Luiz, estou triste porque meu trabalho é um saco, mas quando saí no final de semana e vi umas pombas brancas no solo, pensei em como nossa liberdade é fugidia, e acabei inevitavelmente lembrando do Five do Kiarostami, e fiz essas imagens pensando em vocês aí do Ceará que sabem viver esse momento único de felicidade e liberdade através de uma atitude afirmativa de estar no mundo e criar a partir disso.”). Ao contrário, o desafio é transformar esse pensamento mesmo não com palavras (literatura) mas por meio do cinema. Sem querer explicar, mas apenas dividir, compartilhar. Ou seja, as cartas nascem de uma necessidade não de descrever ou de explicar os meus dias, mas de compartilhar algumas reflexões que nascem dessa distância, e a partir dessas imagens (e desses sons) promover uma tentativa de reaproximação, como se o cinema pudesse talvez reduzir a distância e a saudade por meio de uma abertura para o mundo e para o outro.

Por isso, para mim é muito significativa a escolha de serem todas cartas “para o Ceará”. Um lugar distante de mim (culturalmente, geograficamente) mas ao mesmo tempo muito próximo, muito íntimo, porque lá tenho amigos e porque lá desabrocha um sentimento para a vida e para a criação que muito me interessam. Mas estou do “lado de cá”, no Rio, observando isso à distância, com saudade das conversas e dos dias que estive lá. Desse modo, essas Cartas ao Ceará mostram, acima de tudo, através de sua atitude libertária no ato de filmar, montar e enviar essas obras finalizadas, um desejo de estar próximo, um desejo de cruzar essa fronteira “do lado de cá” para o “lado de lá”.

Por isso, acho muito bonito o fato de essa série ter terminado simplesmente porque consegui atravessar essa fronteira, indo morar no Ceará. Hoje não preciso mais mandar cartas; eu encontro com as pessoas. Acontece que algumas dessas pessoas, por circunstâncias do destino, não estão morando mais no Ceará. Ou ainda, acontece que eu gostaria de mandar mensagens para alguns amigos do Rio, como se fosse um sinal de que sinto saudades mas de como é importante ter atravessado essa fronteira.

Assim, uma coisa que muito me emociona é a possibilidade de transformar essa série de “cartas AO Ceará” em “cartas DO Ceará”. A própria possibilidade de fazê-lo mais do que justifica toda a minha energia envolvida nelas. Percebam que não são “cartas ao Rio”, mas sim “cartas do Ceará”.

Sim, mas isso não responde ao essencial: por que mostrar essas cartas para outras pessoas, além daquelas a quem as cartas a princípio se destinam? Na verdade, não sei bem responder a essa pergunta. Acho que no fundo é esse desejo que nos move como criadores: é a diferença da carta para a literatura, ou o porquê de resolvermos tirar os nossos escritos da gaveta e publicá-los em algum lugar outro, ou mesmo mostrar para alguém. Queremos mostrar talvez para sermos compreendidos, ou simplesmente para nos sentirmos menos sós. Depois de um primeiro ciclo, mandando as cartas para os respectivos destinatários, me sinto pronto para que agora, algum tempo depois, eu possa dividi-las com um outro pequeno conjunto de pessoas que por ventura se interessem no que elas têm a dizer.

Exibir essa série de cartas na Mostra do Filme Livre para mim adquire um significado muito especial, pois foi nessa sala de vídeo em que passei vários dos meus vídeos caseiros, e a minha trilogia de longas esquecida. Acho que aqui é o lugar perfeito para acolher esse projeto tão singular.


CARTAS AO CEARÁ #02
(MiniDV, 2009, 11’)
Naquela fria noite em minha casa, me lembrei de alguns de vocês. Estava só e me aqueci com uma canção, enquanto dormia.

CARTAS AO CEARÁ #03
(MiniDV, 2009, 9’)
Quando estive em Muniz Freire, me lembrei de alguns de vocês. Dois caminhos.

CARTAS AO CEARÁ #04
(MiniDV, 2009, 9’)
Quando estive em Parati, me lembrei de alguns de vocês. Entre os cachorros e os pombos, um olhar. Filmar é escolher. Deixar de fora. Como a vida.

CARTAS AO CEARÁ #05
(MiniDV, 2009, 2’)
Quando estive em Parati, me lembrei de alguns de vocês. E do Five do Kiarostami.

CARTAS AO CEARÁ #06
(MiniDV, 2009, 9’)
Na Taíba, me lembrei de vocês. Somos pequenos diante do mundo, mas somos.

CARTA DO CEARÁ
(MiniDV, 2011, 9’)
Quando saí de lá, me lembrei de vocês e deixei uma janela aberta. Uma despedida.