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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

domingo, maio 29, 2011

a força do que escrevo
não vem das palavras
mas de dentro de mim

não sei escrever poesia
escrevo palavras
escrevo pra que o tempo passe
pra matar a saudade
de mim
escrevo porque não consigo te dizer
eu t

e a

como um soluço trôpego
que só sossega quando morre
morre
mor re
mor
re em m
im

sábado, maio 28, 2011

ontem vi Rosetta pela sétima vez. Pela sétima vez descobri, redescobri coisas. Descobri, me lembrei. Percebi relações entre planos, paralelismos, a construção sutil de elementos. Desmontei um pouco mais o brinquedinho. Ao mesmo tempo me emocionei, torci, sofri como na primeira vez. Ou melhor, de outra forma, mas ainda assim o senti forte dentro de mim. Percebi que Rosetta fala de mim hoje, neste momento, que sou a menina tola que não consegue receber afeto, que corre pelas ruas querendo “uma vida normal” mas sem nada ver. Que corre tolamente. A essência de Rosetta nem é tanto o preciso retrato social da precariedade do trabalho e da falta de perspectivas dos jovens na Europa pós-União Europeia ou mesmo a linguagem asfixiante dos Dardenne, com sua câmera inquieta e som hiper-realista que dão ao filme seu caráter tão urgente e inquietante. Mas o que o faz verdadeiramente ser tão pungente é ser sobre uma pobre menina que não lhe parece mais ser possível ouvir “eu te amo”, imaginar que possa ser amada e que ela precisa de ajuda e de afeto. Se ela não consegue ouvir “eu te amo”, quanto mais a possibilidade de dizê-lo...

quando ontem vi Rosetta pela sétima vez, percebi que, para poder dizer "eu te amo", é preciso, antes de tudo, ouvir você.

ontem bateu um vento frio
que me fez lembrar de você

era noite

fechei os olhos
e quando abri
você já tinha ido

amanhã poderia ser um novo dia
mas não é

só o que é
é hoje

sábado, maio 21, 2011

Quando alguém
algum dia
me perguntar
de você
darei um suspiro
como o vent
o que
se es
vai

Quando escrevo,
estou preocupado
- mais do que com o texto -
com as entrelinhas,
com o espaço entre as linhas
e o que elas escondem
de mim

Ali
onde me perco
você pode
- se quiser -
me encontrar

sexta-feira, maio 20, 2011

melhor parar por aqui
já falamos demais
é tarde
bom mesmo seria
dar as mãos
e esperar pelo fim

quarta-feira, maio 04, 2011

tudo
vai
bem
nem
tudo
vem

vai
(n)ada
ou
mal
cai
(n)ada

Adventureland

A princípio, ADVENTURELAND (“Férias Frustradas de Verão”, título, aliás, horroroso...) surpreende para quem viu SUPERBAD. Aqui, ao invés das estripulias de uma comédia maluca para adolescentes, no ritmo dos filmes high-school e do protótipo de American Graffiti, há uma unidade dramática maior, um filme mais coeso, mais delicado. Mas pode surpreender para quem viu SUPERBAD sem prestar atenção no final, uma enorme declaração de intenções do cinema de Motolla. Nesse final (repito, antológico), fica claro que SUPERBAD é acima de tudo um “romance de formação”, ou ainda, um filme sobre uma despedida e um encontro. A despedida marca o fim desse processo de amadurecimento.

ADVENTURELAND, nesse sentido, dá continuidade ao final de SUPERBAD. O filme se passa num entremeio temporal e espacial. Temporal, porque se dá num tempo de espera, nas férias logo depois de o protagonista se formar na Universidade, nesse sentido quase que uma continuação de SUPERBAD (além disso, o filme começa com uma cartela informando que se passa em "1987"). Só que agora ele precisa trabalhar para ganhar o dinheiro que falta para uma viagem à Europa, e nesse trabalho encontrará pessoas que acelerarão seu rito de passagem. SUPERBAD começa como um filme “quase fútil”, e aos poucos, vai desvelando suas intenções mais recônditas: ser um filme sobre o valor da amizade. ADVENTURELAND já se revela desde o primeiro plano: um close de Jesse Eisenberg para o extracampo, com tudo o mais fora de foco, num certo deslocamento do tempo e do espaço. Um olhar para uma mulher (não mais para um amigo): um olhar que deseja uma relação de verdade (não somente sexo), mas parece que isso não é o suficiente (ou ainda, esse olhar não é correspondido). Todo o percurso do filme é em direção à possibilidade de esse plano possuir um contracampo adequado. E quando isso se dá – no último plano do filme – é claro que acontece num só plano. E ao invés do olhar, há o corpo. Ou melhor, não são apenas os olhares que se cruzam, mas os corpos.

Esse entremeio é também do espaço. É lindo o título original (um filme entre a despedida das tolas aventuras de brinquedo e a “dor e a delícia” da aventura de viver e de amar) e a ideia de passar todo o filme num parque de diversões meio decadente, que os funcionários claramente “não curtem” o lugar. Esse parque é uma espécie de lugar transitório em que os personagens inevitavelmente pertencem a ele mas ao mesmo tempo não querem mais pertencer, querem deixar para trás, como espelho da própria adolescência e do próprio sentimento dos personagens. A relação de proximidade e distanciamento dos personagens em relação ao espaço físico é análoga à que eles possuem em relação a si mesmos.

O pequeno mundo de Adventureland funciona quase como uma provinciana cidade do interior, com sua micropolítica, com suas picuinhas, boatarias e relações de poder. Para fazer filmes, é preciso, antes de tudo, ser um bom observador. Neste que é claramente um filme menor, Motolla confirma sua vocação de observador dos sentimentos da juventude, optando por uma dramaturgia de contenção ao invés de pulverizar as ações como no seu anterior SUPERBAD. São dois filmes de opções de encenação diferentes, mas no fundo saímos com a impressão de que ambos são sobre a dificuldade de se dizer “eu te amo” pela primeira vez.

terça-feira, maio 03, 2011

SUPERBAD - É HOJE, produzido por Judd Apatow e dirigido por Greg Mottola, dá continuidade a um certo olhar de cinema que produz filmes jovens. Este Superbad curiosamente se parece com filmes dos anos oitenta ou até mesmo de meados dos anos setenta que lidam com o ambiente da high-school. Os próprios créditos de abertura dão um certo tom ao filme, quase de homenagem a um certo cinema. Por isso, de uma certa forma, Superbad parece uma refilmagem de American Graffiti, o protótipo dos filmes adolescentes da época que coloca curiosamente um certo tom melancólico na noite de despedida desse garoto do mundo provinciano mas maravilhoso de sua cidadezinha, antes de ele pegar o avião e ir estudar na universidade numa grande cidade. Superbad também tem um tom de despedida: o filme fala de dois amigos que vão se separar porque um deles vai para uma universidade melhor. Antes, eles vão para uma festa, em que tentarão ficar com uma menina, e, para isso, precisam levar bebidas alcoólicas para a festa, e nisso se metem em mil enrascadas. É lindo como os policiais são caracterizados nesse filme. De qualquer forma, o filme caminha, com um certo mau gosto, sem atropelos, ligado a um certo tipo de cinema. No entanto, há um final extremamente desconcertante. O final de Superbad é um dos mais tocantes epílogos desse cinema da amizade adolescente. É quando um dos personagens diz “eu te amo” para seu amigo. A forma como esse “eu te amo” é encenada por Motola entra, sem exageros, em qualquer antologia desse cinema adolescente. Há, logo depois, uma cena tão ou mais desconcertante, quando os dois amigos finalmente se despedem, quando arrumam uma namorada. Mesmo depois do encontro desastrado na noite anterior, os casais vão ficar juntos. Os quatro se encontram num shopping, primeiro os dois homens e as duas mulheres, e em seguida, formam-se os dois casais. Os amigos se despedem. Há um plano-ponto de vista de Jonah Hill visto pela escada rolante. É incrível! Essas duas cenas mostram um lado surpreendentemente afetivo e belo no que aparentemente tendia ao mau gosto e ao corriqueiro. O fato de termos visto todo o filme só valoriza ainda mais a bela encenação dessas duas cenas, de antologia. São elas que fazem de Superbad um retrato extremamente maduro e afetuoso sobre o valor da amizade e a inevitabilidade da separação.

apatow

Ver os três filmes dirigidos por Judd Apatow é acompanhar um processo de desvelamento de intenções. Enquanto O Virgem de 40 anos ainda era muito dominado pelas convenções de um certo tipo de comédia (o desejo de fazer seu personagem central um grande excêntrico), em Ligeiramente Grávidos, Apatow busca radiografar a possibilidade de um encontro atípico entre personagens muito diferentes. Esse encontro é delicado e a diferença é mostrada com muito menos caricaturas por Apatow. Mas seu filme seguinte, Tá rindo de quê, é surpreendente porque é absolutamente pessoal. Uma comédia em tom de drama. Um filme metalinguístico, que fala de um comediante que tem a necessidade de fazer as pessoas rirem quando ele próprio não quer mais rir. Há várias camadas nesse filme, um certo tom sombrio que acompanha o próprio processo de criação desse palhaço desgraçado (solitário, ranzinza, vaidoso, egoísta). Mas o que é formidável é que Tá rindo de quê poderia ser um desses filmes em que Bill Murray veste uma máscara keatoniana, ou o último filme da Sofia Coppola. Mas Apatow não quer se lamentar por isso. Apesar de ser um filme absolutamente pessoal (Apatow começou no Improv, é amigo pessoal de Sandler, sua esposa e filhos trabalham no filme, etc.), Apatow faz questão de afirmar que, em última instância, tratam-se de escolhas, pessoais e profissionais, e que se deve arcar com a responsabilidade por essas escolhas. Tá rindo de quê é um pouco amargo e cínico, e é difícil o espectador se identificar totalmente com os personagens, porque eles fazem coisas condenáveis (mesmo Seth Rogen não chama seu amigo para fazer as piadas com ele, tem raiva do antigo amor de Sandler, ...). E o passado não volta nunca. O final é extremamente amargo, mas profundamente verdadeiro. Pobres ou ricos, com reconhecimento ou sem reconhecimento, os dois personagens se encontram no que eles têm de mais essencial: a possibilidade de rirem um da piada do outro. Com base nos infortúnios da vida, eles pelo menos continuam criando. Enquanto criam, esquecem um pouco da dor que vivem.

How do you know

Como você sabe
De James L. Brooks
**


Num mundo cada vez mais competitivo e materialista como o norte-americano, ainda há espaço para o encontro? Pelo menos para James L. Brooks, sim. Como é possível falar da filmografia desse “velho diretor de TV”? Brooks ganhou popularidade com os oscares de Laços de Ternura, mas quase trinta anos depois deu continuidade à sua filmografia de forma bastante esparsa, preferindo dedicar-se mais à produção de filmes, e claro, de séries de TV. Dirigiu apenas seis filmes, desde 1983, mas sua discreta filmografia aponta para uma coerência. Uma simplicidade estilística, uma opção pelo texto. Ou ainda, um entremeio entre a comédia e o drama. De qualquer forma, sempre seus personagens são malucos, mas nunca vistos como meramente excêntricos. Há uma forma afetuosa como Brooks retrata os limites de seus personagens, geralmente desengonçados, instáveis emocionalmente, incapazes de resolver com equilíbrio suas situações. Há sempre algo que falta nesses personagens, e eles partem em busca de algo que eles próprios não sabem bem o que é. Eles precisam ser o que são. É quando assumem essa falta que os personagens se encontram. Quem não se lembra de “Melhor é Impossível”, lindo filme de Brooks em meados dos anos noventa? Era sobre isso. O personagem de Jack Nicholson era irritante, mas quem não se comovia com ele? Três personagens marginais se juntam para uma viagem, em que, juntos, eles conseguem lidar com seus limites. Tudo é muito simples, cristalino, bem iluminado demais, mas há uma procura por um tom humano que busca olhar de forma generosa para personagens diferentes, e esse é um mérito muito grande.

How do you know (Como você sabe) não é diferente. É um filme de 2010, seis anos após seu filme anterior (Espanglês) e treze anos após Melhor é Impossível. Mas Brooks, apesar de esporadicamente exercer o ofício da direção, não perde a mão. E não perde o olhar sobre seus personagens. Aqui uma mulher fica dividida entre dois homens. Eles são diferentes, e ela não sabe o que quer. Os dois homens possuem o seu jeito desengonçado, falho e instável. Os dois precisam de ajuda, mas os dois são o que são, e os dois a amam da forma que lhes é possível. A forma como Brooks olha para os três personagens, e a forma como Brooks irá caracterizar cada passo desses personagens é cheia desse tom que reafirma a diferença, mas que ao mesmo afirma a possibilidade dessas diferenças somarem. É um olhar generoso. Por trás das convenções de sempre da comédia romântica, da decupagem cheia de planos médios de campo-contracampo, há um desejo de encontro.Ao reafirmar a possibilidade desse encontro surgir nas situações mais improváveis, com um casal improvável, Brooks se revela uma fabulador humano, atento aos detalhes de ser, respeitoso à diferença, tolerante, e acima de tudo generoso.

Aos setenta anos, Brooks, conhecido por ser um bom dialoguista e diretor de atores, opta pela contenção. Há momentos de silêncio, mas sempre integrados à narrativa. No mais belo deles, no primeiro encontro entre o casal protagonista, em que ambos estão cheios de tensão e precisam desabafar um para o outro, os dois fazem um pacto: simplesmente saborear a comida sem nada dizer um ao outro. Eles comem e a câmera simplesmente mostra os dois saboreando um prato no restaurante. Ali eles se entendem e se amam. Momento simples, mas surpreendentemente tocante, que mostra a ética particular do cinema de Brooks.