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Cinecasulofilia

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terça-feira, maio 03, 2011

apatow

Ver os três filmes dirigidos por Judd Apatow é acompanhar um processo de desvelamento de intenções. Enquanto O Virgem de 40 anos ainda era muito dominado pelas convenções de um certo tipo de comédia (o desejo de fazer seu personagem central um grande excêntrico), em Ligeiramente Grávidos, Apatow busca radiografar a possibilidade de um encontro atípico entre personagens muito diferentes. Esse encontro é delicado e a diferença é mostrada com muito menos caricaturas por Apatow. Mas seu filme seguinte, Tá rindo de quê, é surpreendente porque é absolutamente pessoal. Uma comédia em tom de drama. Um filme metalinguístico, que fala de um comediante que tem a necessidade de fazer as pessoas rirem quando ele próprio não quer mais rir. Há várias camadas nesse filme, um certo tom sombrio que acompanha o próprio processo de criação desse palhaço desgraçado (solitário, ranzinza, vaidoso, egoísta). Mas o que é formidável é que Tá rindo de quê poderia ser um desses filmes em que Bill Murray veste uma máscara keatoniana, ou o último filme da Sofia Coppola. Mas Apatow não quer se lamentar por isso. Apesar de ser um filme absolutamente pessoal (Apatow começou no Improv, é amigo pessoal de Sandler, sua esposa e filhos trabalham no filme, etc.), Apatow faz questão de afirmar que, em última instância, tratam-se de escolhas, pessoais e profissionais, e que se deve arcar com a responsabilidade por essas escolhas. Tá rindo de quê é um pouco amargo e cínico, e é difícil o espectador se identificar totalmente com os personagens, porque eles fazem coisas condenáveis (mesmo Seth Rogen não chama seu amigo para fazer as piadas com ele, tem raiva do antigo amor de Sandler, ...). E o passado não volta nunca. O final é extremamente amargo, mas profundamente verdadeiro. Pobres ou ricos, com reconhecimento ou sem reconhecimento, os dois personagens se encontram no que eles têm de mais essencial: a possibilidade de rirem um da piada do outro. Com base nos infortúnios da vida, eles pelo menos continuam criando. Enquanto criam, esquecem um pouco da dor que vivem.

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