.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

segunda-feira, julho 11, 2011

Midnight in Paris

Meia-Noite em Paris
de Woody Allen
Iguatemi 9 dom 10 19:40
***


Talvez seja difícil de explicar com precisão mas achei o novo filme do Woody Allen uma experiência extremamente comovente. Repetir, repetir, repetir; mudar, mudar, mudar. Woody Allen sempre quis fazer filmes que se comunicassem com o público. Acontece que ele sempre achou que isso era possível sem ser vulgar, e ao mesmo tempo, confessando sua inaptidão para os devaneios intelectuais, para o panteão do “cinema de arte”. Qual a solução? Trabalhar, ser honesto, ser fiel a si mesmo, descobrir-se trabalhando, conformar-se com seus limites, e tentar fazer algo a partir disso. E, claro, amar! Cineasta maduro, com um ritmo de produção alucinante, Allen quer reinventar-se repetindo. Repetindo para confirmar, repetindo para transformar. Prova disso é a extraordinária sequência de abertura do filme. O que dizer diante dela?

De um lado, Meia-Noite em Paris é o filme de maior bilheteria dos últimos filmes de Woody Allen, maior mesmo do que Vicky Cristina Barcelona (aqui), que inaugurou recente verve do diretor em subverter cartões-postais. A comunicação com o público, curiosamente a partir de um filme que dialoga com uma Paris dos anos vinte – e não uma Paris atual de cartão-postal – não significa abrir mão de um olhar coerente com sua filmografia recente.

A solução é o trabalho, é ser honesto, e é também o amor. Filme didático, como o velho cinema americano. Filme subversivo. Me lembro de como critiquei aqui o último filme do Arnaldo Jabor por achá-lo passadista, por como Jabor valoriza as belezas do passado e se limita a, de forma nostálgica, dar as costas para o mundo. O filme de Allen é o oposto: Owen Wilson é um escritor que mergulha numa Paris dos anos vinte. Se é alucinação, sonho, efeito da bebida ou recurso surrealista, não importa. Tudo é resolvido com um corte seco, com uma entrada e saída de quadro. Uma espécie de “carroça fantasma” bergmanosjostromiana que, ao invés de levar para a morte, leva o personagem para o passado, ou ainda, o leva de encontro para si mesmo. A cidade de ontem era fantástica, mas o passado só serve para reinstalar o personagem de encontro aos seus desafios do presente, o passado funciona como forma de fazê-lo ver o presente melhor. Ver as obras dos artistas versus viver da arte, ou ainda, con-viver. Criar é poder respirar um clima de criação, é poder conversar, dividir as angústias, é amar, uma aventura do viver. Meia-Noite em Paris pode ser visto como um documentário sobre o cinema de Fortaleza em 2011. Solitário, Owen Wilson encontra seus amigos num mundo de ontem, mas a partir desse diálogo improvável, ele consegue ver seus desafios de hoje, consegue reinstalar-se no mundo, e não fugir dele. Como se fosse o próprio Allen, uma ilha diante do cinema de hoje. A solução: trabalhar, ser verdadeiro, amar. Encontrar-se com o mundo, tentar ser generoso, menos derrotista, como diz a ele Gertrud Stein. Criar é abraçar-se ao mundo. Wilson então não é escapista, mas está sendo fiel a si mesmo. É possível abraçar-se ao mundo mesmo fazendo uma arte que não seja um elogio ao mundo que vivemos. (Ou ainda,  - na pior das hipóteses - é possível criar sozinho, mesmo que seja inventando amigos imaginários - nesse caso, seria um filme sobre a solidão.)

Há um momento em que Hemingway pergunta a Wilson se ele sempre tem medo da morte. Pergunta se há um momento que ele a esquece. Wilson fala que não. Hemingway insinua que provavelmente ele nunca amou uma mulher de verdade. Pois nesse momento, diz ele, nos esquecemos da morte. É lindo. Num outro momento, Hemingway diz que a obra será boa se for verdadeira e honesta. E sugere que ele não siga conselhos de outros escritores, invejosos se o romance for de fato bom.

Allen não poderia ter dado melhores conselhos para os aspirantes a cineastas. Não seguir conselhos, e sim... amar, trabalhar, ser honesto. Tarefa impossível nos dias de hoje, dominados seja pelo pedantismo acadêmico ou pelas patricinhas do dinheiro e do poder. A elegância, a simplicidade de Meia-Noite em Paris, seu tom romântico, ligeiramente ingênuo, comprovam a maturidade de Allen, que não quer mais provar nada para ninguém, apenas ser honesto, ser coerente com o que vem insistentemente tentando criar até aqui. Meia-Noite em Paris é um filme sobre a criação, sobre a necessidade de fazer escolhas, e como o passado pode nos orientar para o presente, desde que saibamos que o nosso lugar e o nosso tempo é hoje. A aposta por uma inesperada atualidade é o que faz deste filme para mim uma experiência extremamente comovente.

1 Comments:

Anonymous Valéria said...

É interessante como as obras quase sempre nos despertam para alguma compreensão de seus autores... eu fico pensando que, nesse filme Allen faz a crítica à sociedade (estadunidense, no caso) mas mesmo assim, não é totalmente cínico com as relações humanas, como foi em muitos outros. Talvez ele tenha conseguido conquistar algo, superando um certo "pedantismo intelectual"... E está aí, a comunicação com o público... um filme realmente agradável e interessante (a mim nunca agradou o excessivo cinismo).

12:07 PM, julho 11, 2011  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home