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Cinecasulofilia

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domingo, agosto 14, 2011

Gertrud, sempre


O olho só nos serve se ele nos mostra um olhar, ou seja, não é que o corpo não esteja em jogo mas ele só entra no jogo na medida em que nos aponta para o que está além do corpo, ou seja, não é que o físico (o materialismo) não seja levado em consideração, mas ele só entra em consideração na medida em que o físico nos serve como porta de entrada para o metafísico.

O despojamento de Dreyer aponta para o olhar de Falconetti mas se ele aponta para o olhar, antes ele precisa apontar para o olho. O cinema do Dreyer é um cinema do corpo, mas ele só o é na medida em que o corpo é um indício do que está além dele.

João Cesar Monteiro resumiu a questão quando, para falar de Gertrud, citou uma frase de La Fontaine “Aimer sans foutre c’est peu de chose / Foutre sans aimer ce
n’est rien”. A complexidade da beleza subversiva dessa análise de JCM mereceria um texto à parte.

Nesse sentido, o que um corpo revela e o que ele esconde? Até que ponto um corpo pode nos revelar ou esconder alguma coisa?

Todo movimento expressa um desejo. E o desejo está além do corpo. Mas o desejo é também amor. E se é amor passa pelo corpo. Desse modo, o que pode um corpo?

A mesma coisa podemos pensar sobre a palavra, porque a palavra também é corpo. Techiné escreveu um texto lindo sobre Gertrud porque observou que, quando falamos, já existe uma mediação entre o desejo e o verbo, já racionalizamos. Não é que a palavra seja menos desejo que o olhar mas é um desejo outro. Sinto algo mas esse sentir é diferente do que sinto ao dizer “sinto algo”. Pois quando digo já existe uma “mise en scene”

Em Gertrud o corpo e a palavra revelam e escondem, mas sempre apontam para o que há para além deles. Mas para isso é preciso ater-se à palavra e ao corpo. Ao contrário do despojamento de Joana D´Arc em que tudo era entregue ao olhar, em Gertrud tudo é entregue a um corpo (ou a um corpo e a uma palavra-corpo). Isso só nos surpreende se não nos dermos conta que esse corpo ou essa palavra só nos servem porque apontam sempre para o que há para além deles.

Mas o que é esse além-deles de que tanto falo? Para Dreyer, é o amor.

Ao amor, deve-se entregar tudo; o amor é desmedido, não há meios-amores, sempre deve ser tudo. Mas o ser humano não é tudo, ele é sempre meio. Ou seja, até que ponto podemos amar? Não sei se podemos, mas devemos. Até que ponto um corpo ou uma palavra podem ser instrumentos de amor? Não sei mas devemos fazê-lo deles.

Esta é a enorme miséria de nossa condição. Mas essa miséria é tudo que temos, é tamanha! Tamanha miséria!!!

Uma outra coisa que não conseguirei abordar aqui é que Gertrud é um filme sobre envelhecer. Sobre se é possível saber envelhecer. Será que já é passado o tempo de amar? Deve-se lembrar que Dreyer fez esse filme aos 75 anos, sendo seu último filme. Dreyer é o antípoda de Manoel de Oliveira: após um início frenético no cinema silencioso, em que chegou a realizar mais de um filme por ano, após os anos quarenta, por não conseguir financiamento (ou seja, não por opção), passou a realizar um filme por década. Se vivesse até os cem, como o cineasta português, teria feito mais um ou dois filmes, se tanto.

Gertrud é uma das maiores declarações de amor da história do cinema, e isso nos basta.

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