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Cinecasulofilia

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segunda-feira, agosto 08, 2011

you can't take it with you

Revi “Da Vida Nada Se Leva”, um dos filmes centrais da filmografia do Capra, e do qual eu já não me lembrava muito bem. O filme é bem interessante porque tem um tom curioso, entre o melodrama e a screwball comedy. Ou melhor, um roteiro que poderia ser tranquilamente desenvolvido como um grande melodrama fatalista, acabou se transformando, segundo a típica visão de Capra, em uma comédia, uma parábola sobre a possibilidade de convivência. Me parece que esse ingênuo filme do Capra é uma parábola sobre a Guerra de Secessão americana. Ou, dizendo melhor, é um filme que dá continuidade ao sonho de unificação da nação americana, e qual o papel do cinema nisso. Ou ainda, é como se Invictus, do Clint Eastwood fosse uma refilmagem do da vida nada se leva. Ou seja, é como se esse fosse – como diversos outros – um filme político do Capra. Um filme sobre como a política deve ser uma política do dia-a-dia, ou uma política “do ser” e não propriamente do agir. Essa é a atualidade do cinema político do Capra. Ou ainda, um embate entre “o cinema da amizade” e “o cinema do mercado”. Mas como Capra resolve ENCENAR essa tensão? Ora, através da screwball comedy, pois é exatamente desse modo irreverente, relaxado, que Capra aponta para a crítica a um modo de fazer pragmático (é como se estivesse explícito que o próprio Capra está do lado da família maluca, e isso é claro pelo tom de screwball que o diretor imprime ao filme – dirigir é sobretudo fazer opções). Do mundo nada se leva, filme atual, filme político, é também um filme sobre uma família (família composta não só por laços de sangue, mas por laços de amizade), e essa família está representada por um lar, uma casa – de modo que esse filme sobre a amizade é também um filme sobre uma casa. Esse espaço físico, que Capra vai de forma econômica mas muito hábil, decupar de forma bem diferente que o escritório político, é o grande protagonista do filme (até mesmo pelo roteiro: vender ou não a casa, como símbolo de uma forma de estar no mundo, diferente do poder ou dos bens materiais). Espaços físicos que têm íntima relação com instituições (o gabinete do político, o tribunal, a prisão, e claro, a casa), pois afinal de contas Capra é um moralista, preocupado com o sonho da nação americana, uma nação num período de penumbra, o entre-guerras, e pós crise de 29. Capra, o Dickens do seu tempo, compõe um mosaico hábil, entre gerações, entre gêneros, entre classes sociais, entre instituições. Um mosaico cristalino, sem grandes ambiguidades, linear, ingênuo, romântico, mas coerente, fiel, apaixonado e visionário. Até despontar um belo final, em que os dois homens finalmente se sentam juntos, e tocam uma gaita – a mesma gaita que usei no meu modesto “o posto”.

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