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Cinecasulofilia

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quinta-feira, setembro 15, 2011

Bela a palestra do Prof. João Luiz Vieira sobre o belo filme da Claire Denis, 35 Doses de Rum. Denis faz uma homenagem respeitosa a Ozu fazendo uma refilmagem de Pai e Filha mas a seu estilo próprio e não ao estilo de Ozu. Essa é uma bela homenagem, repensar a atualidade do mestre japonês mais de meio século após seu filme de origem, numa Europa globalizada, multiétnica. Ao mesmo tempo em que fala das minorias, a partir de um cinema humanista e familiar, Claire Denis nunca o faz por uma ótica assistencialista, como se os personagens fossem meros joguetes de classe, meras figuras representativas de sua condição social: para além de sua condição social, econômica ou étnica, o que importa essencialmente a Denis é sua dimensão humana, e com isso indiretamente o filme é uma enorme resposta a um certo cinema humanista um tanto esquemático, como os filmes de Kan Loach, por exemplo. Se de um lado 35 Doses de Rum pode ser visto com diversos paralelos à obra de Ozu, não só temáticos (a trama em si) mas estilísticos (as elipses, os trens, os corredores filmados em câmera baixa, a rotina vista de forma ritualística), é preciso perceber que Denis não simplesmente copia os filmes do diretor japonês como se simplesmente imitasse seu estilo: é perceptível o cinema de Denis no cruzamento de olhares, no trabalho dos atores, em como o corpo dos atores fala através de toques e gestos, em como a câmera na mão se aproxima desses corpos através de um cinema sensorial que algumas vezes se aproxima quase da videodança, dando ao filme um certo aspecto relaxado, de marcação muito mais livre do que as rígidas convenções de encenação e posição corporal e vocal dos atores de Ozu. Por fim, o prof. João Luiz resumiu do que se trata o filme quando abordou de forma simples mas extremamente concisa a essência do cinema de Ozu: através da opção da câmera permanecer nos corredores “vazios” mesmo após os personagens saírem de quadro, fala-se da transitoriedade da vida e da presença (ou da ausência) dos corpos e dos espíritos nesses espaços. Dessa forma, é possível pensar, por exemplo, o sugestivo final do filme de Denis, em relação final do filme de Ozu, comparando a importância ora de uma panela de arroz ora de uma maçã em cada filme.

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