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Cinecasulofilia

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terça-feira, abril 24, 2012

Entorno da beleza e L´apollonide


Gostei de Entorno da beleza, doc de Dácia Ibiapina, exibido em Tiradentes, sobre o universo do concurso de misses nas cidades satélites de Brasília. Algumas coisas me interessaram em particular nesse filme. Uma é seu olhar inusitado para a cidade e para a periferia, através de um concurso de beleza. É interessante pensá-lo como um olhar para as periferias de Brasília. Ele quebra um olhar preconbebido que veria esses concursos apenas como espaço de afetação, de meninas vaidosas e alienadas. Ao contrário, o filme é humano porque se debruça sobre esse mundo construído por mulheres comuns que lutam por seus sonhos. Daí o filme é preenchido por personagens que o senso comum rotula de desinteressantes com uma surpreendente dignidade.

De outro lado, acho muito sintomático que o filme não faça piadas ou gracejos com a suposta breguice desse universo. Ou seja, por trás de uma certa dureza, no fundo é um filme delicado e feminino, talvez como espelho da própria realizadora, assim como a vejo. O filme se coloca numa posição muito digna em estar nesse espaço – essa posição ética é o grande trunfo do filme. Como exemplo, digo que as sequências que mais me encantaram no filme são as que as meninas conversam entre si nos camarins ou nos intervalos de preparação para os espetáculos e ensaios. Ali o filme cria, através de uma mise-en-scène, um espaço de convivência entre as meninas, que dividem um momento de afeto e intimidade. Penso, de forma curiosa, esses trechos como uma espécie de L´Apollonide trazido para o contexto do cinema documentário contemporâneo brasileiro. Com isso, não quero ser mal interpretado: não digo que o concurso das misses é como uma casa de tolerância, mas simplesmente aponto para pontos de contato entre os olhares dos realizadores, em buscar o afeto e a intimidade entre meninas que estão juntas, revertendo olhares-clichês sobre o espaço de convivência do “por trás dos bastidores” de lugares empurrados para uma marginalidade, para a simples exploração dos corpos femininos. (As mulheres nos dois filmes não são vítimas, e – acima de tudo –  os olhares dos realizadores não a focam como vítimas, mas como cúmplices de um espaço de convivência onde há dor mas também espaço para a amizade, o sonho e o afeto). Nesses interins (nesses tempos de espera, nessas pausas), o filme revela sua força de observação, uma força dessas mulheres guerreiras que se completam na intimidade, que lutam por seus sonhos, em serem vistas como belas. (Elas também têm o direito de serem belas). Em outros momentos, em que o filme descreve as etapas do concurso, ou que procura situar o espectador do “entorno”, fazendo perguntas às entrevistadas (tipo “o que a beleza mudou sua vida?”), o filme escapa de sua estratégia de sutileza e, para mim, se tornou menos interessante. De qualquer forma, não há nenhum Dildu caricato/carismático que atraia nossa atenção, e talvez por isso Entorno da Beleza passe menos percebido, mas tenho a impressão que ele nos mostra mais o que é a cidade de Brasília do que o recém-badalado A cidade é uma só, filme-primo do de Dácia, já que os realizadores têm certa proximidade (e que não é a da origem social!).

quarta-feira, abril 04, 2012

quando
escrevo
a tinta
em negro
sangra
dentro
de mim
longe
de ti
as rasuras
sorvem
a folha
em branco
quando
percebo
o sangue
que
es
cor
re
o poema
que
nasce
en
fim
morre
em
mim

segunda-feira, abril 02, 2012


(o corredor no primeiro plano de L´Apollonide)


(a homenagem ao Um dia no campo, de Jean Renoir)

Desde o primeiro plano já é possível ver uma proposta em L´Apollonide. Um travelling rigoroso enquadra os corredores vazios do bordel. Dois ou três corpos entram em quadro através de portas; os corpos cruzam-se rapidamente, para em seguida tormar o seu rumo, entrar em outro quarto, e deixar novamente o corredor vazio. São duas mulheres seminuas que se encontram no meio do corredor, trocam meias palavras, e um homem as acompanha de uma porta a outra. Uma luz dourada, cálida, banha os corredores, numa luz de penumbra que nos remete à luz dos candelabros e de um fim de tarde. Uma espécie de poente que tarda a chegar.

L´Apollonide é um filme de interiores, quase todo passado dentro do bordel (com exceção de uma cena marcante de que falaremos adiante). É um filme de interiores femininos, ou seja, sobre a liberdade. Mais ainda, é um filme sobre a luz.

Após o plano sobre os corredores, uma das mulheres narra um sonho. Esse sonho tem lacunas que vão ser completadas pela vida, mas de uma forma nada idílica ou romântica. L´Apollonide é exatamente sobre a possibilidade do sonho nos limites do confinamento, ou ainda, sobre a possibilidade de viver os sonhos, ou melhor ainda, sobre a possibilidade da vida ainda que ela nos revele a faceta mais direta (ou dolorosa) do “o que são feitos os sonhos”.

Mas como Bertrand Bonello faz isso? Depois dos “escândalos” de O Pornógrafo e Tirésias, Bonello continua direcionando sua atenção para o corpo e o sexo, mas aqui de uma forma bem diferente dos filmes anteriores. O que impressiona é a delicadeza com que o diretor abraça o universo do bordel, mas sem deixar de mergulhar em suas facetas obscuras.

Há um clima afetuoso, de despojamento. Apollonide é um trabalho de atrizes que estão juntas em quadro, dividindo espaços. Mas ao mesmo tempo é um filme de época. Existe um rigor na composição, na luz e na direção de arte que aponta para um caráter de construção fílmica. Nada parece fruto de improviso mas de um despojamento calculado mas ao mesmo vivido, intenso, delicado. É nessa aposta de mise-en-scene que Bonello faz seu comentário sobre as “regras do jogo” daquele mundo: como “atrizes”, as personagens do filme de Bonello representam seu próprio papel. Enquanto representam esse papel, vivem seus sonhos, expõem suas fraquezas, enfim, sobrevivem.

Ao mostrar o universo de um bordel, Bonello evita o sensacionalismo da fetichização do universo do sexo como sinônimo de degradação ou do mero proibido. Mostra o bordel como um espaço de convivência, entre corpos e sonhos. Um local de encontros. Não julga os personagens, como “dentro” ou “fora” de um sistema. Não faz o filme para supostamente problematizar uma moral social quanto ao sexo. Prefiro pensar que seu filme fala de mulheres que sonham. Um filme sobre as máscaras. Um filme sobre a coxia das apresentações teatrais/circenses.

Entre “o crepúsculo do século XIX” e “a aurora do século XX”, L´Apollonide é também sobre o fim de um tempo, mais do que sobre o recomeço de outro. “É o dia da Bastilha, mas ninguém está te decapitando”. É o fim da aristocriacia e a chegada da prostituição de massa nas ruas. Ou ainda, o fim do cinema de mise-en-scene para o triunfo do cinema numérico. Ou a pauperização da França. Ou da Europa. Mas o diretor não observa o fim desse mundo com uma profunda nostalgia. Se o bordel é retratado não raras vezes com um clima claustrofóbico, ou similar a uma prisão, o branco das ruas não oferece uma solução ingênua para essas mulheres. Talvez L´Apollonide seja uma reflexão do sentido dos termos “liberdade, igualdade e fraternidade” no mundo de hoje.

L´Apollonide, pelo menos para mim, tem outro ponto de interesse complementar. É um filme de homenagens. Começando pela opção afetuosa de colocar em papeis menores alguns amigos diretores de seu próprio tempo, como Jacques Nolot e Xavier Beauvois. Ou ainda, uma homenagem ao romance de Victor Hugo, ou ainda ao expressionismo alemão (o belo filme esquecido de Paul Leni) com a personagem da “mulher que ri”. Ou ainda ao cinema e ao nô japonês. Ou talvez uma pantera negra, como se num filme de Buñuel sobre os mórbidos prazeres da burguesia decadente. Mas para mim a homenagem mais bonita de Bonello foi a Jean Renoir. A cena em que as mulheres fazem um piquenique em seu dia de folga me parece claramente devota a Um dia no campo, de Renoir. É curioso como Bonello combina essas referências entre o expressionismo alemão e o impressionismo francês, sem nunca fazer com que essas referências sejam pesantes ou que oprimam o filme.

Apesar de mostrar aspectos sofridos do enclausuramento, Bonello não quer fazer drama social sobre a escravidão das mulheres nem quer promover a amoralidade da liberdade da exploração do corpo feminino. É curioso pensar como L´Apollonide está muito distante das ambições do brasileiro O Doce Veneno do Escorpião, sobre a Bruna Surfistinha. Enquanto o filme brasileiro é cinema de mercado pragmático, que fala de um caso concreto de uma mulher que viu o sexo “como um negócio”, como forma de “se dar bem na vida”, e quer seduzir o espectador com cenas calientes, mescladas com um certo dramalhão de “recuperação do anjo caído”, L´Apollonide procura conviver com essas mulheres, construir um clima de cinema, fazer relações que apontam para um além-concreto.

Pequenos fios de história aparecem e desaparecem pelos corredores do L´Apollonide, assim como os corpos das mulheres que transitam pela penumbra das luzes de tom âmbar. Restam pequenos momentos, lembranças, memórias, de dor, de prazeres fugazes, de abandonos. Ao final, o que resta? O futuro. Numa das sessões, a mulher amarrada grita “quero parar”. Já não é mais possível. Ali estão as marcas da “mulher que ri”. Marcas que serão usadas para outros fetiches.

“O que você vai fazer agora?”
“Não sei”.