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Cinecasulofilia

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quinta-feira, maio 03, 2012







 - SHAME é o antípoda de UM DIA NO CAMPO, de Renoir. Num famoso plano do filme do Renoir, um personagem abre uma janela que dá de frente para um jardim onde duas mulheres brincam. A profundidade de campo é um recurso é(sté)tico: o personagem que olha e o que é olhado estão no mesmo plano; seu olhar acontece a partir de um encontro com o mundo; o filme mostra uma forma ética de encenar o amor ou o desejo. Outra forma melhor de dizer isso é que Renoir abre uma janela para o mundo, de dentro para fora (os personagens vêem o mundo, e amam). No filme de McQueen, numa das raras vezes que o personagem sai às ruas, ele olha para algo dentro de um dos apartamentos. A cidade está fora de foco, borrada. O personagem está deslocado do mundo escuro (não há jardim, apenas ruas e carros sem importância). Campo-contracampo. Vemos o objeto do seu desejo. Num plano outro. O jogo entre luzes e sombras, entre o foco e o fora de foco, assinala o deslocamento de Fassbender diante do mundo. Esse olhar não marca um encontro com um mundo, mas um sinal de nítido deslocamento. Mais tarde ele estará ali, do lado de dentro, em posição parecida (como mostrei no post anterior, foto 3). Mas não consegue estar ali dentro como imaginou estar quando estava do lado de fora. É nessa impossibilidade de habitar esse contracampo que SHAME se baseia. Já Renoir procura simplesmente estar ali. (lembrando que Renoir não é meramente romântico ou escapista: em seu filme, o "encontro" não se realiza plenamente e acaba gerando separação e dor.)

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