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Cinecasulofilia

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quinta-feira, maio 03, 2012

Shame

Difícil falar de um filme como SHAME. A princípio penso em dois filmes tão distintos quanto Persona ou Drive. Me lembro de Bergman porque SHAME me parece um filme bastante contundente sobre a psicologia de um personagem masculino. O cinema em geral prefere chegar mais perto das mulheres do que dos homens. Acredito que a forma como SHAME busca se aproximar do universo masculino é a principal virtude desse filme. As semelhanças com Drive vêm além de seu título seco –aliás, ambos não tiveram tradução em português – e de seu exercício de decupagem (o cinema de decupagem como meio ético para olhar para seus personagens). São dois personagens que expressam seu desejo pelo mundo através da violência, de gestos secos. São personagens que tentam resistir ou sobreviver diante do mundo. McQueen, em uma entrevista, disse que entendia SHAME como um filme político. E, de fato, me parece que SHAME é muito mais político que seu filme anterior, HUNGER. Um caminho de amadurecimento. HUNGER era cheio de planos “que insistiam em dizer coisas” (uma péssima maneira de se fazer filmes...). Um filme redundante. Um filme sobre a resistência – um personagem que procura resistir – através de um filme absolutamente redundante. SHAME é político porque vemos como os valores de um mundo afetam o dia-a-dia de um homem.

Na verdade não sei bem o que dizer. Fiquei bastante envergonhado vendo o filme, por um conjunto de motivos. O filme fala de forma frontal sobre alguns problemas-chave do mundo de hoje. Mas não vou conseguir dar conta disso. Quero então tentar me concentrar sobre um aspecto do filme que me fascina. A meu ver, SHAME é sobre um homem que quer amar mas não consegue. Algo pulsa dentro dele, mas ele não consegue transformar essa intenção em vida. Essa pulsão o sufoca, o asfixia. Ele não consegue amar. O que me fascina é como o fime encena isso. De uma forma fria. É isso o que me perturba. É isso que faz o filme ser desconcertante. O próprio filme tenta se entregar para o mundo e não consegue. SHAME, o filme, não consegue se entregar para o mundo, porque ele está muito preocupado em fazer cinema. Não consegue se libertar de algumas coisas, não consegue ver o que está em volta, não consegue se abrir para a possibilidade de algo lhe sair do controle. Tudo parece ser milimetricamente planejado. Um desespero contido, mórbido. Como seu próprio personagem. Vários momentos ilustram isso. Um deles é quando a irmã do protagonista interpreta “New York, New York” num club. Ele chora. É um momento forte do filme. Como isso é encenado? Num campo-contracampo econômico e seco. Acontece que McQueen encena essa lágrima que cai do olho de Fassbender como se fotografasse um ensaio publicitário em que uma gota de água cai numa superfície. Ele (o filme) não consegue se abrir para o mundo, porque precisa “ser apresentável”, precisa se revestir dessa superfície que isola o filme do mundo, precisa vestir um conjunto de máscaras que afogam o filme de si. (vide a brilhante direção de arte dos interiores e o papel dos vidros e dos espelhos). Outro momento, ainda mais marcante para mim, é quando o personagem resolve correr à noite pela rua. Ele corre em passadas simétricas, ouvindo música clássica, com um perfeito equilíbrio composicional, num “carrinho” que o segue lateralmente. Até que ele para num sinal. Como o sinal está aberto, ele não consegue atravessar. Fica então dando pulinhos até que o sinal se feche e ele consiga afinal atravessar. Diante desse sinal aberto, o filme poderia ter a possibilidade de parar, de se surpreender, de olhar para outra coisa. Mas ele simplesmente avança. Esse sinal aberto não é surpresa, mas composição planejada (a câmera para exatamente aí, e ele avança até sair de quadro).

As estratégias de encenação de McQueen em SHAME são extremamente coerentes com a visão de mundo de seu personagem. É um filme que mostra um personagem que vive numa redoma de vidro e não consegue se abrir para o mundo, não consegue amar, asfixiado diante de sua própria impotência. Algo pulsa, mas ele não consegue transformar essa pulsão num gesto afetivo. E se destroi com isso. Exatamente assim é o próprio filme. Há algo frio, distante e mórbido que impede que McQueen abrace o mundo. Há um modo calculado e frio como ele se aproxima desse personagem. Talvez o que falte para esse protagonista seja simplesmente caminhar descalço pela neve e sentir o vento frio em seu rosto. Ouvir o vento das árvores. Deixar-se perder com o tempo. Andar sem rumo.

Essa completa aderência de McQueen com o universo psicológico claustrofóbico de seu personagem é o que torna SHAME uma experiência perturbadora. A precisão, o cálculo milimétrico com que McQueen filma esse desmoronamento me causa vergonha. Vergonha de pensar que posso ser parecido com esse homem. A consciência com que McQueen fecha todas as janelas de seu filme para dentro de si é não raras vezes assustadora. SHAME é o antípoda de UM DIA NO CAMPO, de Jean Renoir. É por isso que Renoir é mais contemporâneo que McQueen. Se SHAME é um filme político, McQueen está distante da frase de Straub que “saber filmar a revolução também é saber filmar o som do vento que balança a copa das árvores”. É por isso que penso em Bergman ao vê-lo.

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