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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sábado, junho 30, 2012

O objetivo de um (bom) professor é fazer com que seus alunos consigam ir além dele, que consigam realizar os sonhos – todo professor possui um sonho não realizado – que ele não conseguiu. Não que o aluno vá realizar os sonhos do professor, e sim os seus próprios, mas que ele o consiga. Acredito muito numa máxima – o paradoxo de Shaw – que diz que “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”, especialmente no campo das artes. O desejo do professor é que os alunos vão para o mundo, que consigam avançar para além de onde o professor parou (por cansaço, por fraqueza, por não ter as condições na sua época para avançar...). E que esse professor, por sua vez, em alguns pontos conseguiu ir além daqueles que os seus próprios professores atingiram. Não digo que isso é o “progresso” mas que é assim que a vida toma o seu curso, indo para frente, dialogando com o que veio antes.

Para isso, o professor deve perceber que os alunos se vão, e ele fica. A cada semestre, uma nova turma, novos alunos. Os alunos passam: curiosos, vão para o mundo. Ele, ao final da aula, que talvez ofereça uma centelha de luz, em algum pequeno momento, fica ali, espera todos os alunos saírem, apaga o quadro, retira seus pertences, apaga as luzes e fecha a porta. Esse algo que chamei de “centelha de luz” talvez possa ser um ponto de partida.

domingo, junho 17, 2012

Anatomia das coisas encalhadas


Anatomia das coisas encalhadas

O que me fascina nesse maravilhoso espetáculo de Sílvia Moura é a sua frontalidade. É o desejo de se colocar (corpo e alma) frontalmente nesse espetáculo. E que isso só pode se dar na presença de (e para) um público. Não conheço muito de dança, mas penso que “Anatomia”, mais que um espetáculo de dança (ou teatro) (ou performance) é um espetáculo de arte. Pois acredito que o papel da arte é explorar as fronteiras entre a criação e a vida. Para Sílvia Moura, viver é criar, e criar é viver. Claro, são movimentos distintos, mas, orgânicos, se alimentam. Uma arte que parte da vida, que ressignifica a vida em arte, e, após esse “reprocessamento”, devolve a arte para a vida. Cada espectador vai para sua casa com alguns desses “objetos colecionados” por Sílvia. Isso só acontece porque, o tempo todo, Sílvia se coloca diante do público de maneira frontal. É essa encenação frontal que dá à peça a sua verdade!

Colecionar objetos. Colecionar o “lixo” produzido pela indústria consumista de produtos (caixas, palitos de picolé, etc.). Transformar o lixo não em algo útil para ser novamente consumido (a indústria da reciclagem, a paranoia ecológica). Transformar o lixo simplesmente em objeto de comtemplação. Esse é o gesto político dessa peça.

A princípio poderíamos pensar que “colecionar objetos descartáveis” seria uma atitude infantil da artista. Nada disso! É um ato político! A peça começa quando a artista conta uma história que sua mãe a ensinou a se desprender das coisas, a partilhar. Em seguida, ela fala do seu desejo de guardar coisas sem propósito. Esse prólogo é uma declaração de princípios da arte de Moura. É entre o desejo de “(com)partilhar” e o de “guardar” (conservar, manter) que todo o espetáculo se estrutura. E que fala dessa relação entre arte e vida. Pois logo depois um tema que Sílvia irá desenvolver é o do início e do fim. Sempre é preciso recomeçar. Mas com a consciência da proximidade do fim.

Quando finalmente, lá pelo final da peça, Sílvia finalmente nos mostra “os movimentos que ela colecionou ao longo de mais de trinta anos”, o público – o mais heterogêneo possível – tem de fato condições de entender o que significa a construção do processo artístico para o artista. “Esses movimentos sou eu”. Não dura mais de 5 minutos a breve exposição de pequenos trechos de movimentos de diversos espetáculos. Ali o público que veio acompanhando toda essa encenação frontal pode entender qual é o papel do artista. Ela se coloca como uma gari. Como uma catadora que vem sistematicamente coletando, sem pressa, o que as pessoas jogam fora. Coleta coisas “sem utilidade”. O que fica disso?

De encenação humilde, sem efeitos pirotécnicos (ninguém sai voando pelo palco sobre cabos de aço, etc.), “Anatomia das Coisas Encalhadas” não está preocupado em “mostrar-se belo”. Está menos preocupado com a beleza do que com a verdade, ou melhor, menos com as aparências e mais com a essência. Por meio de sua ética frontal, fala sobre a arte e sobre a vida. Me lembrou – de outras formas – o teatro pobre de Grotowski, nesse pacto transformador entre o artista e o público. Um espetáculo sobre o encontro.

Na saída da apresentação, há poucos metros dali, uma cantora paulista começava a se apresentar num grande palco na lotada Praça José de Alencar, num show anunciado por toda a mídia local. Muita luz e fumaça, mas o que pulsava no corpo dessa cantora, a partir da sua voz? Meu Deus, quanta distância!

quarta-feira, junho 13, 2012

a crítica como um orgasmo múltiplo

Tenho preguiça de desenvolver as coisas. Ou melhor, não é preguiça, é que acho reacionário. Por isso, acredito que o melhor livro sobre crítica/teoria do cinema é o Notas sobre o cinematógrafo, do Bresson. Acho que o papel da crítica – se ele existe – não é “completar o filme para o espectador” (para = em lugar de), e sim estimular o espectador a encontrar o seu próprio filme, ou ainda, que a crítica seja “um empurrãozinho” para que o espectador possa encontrar a si mesmo a partir do filme. Isso só é possível se o crítico não explicar as coisas, mas sugerir, deixar no ar, falar telepaticamente. Há algo mágico que o espectador tem que querer descobrir. A crítica estimula que o espectador faça esse gesto em direção à escuridão do filme. Quando ele (o espectador) descobre por si mesmo, algo acontece. Uma combustão, uma faísca. Uma epifania. Esse é o papel da crítica. Não é o de “jogar luz” sobre o filme, e sim “jogar o leitor nas trevas”. Empurrar o espectador no abismo que é o filme (sem páraquedas) mas não só empurrar ele pra baixo, mas dar um empurrãozinho para que o espectador saiba lidar com isso, sem “tirá-lo do buraco”. A função do crítico é lançar o espectador no desespero e dizer pra ele “não tem problema voar sem páraquedas, basta se acostumar com isso, e deixar o vento te levar.” Mas o espectador tem que querer isso, tem que querer passar por essa experiência. É uma aposta. O crítico e o espectador são cúmplices de um jogo (um pacto) que não se sabe muito bem onde se vai chegar. A crítica é portanto um mistério, e que serve não para “que se entenda o filme melhor”, mas simplesmente para lançar o espectador nas trevas e fazer com que ele se acostume a enxergar no escuro. O papel do crítico é misterioso. Ele é mais um alquimista, um mago, do que um engenheiro. Às vezes, esse “empurrãozinho” não encaixa, não leva a lugar algum. Mas quando ele acontece na hora e no lugar certo, o espectador alcança a tal epifania. De uma maneira misteriosa, o crítico sente isso. Pode parecer que a crítica não reverbera, porque o crítico não tem uma resposta explícita, mas pode estar certo de que, quando acontece, essa energia flui, ela emana das formas mais improváveis. Ela se dissipa pelo mundo, mas é transformadora. É raro acontecer, mas quando acontece, é uma espécie de orgasmo múltiplo. Esse é o papel da crítica!

“Paulista "picha" curador da Bienal de Berlim”, “Diretor Oliver Stone estampa capa de revista fumando um cigarro de maconha”, “Madonna baixa as calças e mostra o bumbum durante show em Roma” ........ parece que só se pode despertar a atenção das pessoas com o escândalo, com o estardalhaço. Será que isso só é possível através da agressão, e não através da delicadeza? Será (ainda) possível afetar o outro através do silêncio, ou da discrição? É por isso que filmes como CAFÉ LUMIERE, do Hou Hsiao Hsien, me interessam tanto. Por tratar a encenação do dia-a-dia como um gesto político. Pensar em modos de vida comuns. Encenar isso como um gesto de delicadeza, e fazer dessa encenação um gesto político. Isso é muito mais importante nesse filme do que “emular o cinema do Ozu”. Isto é, HHH não quer fazer adornos estéticos sobre a cinefilia. Fazer esse diálogo entre o cinema de Ozu e o seu filme é a construção de uma ponte (um gesto) para se pensar o mundo de hoje, e qual o papel da arte e do cinema diante disso. Não à toa seus personagens são artistas, marginais, mas que vivem não “afirmando a marginalidade como negação de um certo sistema”, mas simplesmente vivendo a sua potência singular. Ou seja, numa via positiva, e não negativa. Não se vendo como exclusão, mas se incluindo no mundo. A mesma coisa para como o filme encena isso. Ele não encena a partir da negação de um cinema (o cinema clássico, o campo-contracampo), mas ele encontra suas soluções de encenação a partir de termos que lhe são próprios, que são decerto diferentes do cinema clássico, mas que não se oferecem como oposição a ele. Ou seja, ele não quer ser oposição a outro, ele simplesmente quer ser o que se é, nada mais. Ainda que o mundo não seja exatamente como gostaríamos que fosse, é possível afirmar nosso gesto de resistência, não lutando para transformar o outro como nós queremos que ele seja, mas simplesmente sendo, com a nossa potência singular. É possível viver dessa forma, mesmo que o mundo não seja como gostaríamos que ele fosse. Essa é a beleza (zen) do projeto de CAFÉ LUMIÈRE. Após vê-lo pela quarta, quinta vez tenho a sensação de que é um dos mais importantes filmes desse século, e que representa um retorno à obra humanista de HHH dos anos oitenta, do que em relação aos filmes dos anos noventa, tão bons quanto, mas mais cerebrais.

terça-feira, junho 05, 2012

não
hoje não
quero apenas fechar os olhos
e
dor
m
ir

a
dor
me
c
ido

a
manhã
tod
a
dor
se
dev
e
ir