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Cinecasulofilia

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quarta-feira, junho 13, 2012

“Paulista "picha" curador da Bienal de Berlim”, “Diretor Oliver Stone estampa capa de revista fumando um cigarro de maconha”, “Madonna baixa as calças e mostra o bumbum durante show em Roma” ........ parece que só se pode despertar a atenção das pessoas com o escândalo, com o estardalhaço. Será que isso só é possível através da agressão, e não através da delicadeza? Será (ainda) possível afetar o outro através do silêncio, ou da discrição? É por isso que filmes como CAFÉ LUMIERE, do Hou Hsiao Hsien, me interessam tanto. Por tratar a encenação do dia-a-dia como um gesto político. Pensar em modos de vida comuns. Encenar isso como um gesto de delicadeza, e fazer dessa encenação um gesto político. Isso é muito mais importante nesse filme do que “emular o cinema do Ozu”. Isto é, HHH não quer fazer adornos estéticos sobre a cinefilia. Fazer esse diálogo entre o cinema de Ozu e o seu filme é a construção de uma ponte (um gesto) para se pensar o mundo de hoje, e qual o papel da arte e do cinema diante disso. Não à toa seus personagens são artistas, marginais, mas que vivem não “afirmando a marginalidade como negação de um certo sistema”, mas simplesmente vivendo a sua potência singular. Ou seja, numa via positiva, e não negativa. Não se vendo como exclusão, mas se incluindo no mundo. A mesma coisa para como o filme encena isso. Ele não encena a partir da negação de um cinema (o cinema clássico, o campo-contracampo), mas ele encontra suas soluções de encenação a partir de termos que lhe são próprios, que são decerto diferentes do cinema clássico, mas que não se oferecem como oposição a ele. Ou seja, ele não quer ser oposição a outro, ele simplesmente quer ser o que se é, nada mais. Ainda que o mundo não seja exatamente como gostaríamos que fosse, é possível afirmar nosso gesto de resistência, não lutando para transformar o outro como nós queremos que ele seja, mas simplesmente sendo, com a nossa potência singular. É possível viver dessa forma, mesmo que o mundo não seja como gostaríamos que ele fosse. Essa é a beleza (zen) do projeto de CAFÉ LUMIÈRE. Após vê-lo pela quarta, quinta vez tenho a sensação de que é um dos mais importantes filmes desse século, e que representa um retorno à obra humanista de HHH dos anos oitenta, do que em relação aos filmes dos anos noventa, tão bons quanto, mas mais cerebrais.

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