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Cinecasulofilia

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sexta-feira, agosto 31, 2012

Coleira de Abutre

Outro curta exibido na Mostra Cinema de Garagem que me encheu de orgulho foi o Coleira de Abutre, de Walter Fernandes Jr. Na correria pós-mostra, não vou conseguir escrever como gostaria sobre a importância desse curta, produzido na fronteira entre o velho e o novo século. (Re)vê-lo em 35mm - foi o único curta-metragem exibido em película em todo o evento - confirmou seu papel de resistência. Àquela altura (por volta de 2000), realizar um curta em película numa universidade de cinema era um projeto longamente esperado, especialmente um curta em 35mm. Os alunos da UFF se engalfinhavam para poder dirigir um curta em 16mm. No entanto, curiosamente, para Walter Fernandes Jr., que estudava na Estácio, "supostamente a universidade dos mauricinhos", realizar um curta em 35mm não significava necessariamente ter que produzir algo com "acabamento industrial" ou ainda, fazer um curta essencialmente narrativo. Ou seja, paradoxalmente, seu curta era ainda mais subversivo pelo fato de ter vindo da Estácio e ter sido feito em 35mm. Sua defesa pelo 35mm não era propriamente plástica, ou seja, pela qualidade fotográfica da emulsão cinematográfica. Era um curta que poderia ter sido feito em vídeo. Mas se o fosse seria outro. Lembro de um dos planos em que um dos atores enquadrado em plano geral sai de quadro e retorna ao quadro em primeiríssimo plano, quando o foco muda do fundo para o rosto do ator. Era em 35mm simplesmente porque ele conseguiu que fosse feito assim, ou ainda, porque era cinema.

Mas dizendo isso, deixamos de dizer sobre o que de fato se trata o curta. É difícil dizer de imediato, pois o curta parece estruturado em pequenas esquetes, extremamente fragmentado. É um curta sobre relações - praticamente todo o curta envolve sempre duas pessoas interagindo - de modo que essas relações nunca se completam, há sempre algo que nelas falta. Acontece que essa falta é trabalhada - pela mise en scene, pelo roteiro, pela direção, pela arte, pela música, pelo corte, pelo tom dos atores - sempre com um certo humor, ou ainda, com uma certa leveza. Mas uma leveza incômoda, sempre incômoda. Coleira de abutre, misterioso como o próprio título, é um curta jovem e carioca, mas ao mesmo tempo não é nada disso (foge dos clichês sobre a juventude e o carioca): é uma grande sátira sobre si mesmo, como se tivesse uma profunda autoconsciência de seu fracasso mas sublimando-o a partir do prazer pelo cinema. É assim popular, como alguns dos filmes de Sganzerla (mal comparando), mas ao mesmo tempo refinado. Seu gosto por subverter o que se espera de "um curta universitário carioca da Estácio", seu desenvolvimento dramatúrgico anarquista, a leveza de sua crítica à banalidade das coisas mas ao mesmo tempo o profundo prazer com que compartilha com o público o seu próprio desencanto, torna Coleira de Abutre um curta infelizmente pouco visto mas bastante sintomático do que de melhor a produção carioca fazia na virada do século.

Uma espécie de "líder intelectual às avessas" da geração da Cooperativa Fora do Eixo, fundada basicamente por ex-alunos da Estácio, é uma grande pena que Walter Fernandes Jr. não tenha dado adequado desenvolvimento à sua filmografia. Outros curtas como Esparadrapo e Desarmado completam sua contribuição ao curta carioca do início do século. Merecem ser resgatados!

Dizem que os cães veem coisas é o mais recifense dos últimos filmes cearenses. Tento me explicar melhor. Em Recife não se joga para perder: é nítido o grau de organização política e estética dos filmes produzidos, sabe-se extremamente bem onde se está pisando, como e quando. Já em Fortaleza, o envolvimento com o cinema é mais intuitivo: a beleza desse projeto vem de sua ingenuidade. Quando se dá conta, já se está pisando, sem saber. Daí esse amálgama entre cinema e vida, em que não se sabe onde começa e onde termina, enfim. Poderia escrever uma crítica que analisasse que Dizem que os cães é muito mais próximo de O saco azul do que de Eu, turista, ou ainda que o filme tem elementos de Lucrecia Martel ou mesmo de Buñuel, combinando uma boa dose de olhar crítico sobre uma certa classe social de Fortaleza (a carência de filmes brasileiros que olham para esse universo, como, por exemplo, - o recifense - Um lugar ao sol). Mas não vem ao caso. Prefiro tentar olhar para esse filme tendo em vista um painel mais amplo da aposta por um cinema de Fortaleza. A mim é como se não restasse outra saída a não ser ver o filme pelo que ele busca apontar, em relação a um projeto político de cinema, e o papel que o Alumbramento cumpre (ou poderia cumprir) diante disso. Ou, como poderia dizer o Denílson, que esse curta é sobre o fracasso. Pensar que Dizem que os cães começa com um plano das nuvens, assim como Estrada para Ythaca, mas que essas nuvens são outras. Com isso, claro que não quero dizer que o filme é "ruim": não se trata disso, pelo contrário, assim como eu sou grande entusiasta pelas produções de Recife, pelo talento e pela ética de um conjunto de jovens realizadores recifenses, que tanto admiro. Não se trata disso. Trata-se de outra coisa.

Ao final do curta do Guto, (spoiler....rs) uma criança morre - e a maior parte das pessoas não se dá conta. Dizem que os cães veem coisas.