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Cinecasulofilia

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terça-feira, setembro 04, 2012

Dois filmes do “cinema comtemporâneo” pelos quais tenho enorme apreço são Café Lumière e Rosetta. Tenho profunda admiração por esse filme dos Dardennes. Creio que Rosetta atualiza essa enorme linhagem que é o neorrealismo italiano zavattiniano, cuja maior expresão é Ladrões de Bicicletas. É curioso pensarmos que, se de um lado, esse filme de De Sica envelheceu, parecendo, às vezes, um melodrama lacrimoso, de outro lado, me parece ser um filme extremamente refinado, a ponto de ainda hoje ser uma espécie de referência que não se pode ignorar, ainda que se busque avançar em relação a suas possíveis limitações. Vejo Rosetta como um grande herdeiro dessa linhagem, que é essa ética humana, em como encenar esse drama humano. Mais do que esses cacoetes (atores não profissionais, cenários em locações, etc.) enxergo a grande contribuição do neorrealismo italiano a sua ética da encenação. É possível pensar num cinema humanista do pré-guerra: o cinema silencioso nórdico (Dreyer mas também Sjostrom), a “nova objetividade” alemã e até mesmo um certo cinema americano, como o cinema de King Vidor ou pérolas perdidas como um Aurora ou Lonesome. Mas a contribuição do neorrealismo é na forma ética em como se encena esse drama moral.

Rosetta, de alguma forma, é herdeiro dessa tradição neorrealista zavattianiana, passando também pelo cinema de Bresson. É mais difícil argumentar que Bresson é herdeiro do neorrealismo, mas, de alguma forma, é possível pensar alguns pontos em comum. No entanto, em relação a Ladrões de Bicicletas, um filme como Mouchette, guarda alguns pontos em comum e muitas diferenças. Mouchette me parece mais brechtiano que Ladrões de Bicicletas, seja pela ausência de diálogos seja pela ausência de música. Ou especialmente pela forma como a encenação olha para o corpo e para o olhar desse “não-ator”. De outro lado, ambos os filmes se centram no drama de uma pessoa, ou ainda, pela perambulação de uma pessoa pelo espaço de uma cidade, e, enquanto caminham, percorrem as instituições. São ambos filmes sobre o espaço cinematográfico e ambos são filmes sobre a relação do indivíduo com as instituições. Ou, se acharem melhor, são dois filmes sobre a luta entre o livre arbítrio e a liberdade. São filmes sobre a liberdade. Ou ainda, são filmes sobre a solidão. Bresson é mais seco, menos dramaticamente dirigido, Mouchette não procura algo em particular, ela é levada pelas circunstâncias. Sua luta é em sobreviver, só que ela está condenada por “olhar demais”. Ela consegue ver o que há além dos olhos das pessoas – e isso é que faz o filme tão duro, a forma frontal como Bresson encena isso (exemplo: a velha que dá roupas novas só quando a mãe de Mouchette morre, isto é, morta ela deve estar bem vestida, enquanto em vida não tinha o que vestir. Mouchette reage a isso raspando os pés de lama no tapete da sala da velha – é esse magistral plano dos pés de Mouchette que mostra o cinema político de Bresson). De alguma forma, Mouchette avança em relação ao humanismo de Ladrões de Bicicletas, mas enquanto este parece um pouco frouxo, Bresson busca “um olhar menos populista”, “aposta menos nas fórmulas do melodrama”, “transcende criticamente o que poderia ser um filme de gênero”. Mas ambos os filmes buscam uma forma ética de encenar um drama humano, que envolvem personagens que lutam pela sua dignidade diante de um meio inóspito.

Acredito que Rosetta, de alguma forma, seja uma espécie de síntese entre o humanismo frouxo (o melodrama) de Ladrões de Bicicletas e o humanismo brechtiano de Mouchette. Como em Mouchette, uma menina que precisa sobreviver sozinha. Como em Ladrões de Bicicletas, uma pessoa que tenta reconstruir uma família e que procura um emprego. Mas enquanto Mouchette tinha enorme consciência de sua posição trágica, em Rosetta, a personagem não percebe a si mesma. Na sua luta desesperada por ter “uma vida normal”, “custe o que custar”, Rosetta acha que a luta pela sobrevivência – litaralmente um processo darwiniano, de seleção natural, da vitória “dos mais fortes sobre os mais fracos” – acontece pela força, por sua desumanização. Ela é levada a acreditar assim pelas circunstâncias do meio em que se insere. A relação do meio com a personagem é mais sutil: ela é levada a crer, pelas circunstâncias, que só será bem sucedida se agir assim. Ela é cega; não consegue ver. Assim como em Ladrões de Bicicletas, a saída é o trabalho: ela precisa ter um emprego. Ao longo do filme ela vai aprofundando sua lógica autodestrutiva, tipicamente moldada pelo mundo cão capitalista, e ao mesmo tempo vai, sem se dar conta, se “apercebendo” de sua cegueira. Ela vai tomando consciência do absurdo de sua condição a partir de sua fadiga.

De qualquer forma ao final do filme há uma mudança (razoavelmente) abrupta (no fundo nem tão abrupta assim). De um lado, é um final bem próximo ao de Ladrões de Bicicletas. O protagonista se dá conta de seu crime moral, arrepende-se, percebe que o aprofundamento de seu processo em espiral só vai levar ao desespero e ao autoaniquilamento (“crime e castigo”). No filme de De Sica, o filho dá a mão ao pai, no auge de sua decadência moral. O filho perdoa o pai: a família unida é a chave para o processo de resistência do dia-a-dia (é como se durante todos os dias de sua vida Antonio Ricci lutasse contra a exploração do sistema capitalista, que rouba de si seu meio de produção, mas ele deve continuar lutando sem desespero, com dignidade). Um dos mais bonitos planos do cinema: o filho pega a mão do pai, e pela primeira vez, o homem chora, mas segue em frente. No filme dos Dardennes, Rosetta também cai. Ela tentara suicídio, assim como a personagem do filme de Bresson, mas quis o destino (ou melhor, é claro, os diretores, deuses ex machina) que sua tentativa não tenha sido bem sucedida (ela não é persistente como Mouchette, que tenta uma, duas, três vezes, até conseguir o seu intento). O “destino” lhe dá mais uma oportunidade. Aí acontece essa virada. Uma epifania. Ela aceita ser ajudada. Uma mão a ajuda a levantar-se do chão. Poderia haver um off “que longo e sinuoso caminho tive que percorrer para chegar até a ti”. É o Bresson, mas não o de Mouchette, e sim o de Pickpocket. Ao mesmo tempo, assim como em Ladrões de Bicicletas, alguém lhe dá a mão. Rosetta talvez perceba – percebemos isso porque algo nos seus olhos brilha diferente, embora saibamos que nada brilha, é apenas o efeito Kuleshov – que sozinha ela não vai chegar a lugar algum. Ela precisa perceber que precisa ser ajudada. Ela precisa aprender a receber afeto.

Antes de aprender a amar, Rosetta precisa aprender a ser amada. A saber receber amor. Parece ser essa a contrarresposta dos Dardennes ao pessimismo de Bresson. Mesmo no mundo materialista e violento contemporâneo, é preciso reaprender a ser amado. É isso o que faz Rosetta um pouco mais próximo do neorrealismo de De Sica.

Bresson pensava assim até um bom ponto de sua vida, até um momento em que desistiu de ter fé.

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