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Cinecasulofilia

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segunda-feira, outubro 15, 2012

Cosmopolis


Não sei muito o que dizer sobre o último filme de Cronenberg, COSMOPOLIS, que tem dividido opiniões entre “o amo e o odeio”. Posso dizer que é um filme corajoso, que escapa dos padrões que normalmente se esperariam do cinema de Cronenberg. Um filme austero, um conjunto de tableaux independentes, meio teatral, bastante verborrágico. Um filme que poderia ter sido feito por Kiarostami, tamanhas as cenas no interior de um carro (uma piada boba, já que o filme é bem diferente dos de Kiarostami). Um filme corajoso, uma produção de Paulo Branco.

O tédio. O tédio, novamente ele. Me parece claro que Cronenberg quer fazer uma certa parábola política sobre o nosso tempo e sobre os rumos do capitalismo atual e da especulação financeira. Da virtualização das relações no mundo contemporâneo. Fala de um bilionário que se trancafia num carro e no seu próprio mundo de números. Enquanto isso, o mundo, o amor estão lá no extracampo. O extracampo pulsa muito forte nesse filme, que também é sobre o não-mostrar.

A questão é o ponto de vista. O tom sóbrio, frio e calculista do filme me lembra um pouco de Shame, de McQueen. Mas apesar de ambos os filmes assumirem o ponto de vista de seu personagem como chave para um certo tom de uma narrativa (buscar acompanhar um desmoronamento por dentro), acontece que Cosmopolis não se preocupa tanto com as motivações psicológicas de seu personagem. É isso o que frustra o espectador, que nunca consegue se identificar com seu personagem nem odiá-lo por completo (há algo infantil nele mas tampouco é um filme infantil). Cosmopolis não é feito para agradar ou seduzir o espectador. É um filme estranho, descontínuo. Sua opção narrativa é radical: ainda que o filme possua uma linearidade (até física: percorrer ruas da cidade até ir a um barbeiro para cortar o cabelo, enquanto enfrenta obstáculos – o engarrafamento, as manifestações, as ameaças de morte, a falência financeira), Cosmopolis é preenchido por um conjunto de microhistórias que não se fecham por completo e que surgem quase por acaso, envolvendo um conjunto de personagens que aparecem e desaparecem sem muita explicação. Outro ponto que não agrada ao espectador é seu tom farsesco, um tom curioso com pitadas que oscilam entre o realismo, o surrealismo e um tom austero mezzo teatral. Uma ficção científica passada nos dias de hoje narrada como se fosse um filme de humor como os de Wes Anderson. Cosmopolis não é feito para funcionar, e isso é muito positivo.

Tudo isso gera um mal estar. Cosmopolis é um filme ensaio. Visualmente preciso, plasticamente impressionante, especialmente pela direção de arte. Tudo em seu lugar. É isso o que me incomoda. Parece que está sempre tudo ao controle de Cronenberg. O diretor diz que seu filme é o primeiro filme sobre o novo século. Prefiro os filmes de Hou Hsiao Hsien. Enquanto Cronenberg denuncia o vírus do tédio da esquizofrenia, HHH observa a possibilidade de viver mesmo diante desse cenário desalentador. A questão é de ponto de vista. Apesar de mais ousado e corajoso em sua forma narrativa, é como se Cosmopolis carecesse de problemas parecidos com os de Shame. São dois filmes tão deslumbrados com a necessidade de fazer bom cinema que não se abrem ao mundo, assim como seus personagens. Talvez eu tenha me lembrado de HHH quando vi Juliette Binoche, tentando se esforçar para compor uma personagem. No filme de HHH ela vive: ela é uma personagem sem que nos demos conta disso. Claro, são opções de encenação, mas são também formas de ver o mundo. Em seus últimos filmes, Cronenberg tem procurado “ser menos Cronenberg” e há algo de muito positivo nisso. Até porque se pensarmos bem, existe uma certa continuidade entre suas obsessões. Nos últimos filmes, há uma busca por uma depuração de estilo, por uma austeridade que não havia em seus primeiros perturbadores filmes. Sempre existiu uma proposta, sem dúvida, mas aqui essa proposta assume um peso que oprime o filme. Se COSMOPOLIS precisa se apresentar como um filme político escancaradamente, isso deprecia a própria trajetória de Cronenberg, por não perceber que seus primeiros filmes talvez sejam bem mais políticos que este, porque apontavam para uma política da encenação muito mais ousada e radical. John Carpenter, cujos filmes possuem indiscutíveis paralelos com toda uma produção de Cronenberg, falou uma coisa interessante sobre Cosmopolis: que Cronenberg precisava ter cuidado porque estava se levando a sério demais. Sábias palavras.

sábado, outubro 13, 2012

Het mes

A faca
de Fons Rademakers
***

Acabei de ver esse filme A faca, que descobri graças à melhor sala de cinema do Brasil atualmente, que é o site makingoff. Não conhecia o diretor, o holandês Fons Rademakers. Parece que ele ficou famoso porque ganhou um Oscar (??!!). Vejo também que Rademakers trabalhou como assistente com de Sica e com Renoir.

Pensando nisso, de fato, me parecem claras algumas influências de de Sica e de Renoir nesse filme. Especialmente num humanismo e no modo como Rademakers encena se utilizando do espaço, de forma sempre econômica mas brilhante.

Mas o que mais me impressiona no filme vendo-o hoje, mais de meio século após ter sido feito, é a sua atualidade. Me parece um conto de fadas sombrio, um falso filme infantil. A faca basicamente é sobre um garoto que tenta sobreviver, à medida que vai se tornando adolescente, à medida que vai tomando consciência do mundo à sua volta.

O mundo que esse menino percebe digamos que não é muito agradável. Ele se percebe só. A solidão é o tema do filme. E o destino. Apesar de ter diversas sequências em externas, é um filme razovalemente escuro. Uma brilhante fotografia. Não imagino esse filme tendo sido feito em cores.

É uma crônica da infância muito próxima do melhor tom dos filmes modernos. Esse menino não se sabe bem o que quer, não se sabe quem ele é. Acompanhamos seus passos. Não há vitimização nem idealismo da infância. Ao mesmo tempo, não possui muitas firulas de efeito. Tampouco o menino é pobre, como os personagens de de Sica. Rademakers está interessado num outro tipo de olhar social. O cinema de de Sica interessa a Rademakers por outros aspectos para além da “introdução dos almanaques” sobre o que é neorrealismo italiano. De Renoir parece que o diretor apreendeu que para fazer filmes é preciso estar próximo ao mundo. Existe um realismo que é sempre crítico. E é crítico porque é sobretudo humano. Os personagens estão vivos porque falam pouco, observam mais, e especialmente porque se locomovem num espaço que não é mero pano de fundo, mas que é dramaturgia. Tanto nos interiores (inteligentemente decupados) quanto especialmente nas externas, onde o coração do filme pulsa. É nesse conflito entre a casa e o mundo que o menino vive.

Em volta de todos os costumes conservadores do que lhe cerca (a igreja, a família, os militares e escoteiros, o clube de amigos), o menino se sente só. Não quer pertencer a grupo algum. Tem vergonha de sua mãe que se deixa vencer. Ao mesmo tempo, acaba furtando uma faca que lhe dá uma espécie de autoconfiança. Essa faca se torna a sua melhor amiga. Essa faca representa o seu desejo de ser forte, num mundo repleto de fracos

Dispensável mas ao mesmo tempo obrigatória, essa faca está ali para fazer cinema. É bonito que Rademakers tenha dado o nome de seu filme humanista a esse objeto tão mórbido, tão antigo e tão libertário.


sexta-feira, outubro 05, 2012

Gostaria de poder escrever algo sobre ME AND MY BROTHER, única das obras do Robert Frank que consegui ver na extraordinária mostra na Caixa Cultural, meio que prejudicada pela greve bancária. Este filme em particular me interessa por dois motivos. O primeiro é que o filme é uma espécie de ensaio poético, que dialoga com o diário e especialmente a autobiografia. Ou ainda, a relação entre a intimidade e a família, através de um cinema de arrojo formal, não narrativo. O segundo é que o diretor revisita um material filmado há mais de vinte anos.

Esse segundo ponto talvez possa revelar muito sobre a matéria do filme. Um olhar jovem mas maduro sobre seu tempo, um olhar íntimo mas distanciado sobre uma pessoa próxima. De um lado, para falar do catatônico Julius Orlovsky e de sua relação com seu irmão Peter, Robert Frank alterna razão e imaginação, registro e ficção, inserindo camadas e mudanças bruscas na tessitura do filme.

Julius não se comunica. Permanece mudo, não responde. O filme é praticamente todo sobre ele. No entanto, não há vitimização, discurso sociopolítico ou coisa do tipo. O que há é um irmão tentando viver a vida ao lado de seu irmão. E um amigo próximo que é cineasta, que acompanha esses dois amigos enquanto ele próprio segue a sua própria vida.

É muito mais nessa relação direta entre arte e vida que “me and my brother” nos acrescenta do que propriamente na relação entre artifício e real. Em como a delicadeza se expressa não por “imagens delicadas” mas por uma forma justa de encenar, sem comiseração nem “patetização”. Ou seja, décadas-luz tanto do inacreditável filme do Mocarzel (o lamentável Do luto à luta) ou mesmo do delicado mas convencional “O nome dela é Sabine”, da Sandrine Bonnaire.

O final do filme, quando Julius finalmente se expressa para a câmera, é um dos mais precisos, belos e comoventes diálogos entre uma câmera e um homem, entre um irmão e outro, entre a arte e a vida. Uma conclusão justa para um filme pouco preocupado com conclusões.