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quinta-feira, novembro 01, 2012

(Coisa de Cinema I) A onda traz, o vento leva

A ONDA TRAZ, O VENTO LEVA dá prosseguimento às estratégias de encenação de Avenida Brasília Formosa, aprofundando e depurando as conquistas do trabalho anterior. Nesse curta, Gabriel Mascaro observa um contexto de exclusão: uma família pobre, com personagens que vivem em situações extremas. No entanto, o que é particular nesse curta – e ainda mais do que em Avenida Brasília Formosa – é o olhar do realizador para esse universo, já tão revisitado pelo cinema brasileiro, desde, digamos, o cinema novo. Ao olhar para o universo das periferias, Mascaro não busca nem a vitimização dos personagens nem a caricatura ou o pastiche, transformando-os em mero exotismo de butique. Seu filme escolhe um personagem único, uma situação extrema: um surdo-mudo negro e pobre, HIV positivo, que cuida de uma filha pequena. Se essa é uma situação bastante atípica, singular, todo o tratamento estético do filme não busca exaltar o exótico desse personagem, mas, ao contrário, integrá-lo ao mundo. Ou seja, se tudo aponta para o exotismo ou para o incomum, o olhar de Mascaro busca o que existe de comum nesse personagem absolutamente incomum. Ele busca o que há de humano no aparentamente “bizarro”.

Trata-se de um cinema que busca olhar para o mundo. Para isso, é preciso saber observar. Agora, não somos ingênuos, e sabemos que, acima de tudo, é preciso saber observar a partir da lente da câmera. A sofisticação e a depuração do trabalho de Mascaro é aperfeiçoar suas estratégias discursivas que transitam entre a ficção e o documentário, ou melhor dizendo, entre o registro de um mundo que existe previamente à presença da câmera e um mundo “novo”, transformado diante dos recursos de linguagem do cinema. Não sabemos mais onde vão os limites entre um e outro, pois eles não mais importam. Nesse sentido, A onda traz, o vento leva possui um diálogo íntimo com O céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, no humanismo para com seus personagens bizarros, no tratamento que tensiona os limites entre o encenado e o natural, na busca por um tempo que acompanhe os personagens.

Para encenar o mundo de um surdo-mudo, um ponto delicado é o tratamento sonoro, seu ponto de escuta. O trabalho sonoro de A onda traz é sofisticado, como todo o filme. Em especial, a experiência sonora desse personagem é traduzida num contexto tátil, através de imagens. Por isso, seu final é muito intenso. Ao invés de vitimizar o personagem, o filme busca uma pulsão da vida, através de seu corpo. Na pista de dança, pulsam as cores e o corpo desse personagem, que, como todos nós, sobrevive. Quase como um filme da Claire Denis (Bom trabalho), pulsamos junto com esse corpo que pulsa.

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