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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, março 26, 2013

AMOUR


Amor
de Michael Haneke

Como filmar a morte? Não sei se Haneke parece contribuir muito. Como filmar um personagem que se deixa morrer? O corpo que apodrece e definha. Decerto que não há exploração da miséria nem mesmo recurso de vitimização. Mas ao mesmo tempo há um pouco disso sim. Fala-se em corpo, mas AMOR não é o filme mudo de Brakhage que dilacera corpos como epistemologia do olhar (THE ACT OF SEEING WITH ONE'S OWN EYES) nem O SANGUE DAS BESTAS, de Franju, que mostra que somos todos cúmplices dos torturadores de Auschwitz, nem mesmo RESSURREIÇÃO, de Arthur Omar, que, provocativo, mostra corpos dilacerados, assassinados, com uma música de êxtase que insere mil camadas ao discurso fílmico. Se AMOR aborda os limites da violência como intrínseca à natureza humana, tema de boa parte da filmografia de Haneke, seu tom sóbrio, sua mise en scene discreta, pelo menos retira de sua filmografia um certo tom de espalhafato. Se esse rigor e essa concisão cênica nos fazem remeter a A FITA BRANCA, aqui não cabe nem a genealogia política do mal nem o uso dos exteriores: o claustrofóbico AMOR é todo resolvido nos interiores, voltado para dentro de seus dois personagens. Tampouco é o cinema de Bergman, que se afoga nos rancores expressos nos diálogos e na psicologia, entrecortados por delírios metacinematográficos. Se a concisão e a simpicidade de AMOR podem ser vistas como um elogio, um passo dentro da filmografia desse realizador que sempre mexeu com temas fortes, ao mesmo tempo que AMOR é um filme duro, ele se insere em todas as convenções que podemos esperar de um filme como esse, inclusive nos momentos em que ele usa nossa compaixão – um tapa na cara, uma visita de um ex-aluno que possui todo um futuro pela frente, a filha que chora impotente na janela, um álbum de fotografias, etc. AMOR pode ser até visto como bem-sucedido na criação de climas, como um passo na maturidade de Haneke como artesão, mas minha recusa ao filme não é uma recusa pelos méritos de sua encenação, mas uma questão primeira, uma questão moral. Como filmar a morte? Ainda que não espetacularize a tragédia, AMOR é bem comportado demais, desafia pouco o espectador, não o transforma, apenas aponta para o suposto acerto de suas decisões; é um filme trancafiado em torno de si mesmo, convicto demais de sua correção, ou seja, é um filme equivocado politicamente, é um filme reacionário. (Será que esse casal é a União Europeia?) Ao fim da projeção de AMOR, fico pensando, por exemplo, em A GOELA ABERTA, de Pialat, que filma uma morte, mas que contamina a tudo com cheiro de enxofre, com uma enorme curiosidade, até com certo ressentimento, ressentimento esse que acaba deixando revelar – somente por suas bordas, ou seja, pelo que transborda – paradoxalmente o seu amor, seu desejo pelo mundo, em remexer essa caixa de ferramenta velha de que são feitas as coisas e que poucos se aventuram a abrir, pois não é nada agradável. Mas AMOR me parece conformado demais com a precisão, com a concisão, com o acerto, com o comedimento, como essa languidez com que acompanha um tema não agradável mas sem que cheire tudo a enxofre, de forma razoavelmente higiênica, de modo que Haneke faz um filme correto, coloca todas as notas no lugar, nos faz esperar pacientemente até a hora solene de apodrecermos e assistirmos, no ar condicionado, nossa vida (e o filme) acabar, como se fôssemos testemunhas fúnebres de nós mesmos.

domingo, março 24, 2013

MOONRISE KINGDOM

Moonrise Kingdom
de Wes Anderson

O rigor, a beleza e a precisão de MOONRISE KINGDOM são evidentes e contagiantes. E fica claro que não é um filme meramente formalista, mas é honestamente envolvido com um tom muito particular de dar vida, fora dos limites do realismo, aos sentimentos de seus personagens, esses seres deslocados que querem encontrar o seu lugar no mundo. Wes Anderson consegue esse tom entre a comédia e o drama que vem caracterizando seus trabalhos anteriores, mas que cada vez mais vem se aliando a um profundo senso geométrico de composição. São crianças que não querem crescer, filmadas com uma lógica quase que dos quadrinhos. Mas confesso que fico com uma certa dúvida do acerto desse gesto. Fico com vontade de rever não só MOONRISE KINGDOM mas os filmes anteriores desse realizador. E no fundo acredito que talvez ele se equivoque. Seus primeiros fimes tinham um despojamento que me agradava mais. O profundo rigor de composição desse filme às vezes me incomoda em muito, como se oprimisse os personagens, ou ainda, como se o diretor estivesse mais preocupado em fazer cinema do que em abraçar esses personagens carentes. Existe uma certa beleza fria no gesto de Wes, em conseguir fazer um filme desses no meio do cinema americano de hoje, mas talvez ele tenha simplesmente, digamos assim, exagerado na dose. De qualquer forma, MOONRISE KINGDOM é impressionante, dá continuidade à filmografia de Wes Anderson, em como ele se aprimora como realizador. Mas confesso que fico com alguma dúvida se esse caminho o levará para algum lugar mais belo do que o simples RUSHMORE, que permanece, pelo menos para mim, sendo o filme mais expressivo de sua filmografia.


Talvez MOONRISE KINGDOM possa ser repensado sob o signo do afeto – esse termo “casca de banana” que tanto assola a produção jovem brasileira contemporânea. Esses dois personagens solitários que ganham força quando unem as suas solidões. Ao seu gesto de se afastar do mundo e ter uma vida isolada, a socidade reage – ela precisa que eles se integrem a ela. Para além da ourivesaria da composição dos planos de Wes Anderson, essas crianças subversivas respondem, ora com violência ora com afeto, essa tentativa de serem eles mesmos. Não é pouco; a natureza responde; há um pandemônio. Mas um caos e uma revolta extremamente controladas, em que há pouco espaço para o inesperado e para a sugestão. Ou para a vida. É isso que me incomoda nas opções de encenação de um filme tão delicado quanto MOONRISE KINGDOM.

sábado, março 23, 2013

Like someone in love



Um alguém apaixonado
de Abbas Kiarostami

Em seu segundo filme fora do Irã, Abbas Kiarostami, em plena maturidade do seu ofício, vai jogando sua filmografia para frente. Talvez pareça despropositado, mas, para mim, Um alguém apaixonado não me parece muito diferente de O que se move. E isso é muito curioso: um jovem cineasta paulistano que está fazendo o seu primeiro filme; um veterano consagrado realizador iraniano filmando no Japão. O que me parece comum em ambos os filmes? Por trás de um discurso de delicadeza, existe um cinema político que aponta para uma bomba atrás das cortinas, que está prestes a explodir. São Paulo, Tóquio. Um alguém apaixonado, filme realizado no exílio, é um filme político. Filme político que aposta num projeto da delicadeza e de um humanismo mas sem dar as costas ao mundo, olhando atentamente o que está ao redor. É nítido que Kiarostami vai dialogar com outros aspectos de sua filmografia, especialmente algumas questões de Cópia Fiel: soluções de encenação ao filmar num lugar estrangeiro, tensões entre o interior e o exterior, limites entre a representação e a vida. Novamente o carro, esse símbolo da modernidade (o progresso, a produção industrial de massa, Ford) desde o cinema de Griffith. Novamente o campo-contracampo, esse símbolo da gramática cinematográfica desde os tempos de Griffith (e Ford – outro Ford). Esses interiores que nos afastam do mundo, mas não de forma totalmente opaca (os vidros que fundem reflexos das luzes de neon; as cortinas que funcionam como véus). Esse amor que nos consome. Como é difícil amar, ou a vida não é tão doce quanto parece. Cópia Fiel é diferente de Um Alguém Apaixonado porque o primeiro é filmado na Itália, e o segundo, em Tóquio. Há toda uma cultura, há todo um cinema que passa ali. Há toda uma geografia que se espelha não só na paisagem, mas numa forma de estar no mundo, em como os corpos e os olhares se posicionam. Se Cópia Fiel – delírio momentâneo – pode ser visto como um diálogo com o cinema de Rossellini, por que não pensar em como Um Alguém Apaixonado dialoga com um certo cinema japonês? Mas, como estávamos dizendo, Um Alguém Apaixonado – não se pode esquecer isso nem por um breve momento – é um filme político, sobre o mundo de agora. Um filme violento. Um filme sobre o Irã, muito mais violento que a xaropada novelesca sensacionalista (sedutora) de A Separação. Um filme que me parece uma mistura híbrida de Não Amarás e de Là-bas. Se prestarmos bem atenção, a violência do mundo de Um Alguém Apaixonado se faz presente no filme desde o início (a prostituição, a avó abandonada, um isqueiro que se acende, um quase acidente de trânsito – um cochilo, uma correia quebrada, um irmão deficiente, etc, etc). Talvez não consigamos percebê-la. Mas ela invade nossas vidas, queiramos ou não.

quinta-feira, março 21, 2013

ENTRE MIM E ELES: carta de Dércio Barros


CARTA ABERTA ESCRITA POR DÉRCIO BARROS SOBRE ENTRE MIM E ELES
https://www.facebook.com/notes/d%C3%A9rcio-barros/entre-mim-e-eles/470222489716932


Ikeda, se isso fosse um artigo, eu o titularia "Impressões pessoais sobre um cinema personalíssimo". Mas prefiro pensar isso como uma carta, algo que abre um diálogo.

Desde que eu comecei a estudar cinema, houve pelo menos dois momentos em que me foram apresentadas formas de se fazer-pensar cinema que eu não sabia serem possíveis. Claro que também houve Akerman, Tonacci, Bressane, Makavejev, Herzog, Tarkovsky etc, mas os que realmente me marcaram foram dois.
Primeiro Sganzerla. Ninguém tinha me avisado que o cinema podia ser algo tão grandioso e eloquente sem aquelas explosões e tiros hollywoodianos. Sim, foi uma descoberta bem primordial, até lá eu não tinha contato nenhum com esse tipo de cinema, que se assume como verdadeiramente político e esteticamente revolucionário. Ver o Zé Bonitinho fazer os cabulosíssimos monólogos de SEM ESSA ARANHA foi uma experiência que me marcou profundamente.

Mas (o assunto que realmente me interessa discutir aqui) não muito depois, e mais ou menos ao mesmo tempo, eu conheci seus filmes e os filmes Alumbramento. Do Alumbramento, me marcaram especialmente CINEASTA BOM É CINEASTA MORTO e OS MONSTROS. E aqui de novo uma descoberta primordial: eu não sabia que podia haver um cinema tão absurdamente intimista e eloquente, um cinema em que as pessoas se expõem e são, na tela, muito. Ser você e ser muito. Um amigo uma vez fez pra mim uma citação do Bergman (que eu não lembro de cabeça) que dizia mais ou menos isso: pra fazer um bom filme, é necessário que você mesmo esteja dentro dele. Até hoje OS MONSTROS é um dos meus filmes prediletos (mesmo com todas as suas "falhas" e sua visível precariedade, palavra que não uso à toa). Fiquei tão impressionado com o plano sequência de dez minutos do CINEASTA BOM... que, infelizmente ou não, passei meses tentando fazer o mesmo filme. Falhei miseravelmente.

Nos seus filmes, que eu conheci um pouco depois, mas ao mesmo tempo em que eu assistia os vários curtas do Alumbramento, me impressionou muito justamente essa maneira que você se põe no mundo e que você se põe nos seus filmes, por que se por nos seus próprios filmes é se por no mundo. Entendo perfeitamente seu fascínio pelo Mekas, e, pessoalmente, vejo na postura de vocês dois muita semelhança. Pessoalmente, vejo seus filmes como um lugar em que sua presença é tão marcante que não há mais uma distinção obra-autor. Não há que se discutir quem é maior (a obra ou o autor?) nem se um pode virar o outro com o tempo. No seu caso, há essa simbiose, a obra e o autor são a mesma coisa, e se constroem juntos com o passar do tempo. Precariamente. Precariamente porque somos humanos, somos precários. Filmar o seu próprio apartamento (como você fez várias e várias vezes), filmar seu natal em família, filmar seu regresso pra casa depois de não sei quantos anos, filmar o seu próprio banho que seja: se filmar, e se por no mundo. Mas somos precários, estamos muitíssimo longe de sermos perfeitos, de sermos "cinematográficos" (na triste e deturpada visão de cinema de alguns). Somos tristes, mas às vezes alegres. Temos problemas, temos dúvidas, e às vezes temos opiniões e gostaríamos de dizê-las aos nossos amigos. Sua obra está recheada disso, desses fantasmas pessoais, dessas melancolias, dessas alegrias esparsas (ah! o carnaval...), dessas coisas que na verdade são muito muito íntimas e, em tese, não pertencem à esfera pública do cinema. Mas não, pelo contrário: o autor e a obra são um só, não há o que se separar, os dois caminham juntos.

E então os filmes parecem ser assim reveladores de segredos, todo filme seu parece um documentário sobre sua alma, uma excursão pelo casulo de um artista. Casulo: o espaço hermeticamente fechado dentro do qual algo se desenvolve, espera sair. O Casulo é também uma promessa: Casulo hoje, amanhã o que? O Casulo é esse espaço individual, personalíssimo no qual nos desenvolvemos, no qual nossa mente, nossa arte se desenvolve. Mas o Casulo é dissecado, exposto em praça pública como o faquir da dor. Faquir da dor. Nos maravilhamos com essa visão fascinante, que ocorre de maneira esteticamente primorosa, como em ALVORECER, e às vezes de maneira (aparentemente) hermética/formalista (mas igualmente bem sucedida), como em UM FILME ABSTRATO - PARTE II; A WOMAN. AN AIRPORT. AN ESCALATOR; e A BAG IN THE WIND.

Mas nem sempre o retratado é você mesmo. Às vezes o retrato é mais amplo. Às vezes o retrato é um retrato da sua relação com o mundo. Vejo isso nas diversas CARTAS AO CEARÁ e na CARTA DO CEARÁ, e também nos cabulosíssimos DIÁRIO DE UMA PROSTITUTA e ISABELLA. Acho que é com essa linha da sua obra que ENTRE MIM E ELES mais dialoga.

ENTRE MIM E ELES é grandioso. Grandiosíssimo. É um desses filmes em que o retrato é o retrato de sua relação com o mundo, mas dessa vez é algo muito maior. É o retrato de sua relação com seus amigos, com um cenário de produção cinematográfica muito importante (que é sintoma de um tempo) e, por fim, retrato de sua relação com o cinema. Não é à toa que o filme foi lançado no Making Off um dia depois da estreia. Não vejo esse ato como uma simples atitude interessante. Eu realmente achei isso do caralho, o filme exigia esse tipo de distribuição, pensada também como extensão da obra-autor que é o seu trabalho. Isso era preciso, distribui-lo "normalmente" não faria o menor sentido quando se está discutindo justamente isso: o filme, o autor, o cinema e suas relações.

O filme, o autor, o cinema e suas relações. Mas também os amigos. O filme me pareceu quase como um pedido, uma súplica. Um momento em que alguém olha pra trás e deseja enormemente que estivesse olhando o agora. Não que haja um desejo saudosista que as coisas sejam hoje como eram ontem, mas há essa vontade de que as coisas tivessem se desenvolvido um pouco diferente. Um pedido, uma sugestão. Uma conversa muito íntima, em que você se senta com seus amigos e fala francamente: eu gostaria que as coisas fossem mais assim. Não é um making-of de OS MONSTROS, não consigo pensar o filme dessa maneira. Ele é, na verdade, muitas outras coisas. Um diário, porque é o registro de um tempo; uma carta, porque é uma mensagem, uma sugestão; um processo, porque se constroi junto, sem se saber direito onde acaba, mas de onde começa e como se locomove. Mas esse filme é também uma cápsula do tempo.

Ele funciona como funcionam as cápsulas do tempo: de repente, nos é mostrado um passado que parece tão distante... naquela época éramos outros, pensávamos diferente... e somos postos a raciocinar sobre quem éramos ontem, quem somos hoje e o que fizemos nesse meio termo. Aqui outro ponto do processo: o filme sugere uma reflexão. E aqui mais uma evidência da carta: o filme tem um destinatário, apesar de ter muitos outros também.

Enfim, foi assim que eu me relacionei com seu filme. Talvez eu esteja enganado, talvez seus desejos com ele sejam outros, mas acho positivo esse retorno - essa leitura pessoal que se faz de um filme. Espero que ela tenha sido, se não condizente com sua visão de si, pelo menos interessante.

Abraço,
Dércio Barros

terça-feira, março 19, 2013


esses pequenos passos silenciosos

meus amigos,
ontem foi um dia muito feliz! queria agradecer a todos que compartilharam esse momento, que foi o de jogar essa garrafa no mar e vê-la desaparecer. um momento para mim muito especial e marcante, em que pude colocar ali para fora e para dentro de mim uma série de coisas que vem acontecendo em mim, na minha vida, na minha forma de ver/estar no mundo nos últimos três anos. ENTRE MIM E ELES, esse filme silencioso, é um filme sobre o cinema, sobre o cinema brasileiro, um filme sobre a amizade, um filme sobre a encenação no cinema, e, claro, também um filme sobre mim. porque só consigo falar de tudo isso na medida em que isso me afeta, e quando isso me afeta me vem um desejo tamanho de responder a isso lançando coisas no mundo. partindo de coisas que me movem e de coisas que me incomodam. quem vem acompanhando meus pequenos passos silenciosos pode perceber que eles vão lentamente ganhando outras proporções. esses pequenos passos silenciosos. fiz uma série de filmes em que me filmo minha casa, fiz um conjunto de cartas e também fiz outros filmes-diários, diários de viagem. Mas agora, em ENTRE MIM E ELES, passa a ser um pouco diferente. diferente porque há outras coisas em jogo. há as pessoas. sempre fui muito cauteloso em me aproximar das pessoas. mas em alguns dos meus últimos trabalhos, especialmente nos meus exercícios diários depois que vim para fortaleza, me vi nessa tarefa mekiana de filmar meu dia-a-dia e isso passa por um encontro com as pessoas, por um cotidiano dessa forma de viver-artista que é o que me contagia em fortaleza. e isso transformou (vem transformando) ligeiramente o meu olhar. há uma coisa bonita no epílogo de ENTRE MIM E ELES. de novo eu me filmo em minha casa, como nos meus vídeos caseiros. mas aqui há uma coisa que desloca essa condição. esse epílogo basicmamente mostra um movimento, um gesto, de abandonar esse casulo. de sair do meu apartamento e ir para a cidade, para o mundo. de sair da pia do banheiro de minha casa e ir para o mar. é claro que ENTRE MIM E ELES é um filme solitário sobre um filme coletivo, e esse gesto não é filmado aos moldes do que propõe OS MONSTROS muito menos aos moldes do cinema documentário ou num registro naturalista - esse epílogo é completamente artificial e posado, uma performance. ou seja, um desejo, um porvir, mais do que algo que se dá de fato. é um gesto. um gesto precário. eu me coloco ali nesse filme - como em alguns outros - me olhando de frente não de uma forma egocêntrica mas de uma forma extremamente frágil. fiquei profundamente tocado quando o felipe rodrigues reagiu de forma indignada dizendo que este filme não podia ser chamado de precário, que a palavra precariedade tem que ser evitada, que não há nada de precário nesse meu filme, ao contrário. mas não a uso por modéstia, mas por uma convicção franciscana de que o único caminho para chegar até a ti (até a mim mesmo) é escancarar essa fragilidade. entendo os que veem esse filme como uma declaração fria ou formal, mas no fundo meu processo de construção desse filme passa muito mais pelo coração do que pela mente. esse filme é uma carta, é uma declaração de amor. se ela parece muito fria, é pelo meu tom desajeitado, pela minha falta de talento em escancarar esse casulo e declarar de forma aberta esse amor que sinto pelo mundo. ou então pela tristeza em sentir que esse amor muitas vezes não é correspondido, pelo menos como eu esperaria.

Amigos,
meu filme ENTRE MIM E ELES já está disponível para download no site www.makingoff.org. Estou muito feliz em promover esse encontro com esse site de que tanto gosto, que é um ponto de encontro pelo simples prazer da cinefilia desinteressada!!!

Abaixo, coloco uma carta para os membros da comunidade MKO que coloca os motivos que me levaram a querer disponibilizar o filme ali, num percurso diferente do tradicional circuito dos filmes alternativos brasileiros que é o dos festivais de cinema. É uma forma de buscar outros caminhos para os filmes, que se complementam com os lindos caminhos que já existem. É um gesto, uma garrafa lançada ao mar.


*   *   *


Amigos da Comunidade do MakingOff.org,

Vocês não imaginam a minha alegria em poder disponibilizar esse meu filme para os membros da comunidade makingoff.org!!! Quando estava prestes a finalizar esse filme, comecei a pensar como exibi-lo e foi muito imediato pensar no makingoff. Em primeiro lugar, sou um usuário, um fã, um entusiasta desse espaço de compartilhamento de arquivos, de filmes, de ideias. Praticamente todos os dias eu entro no making off e me deparo com uma nova surpresa, um mistério!!! Num dia é um filme do Shimizu, no outro dia um filme do Jean Garret, no outro dia um filme contemporâneo da Polônia que ninguém ouviu falar. E todos com legendas em português!!!! E por aí vai. O que mais me fascina no making off é justamente ter Carlos Hugo Christensen e Maurice Pialat ao mesmo tempo em destaque. Como são várias pessoas postando e não existe uma hierarquia, é um mistério o que "entrará em cartaz". Dessa forma, vamos tendo contato com filmes pelo puro impulso de as pessoas quererem compartilhar com outras pessoas uma experiência boa de ter visto um filme. Isso sim é uma cinefilia pelo prazer da cinefilia, e não papo de pessoas que ficam hierarquizando filmes e estabelecendo relações de poder!!! Ainda, no site é possível ver fimes extraordinariamente sofisticados, como os do Straub, Chantal e Mekas. É com esse tipo de relação de cinefilia que eu quero dialogar. Ninguém quer ganhar dinheiro com o makingoff. As pessoas quando perdem um tempão traduzindo um filme e o colocam no site não o fazem para ganhar dinheiro, mas simplesmente pelo prazer de compartilhar o prazer da descoberta de um filme, na utopia de que mais pessoas, a partir daquele gesto, também possam ter o mesmo sentimento de felicidade ao assistir aquele filme. É um ato generoso, de compartilhamento de experiência, de troca.

Da mesma forma, eu, quando faço esse filme, ainda mais este filme em particular, não tenho a meta que ele seja um PRODUTO. O cinema pode ser muitas coisas, ele pode ser um grande produto industrial mas ele também pode ser algo completamente artesanal feito sem nenhum dinheiro, como uma carta. Quando faço esse filme, não quero ganhar dinheiro com ele, não quero que ele seja um produto, mas simplesmente quero compartilhar uma experiência, quero dar um presente sem ter que receber nada em troca. É essa ingenuidade do simplesmente fazer e disponibilizar isso para que mais pessoas possam ver, e eventualmente sejam tocadas por esse gesto, para que essas ideias possam ecoar. O meu desejo descompromissado de fazer esse filme, e oferecê-lo para que mais pessoas possam vê-lo, me parece que é um gesto próximo do gosto de cinefilia da própria comunidade makingoff.org, e é por isso que eu desejei disponibilizar esse filme aqui nesse espaço, em primeiro lugar.

Meu filme termina (spoilers...rs) com um gesto de uma garrafa sendo atirada ao mar. Quando fazemos um filme, não sabemos até onde ele pode chegar, até onde ele pode atingir. O número de pessoas que será atingido com essa mensagem não invalida o gesto de arremessar essa garrafa ao mar. A sorte está lançada! Se chegará ou não ao seu destino, depende das marés, das tempestades, dos infortúnios dessa jornada, "desse longo e sinuoso caminho para chegar até a ti". Por isso, acho a disponibilização em torrent muito adequada: você precisa "semear" mas sem saber quantos irão definitivamente ter acesso ao filme. Você apenas "joga essa garrafa" no imenso mar de filmes disponibilizados na rede. Eu poderia colocar o filme em streaming pelo youtube – o que até devo fazer posteriormente. Mas pelo menos por enquanto acho coerente esse gesto de lançar essa carta na rede, como um gesto, na esperança de que isto possa tocar alguém. Faço esse filme simplesmente por esse desejo louco de que ele possa chegar até a ti (a ti que agora lê o que eu escrevo) e possa eventualmente te tocar. Essa possibilidade é o que me move, é o meu "retorno".

Ter um filme meu num espaço que tanto me inspira, e que visito quase que diariamente, é motivo de enorme alegria. Esse gesto de lançá-lo em primeira mão no makingoff.org espero que seja visto como um gesto generoso, e que torço para que gere frutos e que irradie. Obrigado a todos que alimentam a comunidade makingoff.org!!!! BAN-ZAI!!!! BAN-ZAI!!!! BAN-ZAI!!!

Rio de Janeiro, 15 de março de 2013.



quinta-feira, março 14, 2013

ENTRE MIM E ELES - CARTA DE INTENÇÕES


Amigos,
Acabo de finalizar mais um filme caseiro, chamado ENTRE MIM E ELES.

Pouco tempo depois de começar a morar em Fortaleza, recebi o convite para fazer o making-of de “Os monstros”, o novo filme do Alumbramento, realizado por Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, filmado logo depois de Estrada Para Ythaca. Achei interessante fazê-lo de forma que não fosse formatado como um making-of tradicional mas que tivesse uma autonomia, como se fosse um típico trabalho meu. Assim, ENTRE MIM E ELES é na verdade um ensaio sobre o processo de filmagem de OS MONSTROS, ou seja, um filme sobre um filme sendo feito, ou ainda, como eu o apresento, um “filme-processo”.

Como se fala muito sobre essa cena com base no processo, na coletividade e nas relações de afetividade entre os membros da equipe, ENTRE MIM E ELES me pareceu um prosseguimento das questões que venho colocando nos meus textos e nas minhas palestras, como essas questões se dão a ver no próprio set de filmagem. É possível, portanto, ver no set como a equipe trabalha com quatro diretores sem relação de hierarquia, e como a afetividade e a amizade se infiltram no próprio processo de realização da obra. Essa tênue relação entre criação e vida, de modo que se faz cinema e se vive ao mesmo tempo. O exemplo típico é a sequência na praia, quando nos intervalos da filmagem todos vão tomar banho de mar! É ainda possível ver como se filma com tão pouco: a primeira sequência mostra como há apenas um refletor para iluminar todo o set, e o resto vai se fazendo como é possível. ENTRE MIM E ELES, portanto, é uma espécie de filme-ensaio, um documento crítico que fornece mais elementos para se compreender o cinema-de-garagem brasileiro.

Ao mesmo tempo, acredito que esse seja um filme que possa ser visto para além do mero registro, mas como uma obra independente, visto que prossegue com o meu próprio cinema: ou seja, é um filme-diário, um filme-carta, um filme-ensaio, um filme-de-arquivo, um filme-de-garagem. De um lado, esse filme vem dialogando com os videos que venho fazendo precariamente ao longo da última década, perceptível através dos enquadramentos, das opções por um tempo mais alongado, pelo silêncio e pela sugestão. Pelos vazios e pelas penumbras. Ou seja, por suas opções econômicas, éticas, estéticas e políticas. É assim que acredito que ENTRE MIM E ELES não é simplesmente “um institucional do novíssimo cinema brasileiro” mas oferece outras camadas de interpretação.

O próprio título oferece uma dessas camadas. De fato, não é só um cineasta que filma outros cineastas mas é justamente um amigo que filma outros amigos. A minha relação de intimidade com tudo o que se apresenta ali é muito clara, e toda a equipe me acolheu de braços abertos para que eu pudesse testemunhar (conviver) esse processo muito íntimo, costurado artesanalmente por poucas pessoas. Ao mesmo tempo, não faço parte da equipe. Filmo tudo com uma certa distância, com uma certa solidão. Há algo ali entre mim e eles. Faço um filme solitário sobre um filme coletivo.

Por isso, acredito que o “prólogo” e o “epílogo” possam oferecer mais camadas, para contribuir para uma certa distância crítica em relação ao que se constroi ao longo do filme. Essa estrutura em três partes – que dialoga com outros de meus filmes, como o EM CASA, DESERTUM e ÊXODO – retoma o meu próprio trabalho com a casa e a autorrepresentação, transformando assim ENTRE MIM E ELES numa espécie de video-carta, um tanto parecida, a meu ver, com as intenções da minha CARTA DO CEARÁ. Se de um lado esse filme é um ensaio crítico sobre o cinema-de-garagem brasileiro, ele é ao mesmo tempo imensamente pessoal, como as críticas que costumo publicar no meu blog. Ou seja, busquei fazer de ENTRE MIM E ELES uma tradução para a linguagem audiovisual (um filme) dos textos críticos que escrevo em meu blog: rigor combinado com intimidade. Se eu puder ser direto, diria que esse filme é um cântico de esperança e uma ladainha de lamento: esse filme não é propriamente sobre o fim mas sobre o fim da minha própria possibilidade de compartilhar um sentimento sobre um certo contexto. Ou ainda, é sobretudo um ato confessional do meu próprio fracasso. Ao mesmo tempo, ainda há mais caminhos a serem percorridos. Permaneço acreditando muito na possibilidade da resistência. É preciso persistir. Esse filme é uma garrafa lançada ao mar.

Marcelo Ikeda
Fortaleza/Rio de Janeiro, março de 2013.

segunda-feira, março 11, 2013

essa estranha borboleta cambaleante

(texto que escrevi sobre a curadoria, para o catálogo da Mostra do Filme Livre 2013...)

essa estranha borboleta cambaleante

2013. O Brasil entra em uma nova onda de desenvolvimento. Estamos prestes a sediar dois eventos internacionais de porte: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Ao mesmo tempo em que parece que somos de vez o país do futuro, somos levados a ser o que os outros julgam que somos. Mas o que somos de fato? Talvez o cinema, o audiovisual, possam nos ajudar a descobri-lo. Sinto que as coisas estão rolando. 2013. Os equipamentos em vídeo e as ilhas de edição estão cada vez mais acessíveis, e é possível fazer um curta ou um longa-metragem com cada vez menos grana. Há um circuito de exibição não comercial que cada vez mais vem desabrochando, desde os diversos cineclubes em todo o país, passando por alguns festivais de cinema e chegando inevitavelmente na internet, com os youtubes e vimeos da vida. Para além das bobagens, as pessoas e as ideias se interconectam em rede, através do e-mail, do SMS, do facebook, do twitter, do instagram, do tumblr e de todos os contatos virtuais que aproximam as distâncias mais do que os voos de madrugada da Azul ou da Gol. As distâncias se relativizam: Fortaleza é mais próxima de Belo Horizonte do que de Salvador. Existe uma geração jovem que já sacou tudo. Não consegue mais esperar dez anos para montar um projeto, captar recursos, puxar saco, ir às reuniões das associações de cinema, reunir uma equipe numerosa e finalmente realizar o seu primeiro longa. Essa geração prefere se arremessar ao mundo de forma precária, de forma imperfeita, mas na forma possível: reage ao mundo que lhe atravessa com um sentimento de urgência. Os filmes, os mais diversos, são cartas ao mundo. Por isso, são filmes políticos. Uma nova forma de ver/fazer política. Os coletivos se multiplicam e se multiplicam as formas de se fazer um filme, até, quem sabe, sozinho. Cada um desses pequenos gestos, nos diversos cantos do país, ecoa. São garrafas lançadas ao mar. E elas chegam em portos inseguros, e atingem recantos inesperados dos corações e das mentes. Vocês podem apostar que esses gestos solitários ecoam. Chegam em muito mais lugares do que podem ser computados através do girar da roleta do número de ingressos vendidos nas salas de exibição comerciais do Brasil. Enquanto todas as salas de cinema passam o novo "Tubarão”, as garrafinhas navegam no mar, no ritmo das marés e das brisas, sem bússola ou carta de navegação, no ritmo do cozimento em fogo brando da comida saborosa bem temperada com dendê, que foge do gosto pré-fabricado dos fast foods que vendem milhões de sanduíches por hora. Esse gesto é a nossa revolução, e ele começa a incomodar. Parece que volta a ser possível sermos nós mesmos e não nos envergonharmos disso. Parece ser possível andar descalço e deitar na rede. Temos centenas de curtas e dezenas de longas que apontam nessa direção. Não podemos ter medo. Não é só a comida que nos alimenta. Volta o papo de que é preciso ser responsável, precisamos comer, sustentar os nossos filhos. Mas só podemos sustentar os nossos filhos nesse gesto de que é possível sermos nós mesmos. Caso contrário, como poderemos olhar para os nossos filhos? Não podemos ter medo. Quando faço filmes, procuro fechar os olhos; outros o fazem deixando-os bem abertos. Não sei mais o que vou fazer. Algumas vezes, estou cansado e me sinto só. Acho que é um gesto suicida, um delírio romântico. Mas, juntos, podemos tecer essa rede, uma teia formada por nós, delicadamente frágeis, mas que, estendidos, formam algo além de nós mesmos. Essa rede se expande, de formas ainda não totalmente compreendidas. Diferentes, esses nós se complementam. Cada um de nós está trabalhando. É preciso abrir as janelas, escancará-las para deixar a luz entrar. Não tenho mais medo. Procuro inspirar e expirar sem sentir dor. Esquecer o ressentimento. Talvez seja chegada a hora de romper esse casulo e deixar essa estranha borboleta cambaleante finalmente desabrochar.


quarta-feira, março 06, 2013

Para além da mineirice: a natureza no cinema de Carlos Alberto Prates Correia


(texto que escrevi para o catálogo da Mostra do Filme Livre sobre o cinema de Carlos Alberto Prates Correia, o homenageado da edição da MFL de 2013...)


Para além da mineirice: a natureza no cinema de Carlos Alberto Prates Correia

Para me preparar para a missão de rever os seis longas-metragens que compõem a filmografia de Carlos Alberto Prates Correia, fui procurar na coleção de discos do meu pai os LPs do Clube da Esquina. Acabei achando ao lado deles dois LPs de Milton Nascimento dos anos setenta: Minas e Geraes. Ou ainda, poderia rever a literatura de Guimarães Rosa. “o mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. E espia, escuta, indaga, protela ou palia, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas entende, atende, toma tento, avança, peleja e faz.” Mas para verouvir os filmes de Prates, não é preciso ser mineiro. É preciso ser gente. É preciso ser curioso, é preciso ter gosto pela terra, cheirar uma musicalidade que vem da ponta dos dedos, dos pequenos gestos, dos sussurros e dos gemidos. É preciso gostar de olhar para o mundo, de escutar a prosa das pessoas, de ter gosto de olhar o vento nas folhas das árvores pelas frestas das janelas do trem. Mas é preciso também ser um pouco estrangeiro. Um pouco matuto, um pouco desconfiado disso tudo.

Se o cinema de Prates imediatamente nos remete ao cenário mineiro, é pela busca de uma geografia. Mas não apenas uma geografia física, para as amplas paisagens do cerrado mineiro, mas especialmente uma geografia humana, que aponta para uma outra forma de estar no mundo, para os pequenos gestos e tempos do ser mineiro, para o que se esconde por trás do que se revela. Uma geografia da intimidade. Um cinema sobre a natureza.

A natureza. A paisagem que transborda das paisagens de trem. A natureza do Homem que busca o seu lugar no mundo. Os personagens de Prates, esses eternos viajantes, em busca de si mesmos. A frágil mulher de Perdida, que encontra a liberdade na zona, onde descobre seu próprio corpo. Mas que guarda dentro de si essa alegria triste, esse certo desamparo, esse amante caminhoneiro que vai permanecer no extracampo boa parte do filme. Ainda é possível viver em liberdade?

Em seu olhar singelo para a natureza, para o espaço físico como catalisador de tensões humanas, para o despontar do sexo que se relaciona à descoberta de si mesmo, o cinema de Prates pode ser associado com o cinema de Humberto Mauro, ou ainda com os filmes de Walter Lima Júnior. Seu suposto sotaque mineiro, no entanto, nunca implica uma inclinação de um cinema regionalista. Por isso a propalada mineirice do cinema de Prates deve ser relativizada: a natureza do Homem é a de buscar o seu lugar próprio no mundo. Seus seis longas-metragens abrangem um intervalo de quatro décadas. Em Perdida, a mulher simples, de origem humilde, não é retratada a partir da denúncia social do cinema novo. Em Cabaret Mineiro, a descrição realista da paisagem mineira por vezes sucumbe a um certo tom alegórico, mesclando poesia e prosa, passado e presente, lembrança e delírio, o possível e o improvável. Noites do Sertão, muito passado em interiores, tem uma atmosfera telúrica, as convenções do interior mineiro também se expressam por meio de uma sexualidade reprimida que parece estar a ponto de a qualquer momento explodir. É possível represar a corrente do rio? A contenção de Noites do Sertão dá espaço à expansão tragicômica de Minas Texas (os dois espaços se encontram num só nome, sem separação por vírgula), encontro partido expresso nos dois lugares que intitulam o filme, e que se tornam um só, o espaço da adolescência de Prates e o espaço cinematográfico, o mundo do cinema, o cinema de gênero. O próprio cinema como invenção de um mundo.

É preciso ser um pouco criança e um pouco triste para compreender os meandros dos rios do cinema de Prates.