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Cinecasulofilia

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quinta-feira, março 21, 2013

ENTRE MIM E ELES: carta de Dércio Barros


CARTA ABERTA ESCRITA POR DÉRCIO BARROS SOBRE ENTRE MIM E ELES
https://www.facebook.com/notes/d%C3%A9rcio-barros/entre-mim-e-eles/470222489716932


Ikeda, se isso fosse um artigo, eu o titularia "Impressões pessoais sobre um cinema personalíssimo". Mas prefiro pensar isso como uma carta, algo que abre um diálogo.

Desde que eu comecei a estudar cinema, houve pelo menos dois momentos em que me foram apresentadas formas de se fazer-pensar cinema que eu não sabia serem possíveis. Claro que também houve Akerman, Tonacci, Bressane, Makavejev, Herzog, Tarkovsky etc, mas os que realmente me marcaram foram dois.
Primeiro Sganzerla. Ninguém tinha me avisado que o cinema podia ser algo tão grandioso e eloquente sem aquelas explosões e tiros hollywoodianos. Sim, foi uma descoberta bem primordial, até lá eu não tinha contato nenhum com esse tipo de cinema, que se assume como verdadeiramente político e esteticamente revolucionário. Ver o Zé Bonitinho fazer os cabulosíssimos monólogos de SEM ESSA ARANHA foi uma experiência que me marcou profundamente.

Mas (o assunto que realmente me interessa discutir aqui) não muito depois, e mais ou menos ao mesmo tempo, eu conheci seus filmes e os filmes Alumbramento. Do Alumbramento, me marcaram especialmente CINEASTA BOM É CINEASTA MORTO e OS MONSTROS. E aqui de novo uma descoberta primordial: eu não sabia que podia haver um cinema tão absurdamente intimista e eloquente, um cinema em que as pessoas se expõem e são, na tela, muito. Ser você e ser muito. Um amigo uma vez fez pra mim uma citação do Bergman (que eu não lembro de cabeça) que dizia mais ou menos isso: pra fazer um bom filme, é necessário que você mesmo esteja dentro dele. Até hoje OS MONSTROS é um dos meus filmes prediletos (mesmo com todas as suas "falhas" e sua visível precariedade, palavra que não uso à toa). Fiquei tão impressionado com o plano sequência de dez minutos do CINEASTA BOM... que, infelizmente ou não, passei meses tentando fazer o mesmo filme. Falhei miseravelmente.

Nos seus filmes, que eu conheci um pouco depois, mas ao mesmo tempo em que eu assistia os vários curtas do Alumbramento, me impressionou muito justamente essa maneira que você se põe no mundo e que você se põe nos seus filmes, por que se por nos seus próprios filmes é se por no mundo. Entendo perfeitamente seu fascínio pelo Mekas, e, pessoalmente, vejo na postura de vocês dois muita semelhança. Pessoalmente, vejo seus filmes como um lugar em que sua presença é tão marcante que não há mais uma distinção obra-autor. Não há que se discutir quem é maior (a obra ou o autor?) nem se um pode virar o outro com o tempo. No seu caso, há essa simbiose, a obra e o autor são a mesma coisa, e se constroem juntos com o passar do tempo. Precariamente. Precariamente porque somos humanos, somos precários. Filmar o seu próprio apartamento (como você fez várias e várias vezes), filmar seu natal em família, filmar seu regresso pra casa depois de não sei quantos anos, filmar o seu próprio banho que seja: se filmar, e se por no mundo. Mas somos precários, estamos muitíssimo longe de sermos perfeitos, de sermos "cinematográficos" (na triste e deturpada visão de cinema de alguns). Somos tristes, mas às vezes alegres. Temos problemas, temos dúvidas, e às vezes temos opiniões e gostaríamos de dizê-las aos nossos amigos. Sua obra está recheada disso, desses fantasmas pessoais, dessas melancolias, dessas alegrias esparsas (ah! o carnaval...), dessas coisas que na verdade são muito muito íntimas e, em tese, não pertencem à esfera pública do cinema. Mas não, pelo contrário: o autor e a obra são um só, não há o que se separar, os dois caminham juntos.

E então os filmes parecem ser assim reveladores de segredos, todo filme seu parece um documentário sobre sua alma, uma excursão pelo casulo de um artista. Casulo: o espaço hermeticamente fechado dentro do qual algo se desenvolve, espera sair. O Casulo é também uma promessa: Casulo hoje, amanhã o que? O Casulo é esse espaço individual, personalíssimo no qual nos desenvolvemos, no qual nossa mente, nossa arte se desenvolve. Mas o Casulo é dissecado, exposto em praça pública como o faquir da dor. Faquir da dor. Nos maravilhamos com essa visão fascinante, que ocorre de maneira esteticamente primorosa, como em ALVORECER, e às vezes de maneira (aparentemente) hermética/formalista (mas igualmente bem sucedida), como em UM FILME ABSTRATO - PARTE II; A WOMAN. AN AIRPORT. AN ESCALATOR; e A BAG IN THE WIND.

Mas nem sempre o retratado é você mesmo. Às vezes o retrato é mais amplo. Às vezes o retrato é um retrato da sua relação com o mundo. Vejo isso nas diversas CARTAS AO CEARÁ e na CARTA DO CEARÁ, e também nos cabulosíssimos DIÁRIO DE UMA PROSTITUTA e ISABELLA. Acho que é com essa linha da sua obra que ENTRE MIM E ELES mais dialoga.

ENTRE MIM E ELES é grandioso. Grandiosíssimo. É um desses filmes em que o retrato é o retrato de sua relação com o mundo, mas dessa vez é algo muito maior. É o retrato de sua relação com seus amigos, com um cenário de produção cinematográfica muito importante (que é sintoma de um tempo) e, por fim, retrato de sua relação com o cinema. Não é à toa que o filme foi lançado no Making Off um dia depois da estreia. Não vejo esse ato como uma simples atitude interessante. Eu realmente achei isso do caralho, o filme exigia esse tipo de distribuição, pensada também como extensão da obra-autor que é o seu trabalho. Isso era preciso, distribui-lo "normalmente" não faria o menor sentido quando se está discutindo justamente isso: o filme, o autor, o cinema e suas relações.

O filme, o autor, o cinema e suas relações. Mas também os amigos. O filme me pareceu quase como um pedido, uma súplica. Um momento em que alguém olha pra trás e deseja enormemente que estivesse olhando o agora. Não que haja um desejo saudosista que as coisas sejam hoje como eram ontem, mas há essa vontade de que as coisas tivessem se desenvolvido um pouco diferente. Um pedido, uma sugestão. Uma conversa muito íntima, em que você se senta com seus amigos e fala francamente: eu gostaria que as coisas fossem mais assim. Não é um making-of de OS MONSTROS, não consigo pensar o filme dessa maneira. Ele é, na verdade, muitas outras coisas. Um diário, porque é o registro de um tempo; uma carta, porque é uma mensagem, uma sugestão; um processo, porque se constroi junto, sem se saber direito onde acaba, mas de onde começa e como se locomove. Mas esse filme é também uma cápsula do tempo.

Ele funciona como funcionam as cápsulas do tempo: de repente, nos é mostrado um passado que parece tão distante... naquela época éramos outros, pensávamos diferente... e somos postos a raciocinar sobre quem éramos ontem, quem somos hoje e o que fizemos nesse meio termo. Aqui outro ponto do processo: o filme sugere uma reflexão. E aqui mais uma evidência da carta: o filme tem um destinatário, apesar de ter muitos outros também.

Enfim, foi assim que eu me relacionei com seu filme. Talvez eu esteja enganado, talvez seus desejos com ele sejam outros, mas acho positivo esse retorno - essa leitura pessoal que se faz de um filme. Espero que ela tenha sido, se não condizente com sua visão de si, pelo menos interessante.

Abraço,
Dércio Barros

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

belo texto dércio, parabens! guiw

10:46 AM, maio 11, 2013  

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