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Cinecasulofilia

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sábado, março 23, 2013

Like someone in love



Um alguém apaixonado
de Abbas Kiarostami

Em seu segundo filme fora do Irã, Abbas Kiarostami, em plena maturidade do seu ofício, vai jogando sua filmografia para frente. Talvez pareça despropositado, mas, para mim, Um alguém apaixonado não me parece muito diferente de O que se move. E isso é muito curioso: um jovem cineasta paulistano que está fazendo o seu primeiro filme; um veterano consagrado realizador iraniano filmando no Japão. O que me parece comum em ambos os filmes? Por trás de um discurso de delicadeza, existe um cinema político que aponta para uma bomba atrás das cortinas, que está prestes a explodir. São Paulo, Tóquio. Um alguém apaixonado, filme realizado no exílio, é um filme político. Filme político que aposta num projeto da delicadeza e de um humanismo mas sem dar as costas ao mundo, olhando atentamente o que está ao redor. É nítido que Kiarostami vai dialogar com outros aspectos de sua filmografia, especialmente algumas questões de Cópia Fiel: soluções de encenação ao filmar num lugar estrangeiro, tensões entre o interior e o exterior, limites entre a representação e a vida. Novamente o carro, esse símbolo da modernidade (o progresso, a produção industrial de massa, Ford) desde o cinema de Griffith. Novamente o campo-contracampo, esse símbolo da gramática cinematográfica desde os tempos de Griffith (e Ford – outro Ford). Esses interiores que nos afastam do mundo, mas não de forma totalmente opaca (os vidros que fundem reflexos das luzes de neon; as cortinas que funcionam como véus). Esse amor que nos consome. Como é difícil amar, ou a vida não é tão doce quanto parece. Cópia Fiel é diferente de Um Alguém Apaixonado porque o primeiro é filmado na Itália, e o segundo, em Tóquio. Há toda uma cultura, há todo um cinema que passa ali. Há toda uma geografia que se espelha não só na paisagem, mas numa forma de estar no mundo, em como os corpos e os olhares se posicionam. Se Cópia Fiel – delírio momentâneo – pode ser visto como um diálogo com o cinema de Rossellini, por que não pensar em como Um Alguém Apaixonado dialoga com um certo cinema japonês? Mas, como estávamos dizendo, Um Alguém Apaixonado – não se pode esquecer isso nem por um breve momento – é um filme político, sobre o mundo de agora. Um filme violento. Um filme sobre o Irã, muito mais violento que a xaropada novelesca sensacionalista (sedutora) de A Separação. Um filme que me parece uma mistura híbrida de Não Amarás e de Là-bas. Se prestarmos bem atenção, a violência do mundo de Um Alguém Apaixonado se faz presente no filme desde o início (a prostituição, a avó abandonada, um isqueiro que se acende, um quase acidente de trânsito – um cochilo, uma correia quebrada, um irmão deficiente, etc, etc). Talvez não consigamos percebê-la. Mas ela invade nossas vidas, queiramos ou não.

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