.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, abril 23, 2013

Para além de massagear o nosso ego, é preciso destacar que a seleção do incrível POUCO MAIS DE UM MÊS, de André Novais, para o prestigioso Festival de Cannes, ajuda a derrubar alguns preconceitos sobre o cinema brasileiro “que pode ser exportado”. Nada há no filme de “tipicamente brasileiro”, ou seja, que ecoe aquele acento regionalista brasileiro, visto através de uma exploração da paisagem, da política, da miséria, enfim, do exotismo latino-americano. Além disso, nesse curta, não há os grandes valores de produção: é um curta realizado sem editais de fomento, com dois não-atores, quase todo passado num apartamento. De fato, nada há no curta de explicitamente extraordinário, além dele mesmo, dessa enorme consciência de seu trabalho cinematográfico, de sua profunda examinação da intimidade e da possibilidade de amar e de expor nossos sentimentos ao outro. Ou ainda, nada no curta berra gritantemente a sua genialidade, ou a sua submissão ao que se espera de um curta brasileiro num festival internacional de renome. Essa é sua enorme contribuição ao ser selecionado para a Quinzena de Cannes.

domingo, abril 07, 2013


Algumas coisas vêm mudando na forma como os alunos vêm se inserindo no ensino e na realização audiovisual nas escolas de cinema. Eles vêm percebendo outras possibilidades que o audiovisual oferece, para desvelar uma intimidade através de pequenos vídeos caseiros, em contraposição ao caminho de “profissionalização” que a princípio esperaríamos desses cursos.

Vemos na FAC/UnB o Cineclube Barruada organizando uma mostra neste mês de abril intitulada “Cartas e Diários”. Vejam como a Mostra se apresenta: “Filmes-cartas, filmes-diários. Em comum, o fato de serem filmes onde os realizadores expõem sua visão de mundo e exploram como o cinema pode ser um local para a transmissão de uma mensagem, um momento de aproximação com alguém distante... Ou então servir como o registro de um tempo, de um pensamento.”

Vemos na Mostra Calor Humano, no Curso de Cinema da UFC, diversos vídeos apresentados em forma de diários, “breves lampejos de beleza” que festejam os pequenos momentos de epifania do cotidiano, ou ainda que celebram a alegria de estar entre amigos. Filmes que não são vistos como “a formação de um portfolio” mas uma maneira de se descobrir através do cinema, uma relação íntima entre viver e criar.

Alguns entre os belos exemplos dos recentes vídeos da UFC podem ser vistos aqui:

PENTECOSTE, de Vinicius Bernardes 

PENTECA COM A GALERA, de Chico Alencar

ODE AO DIA, de Chico Alencar

[sem título], de Lucas Ferreira


sábado, abril 06, 2013

CARTAS AO CEARÁ #06 no Cineclube Barruada

Amigos,
nesta sexta-feira, dia 06/04, foi exibida uma de minhas videocartas, a CARTA AO CEARÁ #06, no Cineclube Barruada, da Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB). Como não pude estar presente na sessão, mandei aos organizadores do Cineclube uma carta para ser lida na apresentação da sessão.

Meus caros amigos brasilienses, 

Recebi há pouco a notícia pelo Dércio de que minha CARTA AO CEARÁ #06 irá ser exibida logo na primeira sessão da Mostra Cartas e Diários do Cineclube Barruada, no Auditório da FAC, na Universidade de Brasília. E ainda mais: que ela será exibida antes de WALDEN, do Jonas Mekas. Fico muito feliz com essa notícia, de ver que esses filmes singelos vêm reverberando, inclusive na áspera arquitetura de Brasília. Para mim é uma grande honra, na verdade – confesso – motivo de um certo constrangimento, exibir qualquer uma de minhas obras junto com um filme de Jonas Mekas. Porque acredito que o Mekas foi o principal guerreiro, curiosamente na meca do cinema industrial – os Estados Unidos – que travou inúmeras batalhas a favor da liberdade no cinema. Travou essas lutas fazendo filmes, escrevendo textos, organizando sessões de cinema, fazendo palestras, publicando revistas, montando uma distribuidora de filmes independentes, engajando-se em movimentos políticos de contestação, como quando foi preso por exibir e defender FLAMING CREATURES, do Jack Smith, etc, etc, etc. Mas Mekas nos ensinou que essa luta deve ser travada de modo amoroso, e nunca rancoroso, raivoso. Mekas era duro quando preciso mas sempre foi um apaixonado pela vida. E de todas as funções que exerceu em sua militância pelo cinema, aquela que exerceu com maior brilhantismo foi a de realizador. Acima de tudo, Mekas nos deixou filmes extraordinários. Muitos deles só estão sendo descobertos agora, com uma nova geração, que os descobriu através da internet. Acredito que WALDEN é um dos grandes filmes da história do cinema. É um filme em 3D, porque sai da tela e nos faz ver o mundo. Esse é o verdadeiro filme em 3D, aquele que sai da tela!!!! WALDEN não apenas nos faz rever as possibilidades do cinema, mas a sua beleza é nos fazer olhar de forma renovada para o mundo, para as nossas paixões, para o que deixamos escapar em nosso dia-a-dia. Mekas faz esses filmes de forma solitária há mais de cinco décadas. E os faz até hoje! BAN-ZAI Mekas!!! BAN-ZAI!!! BAN-ZAI!!! BAN-ZAI!!! 

Diante disso, não sei o que dizer sobre a minha CARTA AO CEARÁ #06! É a primeira vez que está sendo exibida ao público. Eu prefiro algumas outras, mas se o Dércio escolheu essa, ele deve ter os seus motivos! Esta é uma série de cartas que realizei quando morava no Rio, dedicadas a meus amigos cearenses, em especial ligados ao Alumbramento. Eu estava no Rio e eles lá no Ceará. Agora, que consegui morar no Ceará, poucos estão por aqui, muitos se mudaram!!! É a vida!!! Bom, esta carta, a #06, foi realizada em 2009 e é a única filmada no Ceará, na praia da Taíba, a cerca de 50km de Fortaleza. De volta ao Rio, fui rever as imagens desse dia na Taíba e me bateu uma saudade. Essa carta poderia se chamar “o tempo e o vento”. Acontece que não tenho a vocação para fazer um épico nos pampas. Está mais para Ozu visto pelo prisma do cinema contemporâneo, mais próximo do Five, do Kiarostami. Nessas cartas, fui exercitando algo que considero importante para alguém que quer fazer cinema, que é o dom de saber observar. Saber esperar o tempo da colheita. São planos de câmera parada, mas há algo relativo a um movimento interno do plano que me interessa: a menina que fica nas bordas do quadro, as ondas do mar que vão e vem, um catavento que roda circularmente, uma bola de frescobol que vem e que vai. O que mais podemos querer da vida? Acho que existe uma certa beleza na contemplação desse tempo de estar na praia, num tempo-outro dessa agitação frenética das metrópoles urbanas, mas ao mesmo tempo acho que nessa carta também há uma certa solidão e uma certa distância nesse meu olhar, para as pessoas, para as coisas e para a natureza. Coisas que fui desenvolver em outros de meus vídeos, e também no meu filme-carta ENTRE MIM E ELES. Bom, mas já falei demais. O mais importante é ver os filmes. Eu queria agradecer ao Dércio por ter selecionado essa minha simples carta para passar junto com esse filme tão grandioso quanto o WALDEN. É algo embaraçoso para mim. Para finalizar, queria dizer que o WALDEN, filmado nos anos sessenta, é um filme mais atual que o HOMEM ARANHA 8. Pelo menos para mim. Assim como pode ser também o caso para alguns de vocês, em relação a outros filmes. O tempo não para. Obrigado! BAN-ZAI!!! BAN-ZAI!!! BAN-ZAI!!!


sexta-feira, abril 05, 2013

Zangiku monogatari

Conto dos Crisântemos Tardios
de Kenji Mizoguchi

Primeiro filme de consagração da maturidade de Mizoguchi, realizado em 1939, curiosamente o mesmo ano de A regra do jogo. Dois filmes bem diferentes; dois filmes bem semelhantes. Dois filmes sobre o processo de representação: a vida é o maior dos palcos do teatro. Dois filmes que utilizam de estratégias de encenação mais realistas (especialmente a profundidade de campo) justamente para problematizar a construção do realismo na vida. Mas o tom farsesco, burlesco de Renoir se afasta do olhar rigoroso, do cinema ético de Mizoguchi. Se CRISÂNTEMOS TARDIOS é sem dúvida um filme sobre as tensões entre vida e representação, ou ainda, sobre os limites sombrios entre criação e vida, outra faceta do filme é sem dúvida entre seguir ou trair a tradição. E Mizoguchi, eterno japonês, não consegue ter uma relação de aversão à tradição: se de um lado seu filme transpira uma imensa insatisfação com o cheiro embolororado dos rituais anacrônicos do passado, Mizoguchi “quer mudar para continuar o mesmo”. Me parece que Mizoguchi vê essa velha trupe de teatro como fariseus, e que só se deve desmascarar a tradição quando, embolorada, ela não deixa transparecer a essência dos eternos valores da vocação do artista e da sua obra. Se Mizoguchi não consegue romper com a tradição – pelo menos com os valores de uma tradição do teatro nô e do kabuki orientais – ele precisa romper com a superfície de bolor, com essa casca, para fazer sua arte renascer. E assim Mizoguchi “inaugura” o cinema moderno no Japão do entreguerras. Os longos planossequências de CRISÂNTEMOS TARDIOS mostram penumbras, áreas de sombras pelas quais esse personagem pode caminhar. Ele perambula por um palco (palco entre palcos), do palco do teatro para o palco dos estúdios em que esse próprio filme é filmado: esse personagem que não parece ser dono da sua própria vida, que rompe com o que se espera dele para, no final, “cumprir o seu destino” e fazer exatamente o que se espera dele. Uma marionete que perambula como um sonâmbulo pelos palcos montados por Mizoguchi, em enormes travellings e em grandes angulares extremamente atípicas para a época. Quando perambula nesse palco, o cinema de Mizoguchi se aproxima do teatro, e ao mesmo tempo se afasta dele (teatro, vida, cinema, é difícil dizer...). Ou ainda, de palco em palco, não sabemos onde ele começa ou onde termina – essa é a vocação “moderna” de CRISÂNTEMOS TARDIOS. Ou, poderíamos dizer de outra forma: a modernidade do filme está quando perguntamos ao final: quem é de fato esse personagem? Até que ponto ele é livre? Até que ponto ele pôde viver sua própria vida, ou viveu a vida de um personagem de si mesmo? Muito mais poderia (deveria) ser dito sobre esse filme, como, por exemplo, sobre o papel da personagem feminina – a verdadeira protagonista do filme. Nos seus filmes áureos dos anos cinquenta, Mizoguchi vai retomar, de várias perspectivas, esses olhares: em CONTOS DA LUA VAGA, em INTENDENTE SANSHO, em A VIDA DE OHARU, em mais alguns outros. O gesto nobre de Otoku. O gesto nobre de Mizoguchi (e Yoda). Quando, após a apresentação que consagra a “ressurreição” de Kikunosuke, Otoku se retira do “backstage” e sai da casa de espetáculos, caminha lentamente até cair agachada junto a uma árvore. São nesses momentos é que fica mais que claro o cinema ético de Mizoguchi. Em optar, nesse momento, em acompanhar a consciência dessa personagem, do seu fim. (São os dois planos – ver aqui a partir de 1h44min).