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Cinecasulofilia

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sábado, junho 22, 2013

TUDO BEM



TUDO BEM
de Arnaldo Jabor

Ontem exibi TUDO BEM, o filme do Jabor, para minha turma de cinema brasileiro e fiquei espantado em perceber como o filme envelheceu ao mesmo tempo que se revela atual. O filme envelheceu não apenas em suas opções de encenação – um texto excessivamente marcado com intenções por demais explicitadas sem sutileza, um enorme exagero caricato expresso no corpo e na voz dos atores por meio de um teatro gritado, etc. – mas especialmente em como o filme está por demais preso ao contexto do Brasil de sua época: junto com BYE BYE BRAZIL, me parece que TUDO BEM é um dos grandes filmes brasileiros que reflete o final dos anos setenta, o fim do sonho, o fim das utopias, o desencanto com a possibilidade de transformar o país, e a falência dos intelectuais, do próprio cinema novo, em construir um país melhor. Acontece que para Jabor falar sobre esse desencanto ele se fecha para as possibilidades do sonho: ele simplesmente faz um diagnóstico do atraso, do arcaísmo da classe média e da classe pobre brasileiras mas não aponta nem para as causas desse atraso nem para qualquer possibilidade de superação desse estado, como se isso fosse imanente. Ou pior, mais do que resignar-se a um país de que não se gosta, o filme, através de seu tom de comédia rasgada, adota um discurso crítico niilista que muitas vezes descamba no cinismo. Assim, o tom de comédia de TUDO BEM em muito difere do tom de comédia de OS INCONFIDENTES, já que o filme de Joaquim Pedro investiga as raízes históricas desse atraso, ligado à traição, o egoísmo, à covardia, à pequenez, e, especialmente, à falta de um projeto político, das elites brasileiras (ou ainda, uma certa classe média que buscava atingir o poder) que propuseram uma outra forma de governo, muito mais para as suas próprias conveniências individuais do que por um projeto político de superação de um atraso. A comédia farsesca de Joaquim Pedro estava ancorada num teatro brechtiano, de afastamento da identificação dos personagens com o público, ou seja, num teatro político. Já em TUDO BEM me parece que se ainda vemos uma farsa com forte crítica política, e a impossibilidade de o público se identificar (torcer, amar) seus personagens por demais patéticos e caricatos, a comédia rasgada, se também assume um tom teatral (os personagens estão num palco representando papeis – os de empregado, patrão, etc, para a outra classe e dentro da própria família), a referência me parece mais próxima do teatro de revista. É interessante percebermos como, cada vez mais, à medida em que a obra prossegue, o dia-a-dia dessa família se revela um verdadeiro pandemônio, a casa vira um microcosmo de um país, e o próprio filme vai se espiralando, tornando-se cada vez mais caótico, preenchido basicamente por esquetes independentes, em que os atores funcionam muito mais como presença cênica, com performances cênicas, do que propriamente com uma dramaturgia coesa. Talvez esse seja o grande mérito do filme. Ou ainda, o que faz num certo ponto o filme se aproximar da chanchada, ou ainda, se aproximar do cinema marginal (o sujo, o feio, o grotesco, a fragmentação, as esquetes autônomas, o cinema possível, as performances cênicas). Um exemplo típico, talvez o ápice dessa presença do cinema marginal, é quando a personagem da Zezé Motta (uma empregada) faz um “show musical” na cozinha cantando “Como nossos pais”: esse “número musical” improvisado se revela quase como uma paródia dos próprios números musicais da chanchada, e nessa revisitação da chanchada, se aproxima do cinema marginal. Essa aproximação se dá muito nesse desejo de o filme tocar num certo nacional-popular, num cinema que busca uma comunicação com o público, ainda que um lado meio apelativo, de mau gosto. É o cinema possível, num país que já se deixou de sonhar, busca-se um cinema pragmático, um cinema da sobrevivência. Desencanto e pragmatismo que torna a experiência de ver TUDO BEM hoje, trinta e cinco anos depois, uma experiência, mais do que triste, melancólica, difícil, mas que nos gera um enorme mal estar. E que por isso se revela assim, atual, pela forma anárquica como o filme critica o atraso de um país.




TEMOS QUE SONHAR MAIS E MELHOR!!! - OU ALGUNS INDÍCIOS SOBRE AS CONTRADIÇÕES DOS DISCURSOS DA DIREITA E DA ESQUERDA (NAS REDES SOCIAIS)

Um dos aspectos mais marcantes sobre as manifestações é investigar como ela vem reverberando pelas redes sociais. Ver como os militantes de esquerda, ou ainda, os militantes de esquerda da área cultural, têm se posicionado em relação às manifestações e como sua posição tem variado num intervalo curto de tempo. Tenho acompanhado muitas reações autoritárias/reacionárias exatamente dos que mais condenam o autoritarismo. Me parece claro que as redes sociais, o facebook, têm participação ativa nesse movimento. E que o movimento em rede não tem uma liderança definida e uma pauta fixa. Isso desconcerta aqueles que comparam as manifestações dessa semana àquelas de décadas atrás, e esperam que a visão de política dessa juventude seja com os mesmos valores da juventude de décadas atrás. As pautas são várias: melhoria do transporte público, redução do valor das tarifas, revolta contra o nível de gastos e a forma como estão sendo gastos os recursos para a Copa do Mundo, a impunidade contra a corrupção, o não-afastamento de políticos como Marco Feliciano e Renan Calheiros, etc. Mas se pudermos reduzir as pautas a uma única pauta, me parece claro que a grande pauta dessas manifestações está na insatisfação em relação aos partidos políticos em efetivamente representar os anseios das pessoas as mais diversas. Ou seja, busca-se uma política mais participativa ao invés de uma política representativa, que mostra graves fissuras. A horizontalidade das redes entra em choque com a política oficial representativa. Os partidos políticos e seus líderes não têm o respeito da maior parte da população, em especial a juventude. O que está em jogo são as causas, não as lideranças. Não se busca o poder, quer-se simplesmente manifestar uma revolta, uma insatisfação. Não é um movimento homogêneo, pragmático, com líderes carismáticos, mas algo fluido, em formação, móvel, heterogêneo. É uma outra forma de ver/fazer política, evidentemente diferente da política partidária, pelo menos como está sendo feita no Brasil. É a juventude que está dominando as ruas. Uma pesquisa aponta que a maior parte das pessoas nas ruas (84%) afirma não ter preferência partidária. E outra (ambas do Datafolha) que ¾ dos eleitores que votaram nulo ou branco nas últimas eleições têm menos de 30 anos.

Ora, é óbvio que se as pessoas se sentem insatisfeitas com a representação política, elas estão insatisfeitas também (ou seja, entre outras coisas) com o governo do PT. Pois o PT é quem está no poder, a nível federal, e em grande parte desses estados e municípios. É o partido que apoiou os atuais prefeito e governador do Rio, e o mesmo partido cujo prefeito em São Paulo, em um conjunto de declarações infelizes, disse que não havia como reduzir as passagens por “uma questão técnica” e no mesmo dia teve que se desmentir, ao lado do governador do Estado (falou depois dele, e estava tão nervoso que mal conseguiu ser entendido – os jornalistas tiveram que perguntar se as passagens iriam realmente abaixar, pois não estava claro). Se as pessoas clamam por “saúde e educação”, são “bandeiras” tipicamente ligadas aos partidos de esquerda. Ao mesmo tempo, me parece óbvio que a insatisfação de grande parte das pessoas com o atual governo não signifique que seja um movimento direitista, ou seja, que assim sendo, apoia-se o DEM ou PSDB. Pois o que há é algo mais amplo: uma descrença que se transformou em revolta contra o processo político, seja PT, PSDB, PMDB ou outra sigla, a ponto de algumas pessoas quererem agredir, impedindo a participação de bandeiras dos partidos. Pois os partidos, de ambos os lados, já estão tentando “capitalizar” as manifestações, quando é justamente contra essa “capitalização” que as manifestações existem. Não é algo dirigido contra a própria Presidente, já que sua aprovação continua bastante positiva, ainda que com uma natural queda após as manifestações. É algo mais amplo, pois as pessoas sabem que a Presidente não pode tudo, vivemos num regime de representação mais amplo que a ditadura do líder carismático. É algo que talvez envolva mais o Congresso/Senado do que o Executivo, mas que também envolve o Governo, visto que o Executivo também deixa muito a desejar e que o próprio Governo participa do Congresso/Senado, especialmente nos acordos políticos muitas vezes espúrios para que as coisas aconteçam – o tão propalado “pacto da governabilidade”. Em suma, as pessoas saem às ruas porque julgam que o Brasil não está bem, que as prioridades que os políticos colocam não são as devidas, e se o Brasil não está bem é porque o atual governo não está bem, ainda que isso não necessariamente signifique uma adesão a uma ideologia direitista ou uma recusa direta à Presidente.

Dessa forma, a meu ver, a única resposta concreta às manifestações, mais do que revogar o aumento das tarifas de transporte público (claro, já que o bordão mais repetido é que “não é pelos vinte centavos”), é uma ampla REFORMA POLÍTICA.

Acho curioso observar a reação de muitas das pessoas (no facebook) ao longo desses últimos dias. De um início emocionado e lacrimoso, com testemunhos de que finalmente “o gigante acordou” e as pessoas estão se tornando mais politizadas, é curioso perceber como muitas pessoas começaram a ver que as manifestações não iriam “capitalizar” para o discurso dos partidos políticos de esquerda no poder, deixando de se restringir ao PEC 37, Feliciano/Renan, etc., para questionar o sistema político de forma mais ampla. Ao observar que a insatisfação dos manifestantes era mais profunda, e que poderia, portanto, envolver inclusive a pauta governista, muitos imediatamente recuaram, retirando seu apoio ao movimento, dizendo que era fruto de uma juventude direitista, de skinheads e de sarados micareteiros. Ou seja, se as manifestações não são da forma como pensam que deveriam ser, é porque são direitistas e reacionárias, e retiram seu apoio. Não entendem que outras supostas minorias podem apoiar o movimento por causas comuns, e que é preciso somar no que une, e não na diferença. Ou seja, criticam a cura gay mas querem cortar o pinto de quem mija fora do seu penico. Ou ainda, quando parte da esquerda diz “não mudem, pois a mudança corre o risco de pender a balança para a direita!”, “é melhor deixar assim, pois já foi muito pior”, “se com os partidos do jeito que estão está ruim, é melhor com eles do que sem eles”, ou coisas do tipo, ela se expressa de forma extremamente reacionária, não-progressista. Porque incita o medo da mudança, o medo do novo, o medo de sonhar por uma transformação e por um desejo de justiça e de inclusão social. Temos que sonhar mais e melhor!

É claro que as manifestações estão tendo repercussões graves. Os políticos e os governos devem estar preocupados, não apenas com os seus pescoços mas especialmente quanto ao sucesso da Copa de 2014. O mito da nação domesticada pelo futebol ruiu. Evidentemente, a Copa das Confederações não passou no teste, que era o de ensaio para o verdadeiro evento, a verdadeira Copa. Não passou no teste da organização: tumulto na retirada de ingressos, informações desencontradas, acesso difícil aos estádios. Caos na chegada aos estádios, pois não se resolveram os problemas de mobilidade urbana, acrescidos com uma campanha irresponsável de incentivo desenfreado à aquisição de automóveis. (Ficou comprovado que nenhuma das cidades-sede poderá sediar jogos sem que haja feriado municipal.) E, evidentemente, no teste da segurança, o quesito primordial mais comentado pelos paranoicos europeus, que são a esmagadora maioria dos turistas que vêm para o Brasil. Pesquisas com os turistas não foram divulgadas, mas parece claro que muitos dos que vieram para a Copa das Confederações não pretendem voltar no ano que vem: acharam inseguro, mal organizado e caro. O primeiro impacto das manifestações para o país será certamente o de aumentar ainda mais os gastos com publicidade do país no exterior.

Itália e Uruguai reclamaram demais da segurança e da infraestrutura, chegando a primeira a cogitar à FIFA, mesmo em tom de nítido exagero e provocação, abandonar a competição. A Copa do Mundo está ameaçada? Os políticos estão ameaçados? Evidentemente que não. Evidentemente que farão de tudo o que estiver ao seu alcance para se manter no poder e manter a Copa do Mundo como está. Acredito que a possibilidade mais interessante com menor custo seria propor uma profunda reforma política. Mas dificilmente vai ser possível. Não imaginem os ingênuos revolucionários jovens de hoje que vai sair um milhão de pessoas nas ruas sem que haja repressão. Toda ação gera reação. E se depender da mentalidade tacanha de muitos dos que estão no poder, não tenham dúvidas que com morte e violência, se for preciso. Há muito dinheiro e poder em jogo. A polícia ataca supostamente para combater os vândalos, quando na verdade há um ataque geral, para dispersar as pessoas, desestimulando a participação dos “pacíficos”, até porque é difícil atacar apenas os vândalos, pois eles estão infiltrados na multidão. No Rio, por exemplo, o BOPE tem grande experiência em guerrilha urbana, especialmente em ações na favela. A tática é “ataquem geral, quem é inocente, procura se proteger, não estando perto”. Só que a violência incita a violência, e a coisa pode sair do controle. Vamos aguardar os próximos acontecimentos. Vamos observar o papel dos grandes veículos de comunicação no desenrolar das coisas. E vamos observar as contradições dos discursos da direita e da esquerda nas redes sociais.