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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, setembro 24, 2013


Lamento que parte considerável da crítica e dos realizadores (e dos curadores) ainda permaneça deslumbrada com o tapete vermelho, com o champanhe e com as fotos com flashes. A mesma crítica que eventualmente escreve sobre filmes como os primeiros do Garrel, os de Jonas Mekas, os da Belair, e tantos outros filmes extraordinários que à sua época eram filmes desconhecidos porque não estavam sob os “holofotes do seu tempo” não consegue perceber que muitos dos filmes (brasileiros especialmente, mas não só eles) que hoje pulsam não despontam dos “grandes festivais do momento” mas estão alojados em cantos subterrâneos, fora dos holofotes. No momento em que “a produção alternativa” brasileira ganha alguma visibilidade (ainda que relativa, que naturalmente pequena, um “reconhecimento de nicho”), é preciso que os críticos, curadores e realizadores – mas especialmente a verdadeira crítica, aquela que tem aquele papel indelicado de sempre se questionar, de cutucar o rumo das coisas – tenham a percepção de que algo ainda mais potente PODE estar escondido, adormecido, sem que se dê conta. Alguns filmes maravilhosos estão conseguindo chegar aos grandes festivais e alguns realizadores notáveis estão conseguindo ter mais visibilidade – e isso é muito bacana. Mas não se pode ficar apenas nisso – senão será um mero sinal de miopia. Sinto que permanecemos sob o nevoeiro.

Tenho o pressentimento – talvez seja um mero (pre)ssentimento / (p)ressentimento – de que uma GERAÇÃO – de realizadores, de críticos, de curadores e de gestores públicos – estamos desperdiçando uma ENORME oportunidade. As coisas indiscutivelmente estão passando por uma significativa TRANSFORMAÇÃO, mas o amanhã “poderia ser MUITO MAIOR”.

domingo, setembro 15, 2013

OS POBRES DIABOS

Gostei do novo filme do Rosemberg Cariry OS POBRES DIABOS, que teve sua primeira exibição pública hoje no encerramento do Cine Ceará, e na próxima semana será exibido na competitiva do Festival de Brasília. Rosemberg observa uma trupe circense, lembrando um pouco o mote do recente hit O PALHAÇO. Mas no filme de Rosemberg, não há espaço para a melancolia. Com todas as dificuldades financeiras, seus personagens procuram sobreviver com dignidade, olhando para frente. OS POBRES DIABOS toca em uma certa decadência mas vê esse mundo com leveza, sem aprofundar os conflitos dos personagens, com uma certa ingenuidade sadia, de poder levar a vida como ela se apresenta a nós. Ao mesmo tempo, o filme é coerente com a longa trajetória de seu realizador: OS POBRES DIABOS prossegue o diálogo de Rosemberg Cariry com o cinema popular, com a arte popular, permanece na insistência desse sonho louco que é fazer cinema no Ceará. OS POBRES DIABOS dialoga com a cultura popular, com a literatura de cordel, com o espetáculo circense, para fazer uma referência à posição do artista independente no Brasil de hoje, no Ceará de hoje. Ainda que o público não queira assistir ao espetáculo, "o show precisa continuar". Certamente o filme não possui a radicalidade de OS MONSTROS, que também fala sobre os descompassos entre o artista independente e o público, mas OS POBRES DIABOS respira esse afã de viver da arte, e como é possível sobreviver a partir disso. A diferença é que se baseia numa narrativa de maior comunicação com o público, utilizando a comédia como base para um filme de esquetes. Não é o cinema radical do Alumbramento, mas ao mesmo tempo vejo uma certa juventude num modo de encenar, uma certa leveza no olhar para esse universo. Um filme de família: um filme sobre a trupe Cariry, ou ainda, um filme sobre um diálogo entre pais e filhos. Digo isso, porque é visível a influência de Petrus, alguns momentos de respiro: os macacos queimando nos galhos das árvores, os pequenos animais (gatos?) nascendo em meio às estátuas queimadas (um plano-síntese do filme). De outro lado, mesmo sem os valores de produção do filme de Selton/Catani, OS POBRES DIABOS ressoa uma bela artesania técnica, na impressionante fotografia de Petrus Cariry, na direção de arte de Sérgio Silveira e na edição de som de Érico Paiva (Sapão). Se não chega a ser frontalmente subversivo, acredito que OS POBRES DIABOS é um desenvolvimento digno da filmografia de Rosemberg Cariry, por sua adesão ao espírito de uma cultura popular, sem grandes sobressaltos, com uma certa ingenuidade, mas com um olhar carinhoso para essas minorias que procuram sobreviver com um certo alento. Rosemberg não filma o vento de Aracati vindo de passeio do Leblon do Rio de Janeiro. Seu prazer de encenar fortalece, se insere e complementa o cenário de vitalidade que estamos presenciando no atual cinema cearense.