.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, março 18, 2014

[MFL] O SOL NOS MEUS OLHOS

Texto que escrevi para o catálogo da Mostra do Filme Livre, justificando a premiação de O SOL NOS MEUS OLHOS.... 


O SOL NOS MEUS OLHOS
de Flora Dias e Juruna Mallon

"O silêncio. Esse silêncio."

O mais injustiçado filme no circuito dos festivais brasileiros em 2013 foi O Sol nos Meus Olhos, muito menos exibido e comentado do que deveria. Primeiro filme de Flora Dias e Juruna Mallon, é uma espécie de declaração de princípios: um cinema humano que busca mergulhar, nas entranhas, para muitas léguas além da superfície, na dor de uma perda, em um sentimento de angústia de alma. Mas o filme não busca as motivações psicológica ou a espetacularização do trauma. É sobre as penumbras da vida, mais do que sobre o medo da morte. Curiosamente, há uma leveza, uma doçura em O Sol nos Meus Olhos, um desejo de olhar para frente, um desejo de percurso. O filme fala sobre como é possível lidar com a perda, não a esquecendo, mas sublimando a dor através da percepção dos seus efeitos em uma interioridade, ou ainda, é um filme sobre o silêncio. Sobre como é preciso prosseguir ainda que com dor. Com isso, O Sol acaba sendo um filme-primo de O que se Move, motivado ainda pela presença do ator Rômulo Braga, cuja presença cênica transborda no filme. Rômulo marca sua presença pela contenção: é, antes de tudo, um corpo em cena, mas não só corpo mas sobretudo alma, revelada por meio de uma melancolia serena, um certo olhar triste, mas sempre com economia e com simplicidade. Uma simplicidade burilada a partir de pequenos gestos, de meios-olhares. Esteticamente, O Sol nos Meus Olhos possui grande interesse pelo mundo: ainda que seja assumidamente um filme de ficção, com roteiro de sequências bem delineadas, o personagem de Rômulo muitas vezes interage com "não-atores" em situações comuns, expressando esse encontro de um personagem com o mundo - as pessoas em suas ações rotineiras, a paisagem, a natureza, o silêncio. Essa é a opção ética de Flora e Juruna por um cinema de observação, revalorizando os pequenos gestos, os silêncios e os tempos de espera típicos de um certo cinema contemporâneo, mas nunca o fazendo por mero fetiche, mas sempre por um desejo frontal de por em cena de forma honesta a dificuldade e a necessidade de seu personagem (e de o filme) caminharem. O percurso, a estrada, a paisagem, o Homem, eis o cinema! "O silêncio. Esse silêncio." O Sol não está propriamente interessado no silêncio, mas nesse silêncio, nesse silêncio em particular, e essa é a chave da beleza do projeto desse filme. Por fim, eu gostaria de dizer que muitas vezes temos dificuldade para caminhar. E às vezes caminhar é preciso. Mas para que possamos caminhar é preciso deixar coisas para trás, descarregar as malas, para que possamos carregá-las conosco. Há coisas que não podemos deixar para trás, mas que devemos, que precisamos. É nesse arco ético, entre o que precisamos e o que podemos, que busca se equilibrar, de forma delicadamente frágil, o projeto estético de O Sol nos Meus Olhos. O AFETO. Num momento em que alguns querem transformar essa palavra - o AFETO - num mero clichê do cinema contemporâneo, num mero apetrecho de festivais, querendo comprovar seu suposto anacronismo, e que esse gesto seria supostamente desgastado e enrijecido, sinto, cada vez mais, cada vez de forma mais intensa, que ainda estamos longe de verdadeiramente compreendê-lo, o AFETO, essa palavra misteriosa. Sem euforia. E sem deslumbramento.

quinta-feira, março 13, 2014

para sempre amador

Amigos,
todo ano eu escrevo um texto de curadoria para a Mostra do Filme Livre. Segue o texto que escrevi para esta edição de 2014....




para sempre amador

"ser livre é muitas vezes ser só" W.H. Auden


Parece que fomos criados para tentarmos ser grandes blocos de concreto. Um bloco de concreto. Imponente, extenso, sólido, muito difícil de derrubar. Que se vê ao longe e se impõe na paisagem. Mas prefiro ser uma pluma. A um sopro mais forte ela pode se desmanchar no ar. Frágil, quase passa despercebida. Porém leve, flexível, está sempre em movimento. Sem massa, é difícil destruí-la com uma arma de fogo, com um soco, com choque elétrico. O vento a leva meio sem direção. Sua virtude está exatamente em sua fragilidade; em sua leveza e na sua agilidade. O cinema livre me ensinou que prefiro tentar ser essa pluma do que esse bloco de concreto.

*   *   *

O que eu queria mesmo é poder sair esta noite, abraçar as estrelas, arremessar-me no mar, molhar o corpo, rir muito, tirar a roupa, andar nu, cair nos seus braços e dizer eu te amo. Mas o que na verdade faço é apenas observar os outros, um pouco de longe, dentro do meu casulo. Foi assim que descobri o cinema, como voyeur de minha própria vida. Como Tomek, o menininho de Não Amarás. Se não consigo me atirar no mar, fico então aqui dentro da minha confortável casa arremessando garrafas ao mar. Dentro dessas garrafas há bilhetinhos que falam de mim: cada palavra, cada plano, cada gesto, vocês podem ter certeza de que são feitos num esforço imenso em que eu procuro me colocar inteiro, nessa tamanha possibilidade de eu ser eu mesmo. Essa possibilidade grave que me arrepia até a espinha, que me faz abrir a escotilha do meu barco à vela sem velas. E que é de onde eu vejo o mundo, e vejo você, rodopiando com sua saia de havaiana, requebrando os quadris. Queria estar com você mais de perto e dizer eu te amo. Mas não consigo me aproximar, pois há tanta coisa entre mim e você. Como você poderia se interessar por mim? O que eu poderia te dizer? E, além disso, eu não sei dançar. Então jogo mais uma garrafa, com a esperança de que ela possa chegar até você, e que você seja de alguma forma afetada por esse gesto.

Para mim, o cinema é isso. Nada mais. Uma vez, uns amigos que eu tinha me disseram que no início faziam filmes como se fossem cinéfilos, para entender melhor os filmes que tinham visto. E que agora, superada essa primeira etapa, percebiam que deveriam passar a fazer filmes como realizadores. Antes eles eram amadores; agora, são profissionais. Exatamente! O meu desejo (a minha opção) é ser para sempre amador. Não quero me tornar profissional. Não quero aprender como se faz um filme, não quero me tornar um cineasta. Quero apenas jogar esse bilhetinho no mar, quero apenas ter essa possibilidade de dizer eu te amo, quero apenas te dar um presente sem ter que esperar nada em troca. Não penso no público, não penso nos discursos de agradecimento, não penso na minha carreira, não penso com quem devo convenientemente me casar, não meço as minhas palavras nem meus planos para aumentar meu "networking", ou seja, não penso como um realizador. Penso apenas como posso me colocar da maneira mais honesta nesse filme que não faço a menor ideia do que possa ser. Não quero amadurecer. Não quero ser grande. Com o tempo, fui me afastando desses meus grandes amigos que eram amadores e que agora são cineastas profissionais premiados, estabelecidos nesse nosso "(proto)mercado-do-cinema-de-arte". Eles agora moram longe, bem longe de mim. E eu continuo aqui na minha casa com essa escotilhazinha aberta. Continuo sozinho, costurando à mão cada um dos planos que não sei fazer, sem filtros, sem color correction, sem ilha fire, sem mixagem, sem protools. Minha precariedade não me orgulha, mas é o que tenho, é o que sou. Nesse mundo pautado pela eficiência e pela competitividade, vou guiando o meu barquinho de papel (vou sendo guiado), vou remando solitário, dando voltas em torno do meu casulo. Continuo teimando. Daqui de dentro, vejo as pessoas se amando, e às vezes doi. Às vezes preciso de ajuda, me sinto frágil, como se eu fosse um velhinho anacrônico, que vê a vida passar pela janela. Mas isso é o que querem me fazer acreditar. A minha loucura é que, mesmo com todos os meus limites, minha paralisia, meu anacronismo, minhas verrugas, minhas cicatrizes, minha dificuldade motora, eu continuo teimando em sobreviver, eu continuo teimando em deixar aquela escotilha aberta, e de lá fico jogando bilhetes e bilhetes em garrafas, porque vejo um grande mar que me afeta. Não sou espectador de minha própria vida, eu a faço: esta minha solidão não é fuga do mundo, mas um gesto de encontro, é opção que me faz. Porque sou intensamente afetado pelo mundo. Mesmo de longe, vou vivendo e interagindo com o que vejo. Mesmo que o meu amor não seja correspondido, eu continuo amando, tanto quanto antes. Não é a minha vingança, é a minha única forma possível de sobreviver. Como um navegante amador. Para sempre amador.

sexta-feira, março 07, 2014




Se o objetivo da política pública é fazer "os filmes que o público gostaria de ver", daqui a pouco vão substituir as comissões de especialistas dos editais de seleção de projetos audiovisuais por votações públicas por telefone e internet, como no BBB. Assim, o "povo" escolhe diretamente os projetos de filmes. É a "democracia" nas artes.....




O que é o cinema? Um mero produto? Acredito que o cinema, acredito que nós, podemos ser muito mais. Acredito que o cinema, que a arte, pode ser um incrível caminho para entendermos um pouquinho mais o mundo de hoje, os desafios do Homem, o nosso papel diante desse mundo cada vez mais desigual e que esmaga as diferenças e as minorias. Por isso, acho que o papel do Estado não é fazer os filmes que as pessoas gostariam de ver, baseado em pesquisas de opinião, porque isso é papel do mercado. E porque isso não é cinema, é publicidade. Ao contrário, acredito no cinema que busca dizer coisas nem sempre agradáveis, mas necessárias, que joga na nossa cara as coisas que não gostamos de ouvir, mas precisamos. Ou que o cinema fala de coisas que gostaríamos de ouvir mas não sabíamos disso até que o tenhamos visto. Acredito que índices e percentuais são um indicador muito pequeno para desvendar essa misteriosa relação entre um filme e sua público. Nesse caminho, filmes como DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, COPACABANA MON AMOUR ou OS INCONFIDENTES nunca teriam sido feitos.

Como já falei em outra oportunidade, É PRECISO DEFENDER O ECOSSISTEMA DO AUDIOVISUAL. É precido defender as diferenças e as minorias. Não é ser contra o mercado e o progresso, mas as cifras econômicas são apenas um dos parâmetros para entender o cinema. A política pública não deve se resumir a isso...



(sobre a revolução na arte)
goya, por todorov

Por algumas rupturas decisivas com a tradição, Goya anuncia o advento da arte moderna. Claro, trata-se aqui de uma avaliação retrospectiva, para não dizer anacrônica. Goya não exerceu uma influência imediata sobre a trajetória da pintura na Espanha, e muito menos sobre os pintores dos outros países europeus: ele só começa a ser conhecido fora da Espanha a partir de meados do século XIX, décadas após sua morte. Não foi o líder tonitruante de um movimento internacional de vanguarda, à maneira de Marinetti para o futurismo, ou de Breton para o surrealismo. Somente quando nós, os habitantes do século XXI, lançamos um olhar sobre a evolução das artes da imagem na Europa, ao longo dos duzentos anos que acabam de passar, é que somos levados a constatar: produziu-se uma subversão durante esse período da história, e Goya é o artista que, certamente não o único, mas melhor do que ninguém, pressentiu os novos caminhos que se abriam à sua arte e esboçou alguns primeiros passos por esses caminhos.