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Cinecasulofilia

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segunda-feira, abril 28, 2014



Em PRAZERES DESCONHECIDOS estamos em outro tipo de cinema, que busca um outro tipo de relação entre cinema e mundo, que vislumbra uma outra forma de representar o mundo e as pessoas. Ha sempre muito movimento em PRAZERES DESCONHECIDOS. No entanto, esse movimento não leva aos lugares pré-planejados do cinema narrativo convencional. Existe a formação de um "mood", de um clima, que nos faz sentir, através das AMBIÊNCIAS, uma forma de estar no mundo. É preciso ver e ouvir de outra forma. O filme desenvolve as relações entre três personagens que formam uma espécie de triângulo amoroso, mas acontece que, se usarmos a expressão da matemática, os corpos estão em quadro através de relações, e não de funções. O filme não se preocupa em apresentar ao espectador uma ideia de beleza, mas sim uma verdade. É como se o cinema não fosse uma questão de verossimilhança, e sim de verdade. Não precisa mais ser "belo" e "funcionar", é preciso que os corpos habitem um espaço de uma maneira viva.

PRAZERES DESCONHECIDOS fala de uma precariedade. Há algo que falta: dinheiro, afeto, conforto, ideais, paixões, etc. Mas os personagens não são vítimas de um mundo ou de uma sociedade torpe. Não há justificativas plausíveis para a falta. O filme não quer comprovar uma tese. O filme não quer desenvolver a catarse no espectador para que ele "tenha pena" ou "torça" pelos personagens. O filme não é um jogo, não joga com os personagens como se fossem marionetes. PRAZERES DESCONHECIDOS é um filme que examina a falta de perspectivas dos jovens de uma China que se transforma num ritmo cruel mas que a desigualdade desse crescimento sufoca as possibilidades. Mas por outro lado, existe um presente que pulsa. Só temos o presente, então vamos a ele. Há uma curiosidade enorme do diretor e da câmera em perscrutar os cantos, os pequenos movimentos, mesmo que eles não apontem para lugar algum além dessa urgência de fazê-los ali daquela forma, e não de outra.

A isso podemos dar o nome de cinema contemporâneo.

Jia Zhang Ke é o irmão mais novo de Hou Hsiao Hsien. A "desfuncionalização" da narrativa para poder melhor abraçar uma geografia (um espaço físico, um espaço humano, uma "paisagem") atinge instantes de muita iluminação com esses dois realizadores. Ao mesmo tempo, o jovem Jia Zhang Ke parece ter uma rebeldia que não cabe muito no cinema mais delicado mas não menos tumultouso de HHH.

PRAZERES DESCONHECIDOS poderia se passar em Fortaleza com poucas adaptações. Mas foi feito na China. PLATAFORMA e PRAZERES DESCONHECIDOS ampliam as possibilidades de o cinema de ficção observar as transformações do mundo e como as estratégias de representação podem lidar diante dos desafios da vida. Outro filme chinês que amplia esses horizontes no campo do documentário é A OESTE DOS TRILHOS,  de Wang Bing, mas essa já é outra história.

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