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Cinecasulofilia

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sábado, maio 31, 2014

O homem dos bons encontros

O CINEOP, Mostra de Cinema de Ouro Preto, está realizado uma homenagem ao cineasta Luiz Rosemberg Filho. Me pediram para escrever um pequeno depoimento sobre o "Rô". Eis o texto para o catálogo da Mostra...




O homem dos bons encontros

Eu me lembro bem da primeira vez que conheci o Rosemberg. Foi há exatos 10 anos, em 2004. Claro, eu já o conhecia, pelos filmes, pelo livro do Godard e por uma ou outra aparição. Melhor dizendo então, quando nos encontramos pela primeira vez. Foi na Livraria Prefácio, em Botafogo, onde nos encontraríamos muitas vezes depois. Fui com o Guilherme Whitaker, para lhe propor ser o homenageado da Mostra do Filme Livre em 2005. Ele achou engraçado, a princípio disse que não aceitava o convite, pois havia outras pessoas mais importantes para serem homenageadas, como Andrea Tonacci, Sergio Santeiro, Mario Carneiro, entre alguns outros nomes. Com a nossa insistência, nos perguntou porque achávamos que ele deveria ser homenageado.

Em seguida, o Rosemberg deslocou a conversa e fez um movimento típico de sua atuação no cinema e na vida: quis saber mais sobre nós. Falamos um pouco e no meio do papo Rosemberg descobriu que todos os curadores da Mostra também éramos realizadores. Ele então de imediato quis ver os nossos filmes. "É a melhor forma de conhecê-los". Na semana seguinte, Rosemberg visitou a sede da WSET em Botafogo para ver os nossos filmes. Pacientemente ele viu todos os curtas. O meu foi o "Cinediário". Para minha surpresa, ele não só o elogiou bastante, como, na semana seguinte, me mandou uma longa carta me parabenizando pelo curta, e, em anexo, um texto crítico sobre o "Cinediário", com uma de suas colagens. A partir daí, fomos trocando correspondências, nos encontrando e - se não for uma ousadia de minha parte - nos tornando amigos.

Rosemberg é mais conhecido pela sua virulência contra a boçalidade que se tornou a maior parte do audiovisual produzido não só no Brasil mas no mundo. Contra um cinema que virou mero instrumento de negócio nas mãos de grandes corporações. Mas seu ataque frontal a um certo cinema sempre vem acompanhado de uma grande afetividade, pela busca de uma forma de criar e de viver, visando ao prazer e ao amor. Rosemberg sempre defendeu que as grandes corporações querem transformar o cinema numa arma contra o gozo, o sentido último da vida. Seu cinema político, portanto, sempre foi uma forma de defender a liberdade e o amor.

Rosemberg sempre foi o homem dos bons encontros. No cinema e na vida.

Sem nunca se corromper, sem vender seus ideais por algumas quinquilharias, sem entrar no jogo sujo do poder, Rosemberg comprova não só em seus filmes mas no exercício de sua própria vida, a integridade dos seus ideais. Fez, talvez por isso, menos filmes do que gostaria, mas aqueles que conseguiu fazer, com os recursos que eram possíveis, são uma notável contribuição a nossa mais arrojada filmografia. E permanece produzindo até hoje, um sem-número de curtas em video. BAN-ZAI!!!

Nos últimos anos, uma geração vem redescobrindo a importância dos filmes e da posição ética de Luiz Rosemberg Filho. Fico feliz que, em vida, Rosemberg tenha cada vez mais reconhecimento, e que isso sirva para que ele faça ainda mais filmes, e tenha ainda mais bons encontros. BAN-ZAI!!!

O Rosemberg sempre me dizia que achava engraçado que eu trabalhasse na ANCINE. Ele também havia trabalhado no Instituto Nacional do Cinema (INC) e às vezes me contava algumas histórias sobre o dia-a-dia na repartição e alguns casos com o Moniz Viana. Ele disse que, quando saiu do INC, a primeira coisa que fez foi dar um mergulho no Arpoador, de terno e gravata. Quando coloquei o pé direito fora da ANCINE, me lembrei disso, mas, diferentemente dele, simplesmente respirei fundo, fui para casa e arrumei as malas.

terça-feira, maio 27, 2014

FEIO, EU?

(texto escrito para o catálogo da Mostra Outros Cinemas - Fortaleza, maio de 2014)


FEIO, EU? E AS MÚLTIPLAS FACETAS DA MISTERIOSA HELENA IGNEZ

    Começando como atriz, a artista Helena Ignez sempre apresentou em seus primeiros filmes um estilo de atuação despojada em que ela era uma atriz cocriadora. Contrapondo-se a um modo de ver o trabalho do ator como mero representante de um personagem, as personagens de Ignez revelavam seu aspecto contemporâneo em como o corpo, a voz e a performance ganhavam destaque em relação a uma composição psicológica. Se de um lado temos a contenção de O Padre e a Moça, seu típico trabalho de cocriação foi em A Mulher de Todos, seguidos de diversos filmes da produtora BelAir, como Sem Essa Aranha, ambos de Rogério Sganzerla.
    Seu trabalho como realizadora prossegue essa linha de um cinema de invenção tipicamente brasileiro. Ao mesmo tempo, comparando seus três longas-metragens dirigidos até aqui, vemos diversas nuances, como algumas metamorfoses em torno da busca por uma expressão cinematográfica. Começamos pelo sensualismo rigoroso da sua adaptação do primeiro Brecht em Canção de Baal, passamos pelo flerte com o cinema de gênero de inspiração popular em Luz nas Trevas, uma adaptação do roteiro de Sganzerla de continuação de seu clássico filme O Bandido da Luz Vermelha, com todas as suas atribulações de produção, até chagarmos ao libertário e aberto Feio, Eu?.
    Três filmes misteriosamente diferentes, que revelam uma artista inquieta, em busca de um projeto estético. Nesse ponto, eu diria que Feio, Eu? é o mais libertário entre os seus três filmes. Trata-se de um filme híbrido entre a ficção e o documentário, como um filme-ensaio que desvela o processo de busca de algumas atrizes e atores por moldar seus personagens. Como personagens de uma obra de Pirandello, essas atrizes vão existindo na medida em que vão criando seus personagens. E, à medida que elas descobrem esses personagens, o filme vai descobrindo o seu próprio caminho, ele vai se fazendo. É desse modo que Feio, Eu? alinha quatro buscas, numa espiral nitidamente metalinguística: personagens em busca de um filme; um filme em busca de seu próprio processo de fazer; um cinema em busca de um projeto estético; um país em busca de sua própria identidade.
    Por trás de todos eles, reside o espírito-corpo de Helena Ignez. Personagens que são em sua grande maioria mulheres (uma prostituta, uma cega, uma atriz, uma noiva, etc.); atrizes cocriadoras, assim como a típica expressão de Ignez. O que é ser ator? Mais que representar um papel, é vivê-lo: é, portanto, uma postura ética, um modo de autoconhecimento, uma declaração de princípios para a vida. Ser ator não é uma questão de verossimilhança, mas de verdade. Como afirma em um de seus trechos "a vida como obra de arte", ou seja, as relações entre criação e vida se retroalimentam, como uma via única. Índia e cigana, transformista, brasileira e "cidadã do mundo", Helena Ignez, assim como suas personagens, são espelho desse ser brasileiro em busca de sua própria identidade. Imagino que cada uma dessas mulheres não deixa de revelar facetas da própria Helena Ignez, que surge na tela diante de um giro, um giro diante de si mesmo, um giro diante das ruas da Lapa, da Cinelândia, do país.
    Fragmentado, caótico, apontando para a incompletude de seu processo de criação, Feio, Eu? é o mais sganzerliano projeto de Ignez, mas aponta também para um diálogo com o teatro. O ator, em franca oposição aos modelos adestrados pelo "cinema" e pela televisão, passa a dialogar com a estética de Grotowski (um cinema "pobre") e também de Artaud. Esse filme em busca de si mesmo se revela a partir de uma contínua deambulação dessas protagonistas, desse próprio filme em busca de seu processo de ser.
    A fragmentação surge a partir de um mosaico de protagonistas com as quais o espectador não propriamente se identifica mas acompanha seu percurso existencial e físico, suas metamorfoses. A montagem de Feio, Eu?, cuja coordenação foi feita por Ricardo Miranda, em seu último trabalho, surge não somente da combinação entre planos, mas também de planos entre planos (a tela muitas vezes se fragmenta, dividindo-se em planos no interior de outros planos, provocando relações múltiplas), assim como entre sons e entre imagem e som. O caos, a desordem, são símbolos de liberdade, da impossibilidade de ver a vida e o processo de criação como uma instância totalizante, que se fecha diante de si mesma. Feio, Eu? abre para o extracampo, para a vida, ou ainda, não só para o fazer artístico mas para o viver.
    A beleza de Feio, Eu?, como o próprio título nos instiga a pensar, deve ser buscada para além de sua superfície áspera e difusa. Essa beleza esguia como o próprio Brasil, como o próprio cinema brasileiro. Diferente do rigor plástico de Baal, Feio, Eu? é um "teatro pobre" costurado à mão. Seu título lança ao espectador uma pergunta que está longe de ser respondida. O espectador deve então partir para buscar a sua própria resposta do sentido de beleza.

terça-feira, maio 13, 2014

O COMPLETO ESTRANHO




O COMPLETO ESTRANHO prossegue o caminho de amadurecimento de Leonardo Mouramateus, esse jovem realizador cearense que, em pouco tempo, conseguiu resultados expressivos com um punhado de curtas muito pulsantes e com muito trabalho, quase todos realizados sem recursos públicos, com uma equipe colaborativa, entre o cinema, o teatro e a dança. Mouramateus prossegue realizando um curta atrás do outro em Fortaleza: Fui à guerra e não te chamei, Europa, Dias em Cuba, Charizard, Mauro em Caiena, Lição de Esqui, além de um conjunto de obras instalativas e de outros trabalhos menores. Entre o documentário observativo de primeira pessoa e a ficção coletiva baseada no corpo e na performance, já é possível afirmar que constitui uma obra, um corpo de questões em comum, que vão sendo prolongadas, desenvolvidas, aperfeiçoadas, e que aos poucos vão levando esse cinema móvel para outros lugares.

O COMPLETO ESTRANHO prossegue essa trajetória de descoberta e de depuração. É possível ver CHARIZARD, LIÇÃO DE ESQUI e O COMPLETO ESTRANHO como uma espécie de trilogia sobre o comportamento de uma juventude em Fortaleza, cuja afetividade se expressa a partir dos corpos e da dificuldade e da necessidade de estar junto. Mas, entre os três, talvez O COMPLETO ESTRANHO seja o mais bem acabado, pelo fato de o realizador e sua equipe terem encontrado uma certa ética da encenação que equilibra o desejo de potência, uma alegria da pulsão, com um certo rigor frio, comedido, uma certa depuração. Já havia algo de Bresson e Brecht em CHARIZARD, mas em O COMPLETO ESTRNHO os personagens falam, mas escondem muito mais do que falam, ou ainda, falam muito mais pelos seus silêncios.

Colocando de outra forma, de forma menos abstrata, O COMPLETO ESTRANHO é sobre o desejo de ficar e sobre o desejo de partir. Partir ou ficar? Ficar ou partir? Ir a uma festa ou ficar em casa? Ficar na festa ou voltar para casa? Ficar em Fortaleza ou sair da cidade? É a partir dessa dúvida - ou ainda, a partir desses interstícios, desses intervalos, desses silêncios, desse algo que não consegue ser dito - que o curta, como alguns outros do realizador, equilibra um olhar da singularidade, da construção da natureza misteriosa desses personagens, com um olhar sobre a própria cidade de Fortaleza, um certo olhar político sobre a solidão de uma juventude. Acontece que essa solidão, ou ainda, essa dúvida, não paralisa os personagens. Eles de alguma forma se atiram ao mundo, saem de casa, tentam a sorte, buscam amar, são curiosos, ouvem e se aproximam das pessoas. Essa é a pulsão, a esperança e a política dos curtas recentes de Leonardo Mouramateus.

Em O COMPLETO ESTRANHO isso é expresso de diversas formas. Na luz como elemento de dramaturgia (trabalho incrível de Juliane Peixoto e Felipe Acácio, complementado pela correção de cor de Alexandre Veras): as luzes da festa, o apagão, a penumbra. Nas citações indiretas (influências) ao cinema íntimo de Caetano Gotardo. Nos corpos dos personagens que transam e dançam. Que se beijam. Que observam e são observados. No rigor do modo como os personagens (e a câmera) sobem um lance de escadas. Mas acredito que é melhor expresso quando essas ações e intenções se revelam a partir das penumbras e dos silêncios. Por exemplo, quando cantam " I´ll fly with you". Quando as duas amigas se beijam na pista de dança e a câmera fica um pouco mais em uma delas. Na forma como repousa sua mão sobre a parede quando Geane, de costas, fala ao telefone.

A cidade é refletida nas bordas dos vidros da janela no plano final do filme, complementando as relações entre as pesoas e a cidade. Afinal, Fortaleza é a maior cidade pequena do mundo.

Espero que o cinema de Leonardo Mouramateus esteja apenas começando! Que ele consiga se equilibrar entre o desejo de ficar e a necessidade de partir.