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Cinecasulofilia

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terça-feira, maio 27, 2014

FEIO, EU?

(texto escrito para o catálogo da Mostra Outros Cinemas - Fortaleza, maio de 2014)


FEIO, EU? E AS MÚLTIPLAS FACETAS DA MISTERIOSA HELENA IGNEZ

    Começando como atriz, a artista Helena Ignez sempre apresentou em seus primeiros filmes um estilo de atuação despojada em que ela era uma atriz cocriadora. Contrapondo-se a um modo de ver o trabalho do ator como mero representante de um personagem, as personagens de Ignez revelavam seu aspecto contemporâneo em como o corpo, a voz e a performance ganhavam destaque em relação a uma composição psicológica. Se de um lado temos a contenção de O Padre e a Moça, seu típico trabalho de cocriação foi em A Mulher de Todos, seguidos de diversos filmes da produtora BelAir, como Sem Essa Aranha, ambos de Rogério Sganzerla.
    Seu trabalho como realizadora prossegue essa linha de um cinema de invenção tipicamente brasileiro. Ao mesmo tempo, comparando seus três longas-metragens dirigidos até aqui, vemos diversas nuances, como algumas metamorfoses em torno da busca por uma expressão cinematográfica. Começamos pelo sensualismo rigoroso da sua adaptação do primeiro Brecht em Canção de Baal, passamos pelo flerte com o cinema de gênero de inspiração popular em Luz nas Trevas, uma adaptação do roteiro de Sganzerla de continuação de seu clássico filme O Bandido da Luz Vermelha, com todas as suas atribulações de produção, até chagarmos ao libertário e aberto Feio, Eu?.
    Três filmes misteriosamente diferentes, que revelam uma artista inquieta, em busca de um projeto estético. Nesse ponto, eu diria que Feio, Eu? é o mais libertário entre os seus três filmes. Trata-se de um filme híbrido entre a ficção e o documentário, como um filme-ensaio que desvela o processo de busca de algumas atrizes e atores por moldar seus personagens. Como personagens de uma obra de Pirandello, essas atrizes vão existindo na medida em que vão criando seus personagens. E, à medida que elas descobrem esses personagens, o filme vai descobrindo o seu próprio caminho, ele vai se fazendo. É desse modo que Feio, Eu? alinha quatro buscas, numa espiral nitidamente metalinguística: personagens em busca de um filme; um filme em busca de seu próprio processo de fazer; um cinema em busca de um projeto estético; um país em busca de sua própria identidade.
    Por trás de todos eles, reside o espírito-corpo de Helena Ignez. Personagens que são em sua grande maioria mulheres (uma prostituta, uma cega, uma atriz, uma noiva, etc.); atrizes cocriadoras, assim como a típica expressão de Ignez. O que é ser ator? Mais que representar um papel, é vivê-lo: é, portanto, uma postura ética, um modo de autoconhecimento, uma declaração de princípios para a vida. Ser ator não é uma questão de verossimilhança, mas de verdade. Como afirma em um de seus trechos "a vida como obra de arte", ou seja, as relações entre criação e vida se retroalimentam, como uma via única. Índia e cigana, transformista, brasileira e "cidadã do mundo", Helena Ignez, assim como suas personagens, são espelho desse ser brasileiro em busca de sua própria identidade. Imagino que cada uma dessas mulheres não deixa de revelar facetas da própria Helena Ignez, que surge na tela diante de um giro, um giro diante de si mesmo, um giro diante das ruas da Lapa, da Cinelândia, do país.
    Fragmentado, caótico, apontando para a incompletude de seu processo de criação, Feio, Eu? é o mais sganzerliano projeto de Ignez, mas aponta também para um diálogo com o teatro. O ator, em franca oposição aos modelos adestrados pelo "cinema" e pela televisão, passa a dialogar com a estética de Grotowski (um cinema "pobre") e também de Artaud. Esse filme em busca de si mesmo se revela a partir de uma contínua deambulação dessas protagonistas, desse próprio filme em busca de seu processo de ser.
    A fragmentação surge a partir de um mosaico de protagonistas com as quais o espectador não propriamente se identifica mas acompanha seu percurso existencial e físico, suas metamorfoses. A montagem de Feio, Eu?, cuja coordenação foi feita por Ricardo Miranda, em seu último trabalho, surge não somente da combinação entre planos, mas também de planos entre planos (a tela muitas vezes se fragmenta, dividindo-se em planos no interior de outros planos, provocando relações múltiplas), assim como entre sons e entre imagem e som. O caos, a desordem, são símbolos de liberdade, da impossibilidade de ver a vida e o processo de criação como uma instância totalizante, que se fecha diante de si mesma. Feio, Eu? abre para o extracampo, para a vida, ou ainda, não só para o fazer artístico mas para o viver.
    A beleza de Feio, Eu?, como o próprio título nos instiga a pensar, deve ser buscada para além de sua superfície áspera e difusa. Essa beleza esguia como o próprio Brasil, como o próprio cinema brasileiro. Diferente do rigor plástico de Baal, Feio, Eu? é um "teatro pobre" costurado à mão. Seu título lança ao espectador uma pergunta que está longe de ser respondida. O espectador deve então partir para buscar a sua própria resposta do sentido de beleza.

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