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Cinecasulofilia

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quarta-feira, agosto 27, 2014



O primeiro debate eleitoral

Não temos líderes. Se bem que não acredito em líderes. Não acredito em lideranças. Mas o próprio fato de eu não mais acreditar em líderes ou em lideranças é um pouco (talvez não tão pouco) reflexo do processo político em que vivemos, que vem perdendo, a cada momento que passa, sua legitimidade. Não consigo ver nas possíveis alternativas aos processos políticos de fato uma alternativa; de fato uma possibilidade de uma política mais humana, que nos reconstitua o essencial: a vontade de estar vivos e de construir algo melhor não apenas para nós mesmos, mas para nossos pares. Um senso de coletividade. Não consigo ver nos discursos, nos figurinos, nas expressões, nos olhares e nos gestos desses "candidatos" algo que não seja previamente programado e estudado, como se o debate fosse quase como um filme ruim, uma telenovela. Não é que o que eles falem não faça sentido ou que seja desprezível, mas simplesmente é algo que não me toca. Não é questão de verossimilhança mas de verdade. Não sinto algo que pulse para além dos jargões defensivos desse tipo de situação de debate. Ou seja, numa arena em que os candidatos têm a rara possibilidade de dizer, vejo que não há nada a ser dito, não existe a possibilidade de dizer, por conta de uma aderência plena a um sistema de códigos rígidos que engessa a comunicação, colocando a todos nós (candidatos, eleitores, jornalistas, assessores) numa arena do constrangimento, em que todos prendem a respiração esperando a próxima derrapada, o próximo deslize, como se cada fala fosse uma tomada de tempo típica dos treinos de classificação das corridas de Fórmula 1. O que fica no final é a retórica ou a publicidade, muito mais do que a possibilidade de debater algo. Um castelo de areia, uma nuvem de espuma, um glitter de purpurina - é isso o que rege o destino de milhões de pessoas, que entregam certa parte de seu destino a uma imagem falha. Viver passsou a ser isso: uma (auto)representação do que somos (ao invés de ser um exercício especulativo das possibilidades do que "podemos ser").

terça-feira, agosto 19, 2014

Ontem revi A DUPLA VIDA DE VERONIQUE, um filme que marcou a minha vida. Quando eu vi este filme, aos quatorze anos, eu descobri a possibilidade de um cinema. Um cinema que apostava no mistério e na fabulação, mas não deixava de ser doce e de ter uma certa comunicação com o público. As cenas, os diálogos, as imagens ficaram comigo. Esse filme do Kieslowski me apresentou o que seria o tal "cinema contemporâneo". Existe ali uma narrativa, mas que é percebida muito mais através de pequenos momentos que não necessariamente se encaixam perfeitamente, mas que apontam para uma sensação. Existe um prazer em filmar, em fazer cinema. Kieslowski está visivelmente emocionado e feliz em poder filmar com uma estrutura de produção impensável para ele. É um filme de transição, entre a Polônia e a França. A Europa em vias de um processo de "união", o que ele iria explorar mais à frente na "Trilogia das Cores". A criação (a música), o coração, o espírito. Ver (as fotos) e ouvir (a fita K-7). Essa mistura fascinante entre um sensualismo e um filme infantil. A cena das marionetes. A passeata no Centro da Varsóvia. O êxtase entre a morte e a vida. O processo de criação. O assombroso plano final. Kieslowski. Rever La double vie me fez relembrar daquilo que me faz, quando eu descobria o que era o cinema (na verdade, ainda descubro, mas sem essa ingenuidade de anos atrás). O que me fascina nesse belo filme é saua pulsão pela vida, sua curiosidade, seu prazer em filmar. Sua narrativa rarefeita, seu humor polonês, esse mistério. A dupla vida de Veronique, filme contemporâneo. Decerto não é orgânico como os filmes orientais (como os de HHH ou Tsai), mas, através de suas descontinuidades, Kieslowski imprime no filme um sentimento de que os momentos fugazes é que definem a aventura de viver dessa personagem, e esse desejo contamina e pulsa por todo o filme.