.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, setembro 25, 2014

PINGO D´ÁGUA e seus entrelugares




Pingo d´água é um filme de trânsitos e de deslocamentos. Devo começar com a própria posição do seu realizador. Taciano Valério vive entre Campina Grande e Caruaru. É um cineasta nordestino mas seu cinema não reflete os valores geralmente associados a uma produção regionalista: seus filmes não abordam a cultura popular, o sertão, a seca, o cangaço, etc. Ainda, Taciano vive "no interior do interior": não está nem em João Pessoa nem em Recife mas nos interiores desses dois estados. Ao mesmo tempo, Campina e Caruaru são "duas cidades grandes": são dois "centros no interior", que refletem o crescimento de cidades médias no interior do Nordeste. São centros urbanos que, em maior ou menor grau, também sofrem de problemas análogos aos das grandes metrópoles. É o que vemos, por exemplo, em Ferrolho, longa anterior de Taciano, passado em Caruaru.

Deslocado entre essas duas cidades interioranas mas que ao mesmo tempo não mais refletem os valores que se esperam desse interior (ou ainda, que não mais repetem as antinomias entre interior versus centro, ou rural versus urbano), o maior desafio do cinema de Taciano Valério é incorporar essa ideia de trânsito à própria ideia de uma dramaturgia. Deslocados de si, seus personagens buscam um lugar no mundo, e vivem sempre numa ideia de trânsito.

Sim, porque o cinema de Taciano é, acima de tudo, um cinema de personagens. Mas é curioso pensar nesse realizador que tem um mestrado em literatura, um doutorado em psicologia clínica e que busca se expressar através do cinema - talvez mais um desses deslocamentos de que falava. É curioso, pois seu cinema de personagens busca um outro respiro de dramaturgia de personagens, que não se baseia nem numa ideia de roteiro como espinha dorsal do processo fílmico nem no intimismo psicológico como chave de identificação dos personagens. Então, o que temos? Uma ideia de trânsito, uma necessidade de se deslocar, uma dificuldade de encontrar um pouso seguro. Um desejo enorme de encontrar um lar, e ao mesmo tempo sua impossibilidade, porque tudo é tão fugidio e solitário.

Me interessa pensar nessa ideia de trânsito como chave do cinema de Taciano. Um cinema existencial entre Campina e Caruaru, entre interiores que não mais são. Se falamos no cinema contemporâneo como um cinema transnacional, como efeito de uma globalização, é possível pensar o atual cinema brasileiro através de um cinema transregional. A internet, as redes, as promoções de passagens aéreas, a escalada do número de carros têm possibilitado o aumento dos fluxos entre cidades, e esses deslocamentos têm afetado não apenas a diversidade dos temas mas também os modos de fazer. Pingo d´água foi realizado entre Tiradentes (MG), Campina Grande (PB), Lagoa Seca (PB) e São Paulo (SP). Não é mais possível dizer que Pingo d´água é um filme paraibano. É um filme de entrelugares. Ao mesmo tempo, na ficha de inscrição do Festival de Brasília, era preciso marcar um "X", definir um "local de produção". Se Taciano não marcasse "(X) PB", seu filme provavelmente não teria sido exibido. Qual é o sentido de se falar de onde se é, ao invés de para onde se busca ir?

Mas talvez eu tenha sido apressado e seja melhor recomeçar de outra forma.

Pingo d´água começou de um encontro. Taciano estava na Mostra de Tiradentes exibindo seus dois longas anteriores, e viu ali uma oportunidade de rodar uma cena com alguns atores que lá já estavam. Abordou-os e os convidou para a cena de um filme, que ele tinha apenas um esboço: atores que entram em conflito quando descobrem que apenas um deles recebe cachê e esperam a chegada do produtor para lhes dar explicações. Esse foi quase um pretexto para que os atores se reunissem, e, a partir da energia produzida por esse encontro de corpos e vozes, houvesse a possibilidade de surgir algo. Essa cena, e esse encontro, foram gerando outras cenas e outros encontros, que se multiplicaram.

A dificuldade é que, a partir desse encontro, cada um dos atores retornou para sua cidade. Foi formada então uma rede, cujas teias foram sendo cozidas a partir desse primeiro encontro. Walter, Jean-Claude e Melissa em São Paulo; Dellani em Belo Horizonte; Veronica e Paulo em Caruaru. Como agenciar esses encontros?

Pingo d´água, então, para poder prosseguir, assumiu-se como um filme em trânsito. Tornou-se um filme sobre a possibilidade de esse filme ser feito. Tornou-se um filme sobre atores em busca de seus personagens. Tornou-se um filme que desdobra uma dramaturgia de personagens através de três camadas: a pessoa, o ator, o personagem. De um lado, em várias ocasiões o filme mostra atores se preparando para um ensaio (Walter decorando as falas de um texto, atores em um breve ensaio corporal, Melissa dizendo que vai viajar para um filme, os atores discutindo o cachê, etc.). De outro, situações vividas por essas pessoas foram usadas como base para construir personagens (Jean-Claude que não quer mais ser crítico, que tem dificuldade para ler, Walter que se cansa de ler para Jean-Claude, etc.).

Ao mesmo tempo, essa dramaturgia de personagens se desfolha em encontros. Ora os personagens estão em grupo (o encontro em Tiradentes, as performances em Brejo Seco), ora estão em duplas (Melissa e Verônica, Jean-Claude e Everaldo, Jean-Claude e Walter, etc.) ora estão sós.

Na montagem as situações se embaralham, frustrando quem busca uma evolução narrativa gradual que possa amarrar as situações montadas para o filme. Não é que o filme seja "sem sentido", mas se parece que a montagem busca encontrar um sentido para as cenas, imbuída pela ideia de trânsito, ela acaba extrapolando as relações, como se ela mesma espelhasse essa dificuldade de os atores encontrarem seus personagens, como se refletisse esse percurso, desse filme em eterna busca de si. Como um filme que também procura um pouso e, desconfiado dele, rodopia em torno de si, e se surpreende com a beleza desse giro, e absorto por ela, desiste de pousar. O delicado Pingo d´água é por vezes inquieto e desconfiado, matuto e matreiro. Desiste do pouso e prefere continuar rodopiando, em busca de si.

Para poder ver Pingo d´água, o espectador precisa se deslocar de seu porto seguro e embarcar nessa viagem sem rota. Deve desistir de tentar encontrar uma espinha dorsal e simplesmente se deixar surpreender (maravilhar) por pequenos lampejos de beleza que inesperadamente surgem e logo desaparecem. Ele precisa ver os planos, ver os movimentos dos corpos, precisa olhar para a pele, precisa buscar o que não consegue ser dito, precisa mergulhar nos matizes de cinza. Ele só irá se encontrar se permitir se deixar perder.

Esses surtos de beleza são breves, são apenas lampejos, porque há algo que falta. É curioso pensar que se Pingo d´água é um filme de encontros (o encontro é a única possibilidade que se tem), me parece que é na mesma medida um filme de desencontros. Há algo que falta. Há uma solidão, uma separação, uma angústia. Não há fetiche, não há mero espetáculo narcisista de autocontemplação. É um mergulho existencial, de uma narrativa que se dobra diante de si. Um realizador, alguns personagens, uma dramaturgia íntima que, em meio a um processo sinuoso, se curvam para o interior de si mesmos. Um filme de trânsitos e de deslocamentos.

Todos esses aspectos podem ser pensados na figura de Jean-Claude Bernardet. Diante de um dos maiores pesquisadores da história do cinema brasileiro, o que nos surpreende é a sua vitalidade e inquietude. Ao invés do pedestal "de grande pensador da USP", Jean-Claude prefere se colocar numa posição de extrema fragilidade, buscando aprender mais que ensinar (essa é sua maior lição!). Ou ainda, prefere se colocar nesse constante deslocamento de si mesmo, nesse estado de trânsito, nessa inquietude, em rasgar as zonas de conforto, em teimar em ser jovem mesmo quando não se é mais, etc, etc. A forma surpreendente como Jean-Claude se lança nesse abismo é enormemente inspiradora, pois fala de forma frontal de todos os desafios de uma nova geração do cinema brasileiro: a possibilidade de se reinventar a cada momento, buscando o cinema como vocação e não como estratégia de poder ou de dinheiro.

Jean-Claude vive essas situações não de forma teórica ou idealizada, mas ele respira todas essas dificuldades expondo para o público as suas cicatrizes em seu próprio corpo. Ele expõe suas fragilidades sem nenhum pudor prévio pela sua "imagem", o que só nos mostra que o pensamento de Jan-Claude não foi visto apenas nos seus textos mas foi vivido em sua própria vida, no seu próprio corpo. Estamos falando dessas opções éticas que são vividas concretamente, a cada dia. É por isso que sempre digo que o "cinema de garagem" não é feito apenas de questões "econômicas" (pouca grana) ou "estéticas" (a beleza do plano). Jean-Claude VIVE as suas opções de liberdade e de constante questionamento e reinvenção e é isso o que nos alimenta.

Pingo d´água é um filme coletivo pois se estrutura no processo contínuo de colaboração, e não como estratégia de consolidação de uma marca, recurso da publicidade. É um coletivo que se organiza provisoriamente, temporário. Ao final do filme, cada um volta para suas casas, e potencializa esses encontros nos seus próximos encontros, nos seus próximos coletivos e projetos, que serão desenvolvidos com outras pessoas. Esse já é outro assunto.

Pingo d´água é sem dúvida o mais radical dos filmes exibidos no último Festival de Brasília. Foi ali exibido por uma combinação de acaso, destino e milagre, o que rima com o próprio filme. A maior parte da crítica ficou estupefata. No extraordinário debate no dia seguinte após a exibição do filme no Festival de Brasília, Taciano disse que há duas possibilidades para o cinema: o "cinema raiz" e o "cinema rizomático". A grosso modo, o cinema raiz é aquele que se estrutura a partir de um espesso tronco (monolítico), e o cinema rizomático, dialogando com o conceito de Deleuze, é uma "ruma de batatinhas", algo que não se organiza a partir de um tronco denso, mas que se esparrama pelo solo. Fico na dúvida se essas dualidades nos ajudam a pensar o cinema que Taciano propõe mas sua argumentação foi deliciosa.

Pingo d´água está longe de ser uma obra-prima, nem se pretende a ser. Esses instantes não raras vezes brotam de maneira irregular, alguns momentos de incrível beleza nos surpreendem enquanto outros apresentam mais dificuldade de aprofundamento. Mas analisar desse modo é não perceber o que está em jogo no filme. Seu gesto ousado e desafiador está em se lançar nesse tabuleiro de cartas a partir de um olhar para o processo de realização da obra que propõe um enorme e instigante debate sobre as possibilidades de se fazer um filme. Essa é a posição desse filme dentro do atual cenário do cinema brasileiro.

Ali nesta edição do Festival de Brasília, no meio de outros filmes potentes, dado todo um contexto, este filme pôde ser visto. Mas permanece na sua solidão, pois aponta para caminhos muito diferentes de todos os outros. A "rama de batatinha". Por trás do delicadíssimo Pingo d´água, há a figura de Taciano, que permanece entre Campina Grande e Caruaru, esse cabra matreiro que permanece nesses entrelugares, buscando uma espécie de lar, uma sombra do cajueiro.


sexta-feira, setembro 19, 2014

Festival de Brasília 2014 - apontamentos (I)





Fazer a curadoria e a programação de uma mostra de cinema é sempre um desafio. Cavi Borges, no debate de ontem (18/09), lançou uma boa questão sobre a curadoria, de que SEM PENA seria um filme isolado entre os demais filmes, por ser um "documentário documentário" enquanto os demais possuem formas híbridas entre o documentário e a ficção. Lá no debate, preferi não me manifestar, pois não me cabe falar em nome da curadoria. Mas posso tentar contribuir oferecendo como eu pessoalmente vejo essas relações. Essa questão do hibridismo é apenas um dos aspectos a partir dos quais é possível aproximar esses filmes. Num primeiro olhar pode parecer que é uma questão central, já que há alguns filmes interessantes nessa safra que de fato investigam as fronteiras entre o que existe previamente à presença da câmera e o que ela transforma ao ser disparada. Mas essa é apenas uma das questões em torno das quais esses filmes podem ser pensados, e através dos quais podemos pensar as modulações em torno desses filmes.

Fico pensando que apresentar em sequência SEM PENA e BRASIL S/A pode levantar questões sobre como o cinema pode representar o país, ou ainda, questões relativas a uma macropolítica. São dois filmes indiscutivelmente muito diferentes entre si. Mas ao mesmo tempo sinto um desejo de aproximá-los porque ambos têm como ponto de partida uma indignação com o país que temos, e um desejo de refletir essa indignação através de um uso criativo da linguagem cinematográfica. São dois filmes que desejam investigar as contradições, os paradoxos do país de hoje que vivemos, em termos da crise de uma certa lógica de um projeto que se propõe racionalista mas que apresenta contradições intrínsecas, seja num projeto legalista, desenvolvimentista, etc. São filmes que querem falar mais de um sistema do que de pessoas, ou ainda, interessa a eles investigar uma macropolítica, uma conjuntura social que extrapola o indivíduo, e como essa estrutura impacta diretamente nossas vidas. Ou seja, não interessa ao filme desenvolver relações de intimidade ou de subjetividades com seus personagens mas eles servem a uma causa maior, uma análise de um estado de coisas, um desejo de pensar as contradições do país. SEM PENA exclui os rostos e as identificações para que nos concentremos melhor nos discursos; BRASIL S/A trabalha com "personagens arquetípicos". No entanto, nenhum dos dois se preocupa em dar respostas mas apenas lançar um ponto de partida, revelando uma desesperança ou um fracasso, ou se preferirem, uma crise de um sistema.

As relações entre interioridade e exterioridade entre SEM PENA são interessantes. Só temos acesso às falas, desenvolvemos com essas pessoas um ponto de escuta. Não vemos rostos, precisamos prestar atenção no discurso e em suas retóricas. As imagens, em sua maior parte, nos mostram espaços, paisagens. Existe então uma relação entre essas vozes e esses espaços, relações que são às vezes de aproximações e às vezes de distanciamentos. Mas em muitas ocasiões esses espaços falam como corpos, na forma como são ou não são ocupados. Essa examinação do espaço - ou da paisagem - me parece um dos aspectos mais interessantes do filme, nos momentos em que ele acontece bem (no palácio da justiça, por exemplo).

Já outros filmes tem preocupações muito diversas: desejam falar de uma micropolítica. Por exemplo, PINGO DÁGUA e ELA VOLTA NA QUINTA. Sua política é a da afetividade, a da potência dos gestos mínimos, a beleza da possibilidade de estar junto.

O filme do Adirley já dialoga de outras formas, fazendo pontes dinâmicas, entre a macropolítica e a micropolítica. Tem o desejo de falar de um cenário social que transborda os personagens mas ao mesmo tempo em observar de uma forma afirmativa a vida nas periferias.

Vou tentar desenvolver esses aspectos em outros textos.