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Cinecasulofilia

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sexta-feira, setembro 19, 2014

Festival de Brasília 2014 - apontamentos (I)





Fazer a curadoria e a programação de uma mostra de cinema é sempre um desafio. Cavi Borges, no debate de ontem (18/09), lançou uma boa questão sobre a curadoria, de que SEM PENA seria um filme isolado entre os demais filmes, por ser um "documentário documentário" enquanto os demais possuem formas híbridas entre o documentário e a ficção. Lá no debate, preferi não me manifestar, pois não me cabe falar em nome da curadoria. Mas posso tentar contribuir oferecendo como eu pessoalmente vejo essas relações. Essa questão do hibridismo é apenas um dos aspectos a partir dos quais é possível aproximar esses filmes. Num primeiro olhar pode parecer que é uma questão central, já que há alguns filmes interessantes nessa safra que de fato investigam as fronteiras entre o que existe previamente à presença da câmera e o que ela transforma ao ser disparada. Mas essa é apenas uma das questões em torno das quais esses filmes podem ser pensados, e através dos quais podemos pensar as modulações em torno desses filmes.

Fico pensando que apresentar em sequência SEM PENA e BRASIL S/A pode levantar questões sobre como o cinema pode representar o país, ou ainda, questões relativas a uma macropolítica. São dois filmes indiscutivelmente muito diferentes entre si. Mas ao mesmo tempo sinto um desejo de aproximá-los porque ambos têm como ponto de partida uma indignação com o país que temos, e um desejo de refletir essa indignação através de um uso criativo da linguagem cinematográfica. São dois filmes que desejam investigar as contradições, os paradoxos do país de hoje que vivemos, em termos da crise de uma certa lógica de um projeto que se propõe racionalista mas que apresenta contradições intrínsecas, seja num projeto legalista, desenvolvimentista, etc. São filmes que querem falar mais de um sistema do que de pessoas, ou ainda, interessa a eles investigar uma macropolítica, uma conjuntura social que extrapola o indivíduo, e como essa estrutura impacta diretamente nossas vidas. Ou seja, não interessa ao filme desenvolver relações de intimidade ou de subjetividades com seus personagens mas eles servem a uma causa maior, uma análise de um estado de coisas, um desejo de pensar as contradições do país. SEM PENA exclui os rostos e as identificações para que nos concentremos melhor nos discursos; BRASIL S/A trabalha com "personagens arquetípicos". No entanto, nenhum dos dois se preocupa em dar respostas mas apenas lançar um ponto de partida, revelando uma desesperança ou um fracasso, ou se preferirem, uma crise de um sistema.

As relações entre interioridade e exterioridade entre SEM PENA são interessantes. Só temos acesso às falas, desenvolvemos com essas pessoas um ponto de escuta. Não vemos rostos, precisamos prestar atenção no discurso e em suas retóricas. As imagens, em sua maior parte, nos mostram espaços, paisagens. Existe então uma relação entre essas vozes e esses espaços, relações que são às vezes de aproximações e às vezes de distanciamentos. Mas em muitas ocasiões esses espaços falam como corpos, na forma como são ou não são ocupados. Essa examinação do espaço - ou da paisagem - me parece um dos aspectos mais interessantes do filme, nos momentos em que ele acontece bem (no palácio da justiça, por exemplo).

Já outros filmes tem preocupações muito diversas: desejam falar de uma micropolítica. Por exemplo, PINGO DÁGUA e ELA VOLTA NA QUINTA. Sua política é a da afetividade, a da potência dos gestos mínimos, a beleza da possibilidade de estar junto.

O filme do Adirley já dialoga de outras formas, fazendo pontes dinâmicas, entre a macropolítica e a micropolítica. Tem o desejo de falar de um cenário social que transborda os personagens mas ao mesmo tempo em observar de uma forma afirmativa a vida nas periferias.

Vou tentar desenvolver esses aspectos em outros textos.

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