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Cinecasulofilia

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quarta-feira, outubro 22, 2014

BODA BRANCA




1A e 1B: dolly-out num momento crucial do filme. Após o primeiro êxtase, o professor deixa a casa da menina, pois precisa "voltar para casa". Num dos raros momentos do filme em que a câmera não acompanha esse professor, vemos prenunciada a impossibilidade do contato com esse dolly-out magnífico.

2: um plano-síntese do cinema de Brisseau. Anjo ou demônio? Carne ou espírito? Vejam a importância da presença da luz como elemento dramatúrgico. O corpo, o sexo, o feminino, ou ainda, o desejo que destrói a paz ou que entra em choque com as convenções da sociedade, é a matéria-prima do cinema provocativo de Brisseau.


3: Liberdade. A importância do grande plano geral. Um dos raros momentos de plena felicidade do filme. Um dos raros momentos desse filme em que esse professor vive de forma plena, perde o controle do corpo, de si, simplesmente corre. O verde e a selva de concreto. As ruas bifurcadas que se encontram num vértice. Eles se encontram, de mãos dadas. Um plano quase de cinema japonês.


BODA BRANCA




BODA BRANCA

Ver esse filme de Brisseau após ter visto COISAS SECRETAS e A GAROTA DE LUGAR NENHUM nos faz rever a trajetória desse notável realizador. O argumento de BODA BRANCA a princípio não nos parece causar especial entusiasmo (um professor de meia-idade se apaixona por uma aluna bem mais jovem). Ao contrário, parece algo já visto, um tanto convencional. O roteiro, ainda mais para o fim, possui uma carga de melodrama exacerbado. O tratamento da mise-en-scene não possui nada de particular encanto. Brisseau não quer nos convencer que sabe filmar bem, ele apenas filma bem. Aqui, no final dos anos oitenta, não sabe mais o cinema da nouvelle vague, os arroubos do cinema moderno (câmera na mão, elipses, descontinuidades radicais, metalinguagem, autonomia dos movimentos de câmera). O que há, então, para ser visto em BODA BRANCA? O que o faz um filme tão notável e tão marcadamente pessoal?

Para tentar responder a isso, preciso - novamente - recorrer a uma crítica de Guiguet sobre o cinema de Pialat: "seu formidável impacto se dá a partir de sua deliberada recusa da arte; se ele não se faz belo, não busca a feiúra e à miséria.".

Ao citar esse texto, busco fazer uma ponte entre o cinema de Guiguet e o de Pialat, ou ainda, entre o cinema de Brisseau e o de Guiguet. Ou ainda, busco apontar para uma busca ética-estética dos cineastas de uma geração pós-nouvelle vague de meados dos anos setenta, que revalorizam uma dramaturgia de personagens, mas de uma forma mais sóbria, um pouco mais próxima em termos gramaticais do cinema narrativo clássico, mas que se revela moderno por complexificar a composição dos personagens, em evitar o moralismo, em se aproximar da alma e da epiderme desses pobres homens que buscam sobreviver. É o cinema de Garrel, de Guiguet, de Doillon, e também de Brisseau, entre alguns outros.

BODA BRANCA fala da decadência moral de um homem, seu caminho para a inevitável solidão. Isso acontece porque, pela primeira vez na vida, ele descobre o que é amar. Um professor de filosofia, que ensina aos seus alunos o que são os mistérios da vida e os fascínios do insconsciente. Ele, então, vai aprender, com sua aluna de 17 anos o que é viver. Da teoria à prática. Ele vai descobrir a sua miséria e a sua grandeza; a miséria e a grandeza de viver, de amar. De sofrer, de morrer. De magoar. Acontece que quando esse professor descobre o que é a vida talvez seja tarde mais. Falamos de liberdade, falamos de destino.

Acontece que, para falar isso, Brisseau procura se apegar ao que tem; o que ele tem é tudo, e isso basta, e assim, faz cinema. Essa é sua principal lição do cinema clássico. Ao mesmo tempo, desenvolve discretamente uma mise-en-scene que preenche cada plano do filme de uma desesperança, de um desencanto. Mas que ao mesmo tempo não acentua a miséria ou a desgraça de seu personagem. Nas palavras de Guiguet, não busca ser belo mas não busca ser feio. Ou ainda, busca uma beleza discreta, uma forma discreta de encenar, mas absolutamente notável.

É só pensarmos como a luz é usada no filme. Em como o professor vê sua aluna na cama logo após ter feito amor pela primeira vez.
É só pensarmos como a aluna e o professor correm para o carro ao sair da escola, e ela convence o professor a não dar carona para a secretária. Ambos correm de mãos dadas num grande plano geral em que vemos as árvores e os prédios da cidade no fundo.
É só pensarmos como, em determinado momento do filme, quando o professor a deixa e volta para casa, vemos um raro momento em que a câmera abandona esse professor, deixa a menina sozinha no quadro, e há um dolly-out que recua da casa.

Outra forma de falar nesse filme é pensar a crítica de João Cesar Monteiro sobre Gertrud, de Carl Dreyer. Ele cita uma frase de La Fontaine que diz " Aimer sans foutre c’est peu de chose / Foutre sans aimer ce n’est rien”.

Com isso, quero aproximar BODA BRANCA do cinema de Carl Dreyer, especialmente de GERTRUD. É preciso amar, é preciso o corpo do amante. Sem ele, não se é nada. É preciso apostar tudo no amor. Mas como isso é possível, se somos finitos, se temos passado, e temos obrigações no mundo? Ou como uma refilmagem de TUDO O QUE O CÉU PERMITE (o melodrama, o uso da luz, a fábula moral, o destino)?

BODA BRANCA pode ter passado despercebido no final dos anos oitenta, uma "década perdida", um mundo "sem utopias". O melodrama, esse gênero tão vulgar, tao desgastado. Os sentimentos. Como ainda poder encenar algo que nos afeta? Pensando BODA BRANCA em conjunto com a produção posterior de Brisseau vemos um cineasta absolutamente invulgar pela forma como vai trabalhar delicadamente alguns temas, que irão ser depurados, aprofundados, reavaliados. Em comum, uma abordagem fisolófica da vida que se aproxima de um folhetim. A necessidade e a dificuldade de amar. Como descobrir o amor é o início do filme. Como a juventude é passageira, uma chama que arde, bela, frágil, incontrolável. Como a velhice e a morte em algum momento irá abarcar tudo. Como tudo acaba. Mas fala disso por meio de um estilo sóbrio, de contenção cênica.

A GAROTA DE LUGAR NENHUM vai retomar o tema de BODA BRANCA, mas, mais de vinte anos depois, Brisseau irá realizar uma obra de pura contenção, ao mesmo tempo mais sóbria, mais consciente de seu fim, e, até mesmo por isso, paradoxalmente, mais esperançosa. Ou menos desesperançosa.

Talvez A GAROTA elucide um aspecto central da obra de Brisseau, talvez comum a BODA BRANCA, através de outra citação, e assim, chega, acabo meu texto. É uma citação de Van Gogh, feita na metade do filme: " Eu passo muito bem sem Deus, seja em minha vida seja na pintura. Mas, sofredor como sou, eu não passo sem algo que é maior do que eu, que é a minha vida: o poder de criar".

segunda-feira, outubro 13, 2014

um caminho estranho

(um texto que escrevi há uns seis meses, mas que talvez ainda seja atual....)



um caminho estranho

Há duas formas básicas de se fazer cinema: ou você tem muito dinheiro, ou você tem muitos amigos. Eu não tenho muito dinheiro muito menos amigos. Assim, considero um milagre a possibilidade de me manter fazendo filmes. Ou melhor, mais do que um milagre, é um sinal de teimosia. Me sinto fazendo filmes como se fosse uma criança, sem querer nada com isso a não ser o simples prazer de ver uma imagem projetada, de ver uma imagem colando com a outra e produzindo algum sentido. Um sentido misterioso que me faz entender melhor (menos pior) um pouco mais de quem sou eu. Me sinto muito ingênuo quando mais um de meus videos caseiros ficam prontos. Eles não são adequados para o mercado; eles não são adequados para serem exibidos em festivais de cinema. Não têm "glamour", não buscam ser arte. Não sei porque sou assim tão ingênuo. Poderia buscar me adequar a isso. Porque conheço razoavelmente bem as regras do mercado e conheço razoavelmente bem as regras do mercado de arte. Mas, por algo que mexe dentro de mim, por algum motivo, não quero me inserir em nenhum desses meios. Escrevo livros, dou aulas sobre o mercado cinematográfico; organizo mostras de cinema, escrevo críticas sobre um certo cinema de arte contemporâneo, mas, por algum motivo misterioso, não quero me inserir nisso. Não me sinto bem nesses lugares. Não tenho muito o que conversar com as pessoas que frequentam esses lugares. E, além disso, não tenho dinheiro nem tenho amigos. Permaneço então teimando em fazer filmes mesmo assim. A essa altura vocês já devem ter entendido porque não tenho muito dinheiro nem tenho muitos amigos. Porque acabei trilhando - por obra do destino - um certo caminho estranho, nem à sombra nem ao sol. Um caminho solitário. Nem sei se por opção ou por destino. Acontece que quinze anos depois eu permaneço fazendo filmes de forma solitária, e acho um verdadeiro milagre a possibilidade de fazê-los mesmo assim. Aonde isso vai me levar? Provavelmente a lugar nenhum, mas eu permaneço caminhando mesmo assim, porque é tudo o que tenho.

terça-feira, outubro 07, 2014

Nesta semana vi o último filme do mago Alejandro Jodorowsky A DANÇA DA REALIDADE. No início há uma sensação de grande estranhamento, por uma encenação um pouco grosseira, meio atabalhoada, com cores muito gritantes. Mas aos poucos vamos entrando na atmosfera criada pelo autor em seu filme mais felliniano, mas mais radical que os de Fellini. Afora os elementos do ocultismo, que estão nítidos em todo o filme mas que não consigo precisar, o que salta aos olhos é que esse filme é em muitas maneiras um testamento de Jodorowsky. Encanta a forma frontal com que Jodorowsky abraçou o projeto desse filme, e fez o filme possível para ele ali naquele momento, depois de mais de 25 anos sem filmar. É um crime que um grande artista como Jodorowsky tenha ficado tanto tempo sem realizar um filme. Uma vontade louca de narrar, de dar vida, de criar personagens, de falar de vidas que mudam e remudam. De pessoas ingênuas que descobrem o mundo e se tornam ainda mais ingênuas com ele, que redescobrem o poder de se encantar, e prosseguem mesmo com tanta miséria e desgraça. Jodorowsky dialoga com toda a arte e a cultura latino-americana, o melodrama, o cinema de lágrimas, sem deixar de ter um forte pé no surrealismo e em toda a sua formação artística e cinematográfica. Esse filme em particular é desenrolado por três personagens que talvez sejam um só: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Extraordinária atuação de Brontis Jodorowsky, por sinal o próprio filho de Alejandro, que faz o papel de seu pai. Uma atuação daquelas que torna um filme antológico. O filme possui uma quebra narrativa extrema, divindo-o em duas metades. O filme tem um roteiro bastante interessante, cheio de meandros, voltas e retomadas. O autor é ambicioso, combinando uma complexa história pessoal de uma família com a história política de seu país. E o faz ao longo de uma longa trajetória de vida. Uma parábola crítica contra o poder, os mitos e as falsas convicções. A DANÇA DA REALIDADE é um filme absurdamente triste, mas nunca derrotista. Seus personagens caminham a trilha lamuriosa do destino mas encontram sempre uma potência para prosseguir, redescobrindo-se. Mesmo que a encenação seja meio grosseira, e não seja tão acabado quanto EL TOPO ou A MONTANHA MÁGICA, esse último filme de Jodorowsky é incrivelmente iluminador, permanecendo como ato heroico desse grande artista e místico da cultura latino-americana. É um crime que um filme como esse não entre em cartaz nos cinemas de nosso pobre Brasil. Não encontra o seu espaço entre os 200 filmes nacionais que se estapeiam entre si e as 1000 telas que exibem o Homem Aranha 28.