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Cinecasulofilia

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quarta-feira, outubro 22, 2014

BODA BRANCA




BODA BRANCA

Ver esse filme de Brisseau após ter visto COISAS SECRETAS e A GAROTA DE LUGAR NENHUM nos faz rever a trajetória desse notável realizador. O argumento de BODA BRANCA a princípio não nos parece causar especial entusiasmo (um professor de meia-idade se apaixona por uma aluna bem mais jovem). Ao contrário, parece algo já visto, um tanto convencional. O roteiro, ainda mais para o fim, possui uma carga de melodrama exacerbado. O tratamento da mise-en-scene não possui nada de particular encanto. Brisseau não quer nos convencer que sabe filmar bem, ele apenas filma bem. Aqui, no final dos anos oitenta, não sabe mais o cinema da nouvelle vague, os arroubos do cinema moderno (câmera na mão, elipses, descontinuidades radicais, metalinguagem, autonomia dos movimentos de câmera). O que há, então, para ser visto em BODA BRANCA? O que o faz um filme tão notável e tão marcadamente pessoal?

Para tentar responder a isso, preciso - novamente - recorrer a uma crítica de Guiguet sobre o cinema de Pialat: "seu formidável impacto se dá a partir de sua deliberada recusa da arte; se ele não se faz belo, não busca a feiúra e à miséria.".

Ao citar esse texto, busco fazer uma ponte entre o cinema de Guiguet e o de Pialat, ou ainda, entre o cinema de Brisseau e o de Guiguet. Ou ainda, busco apontar para uma busca ética-estética dos cineastas de uma geração pós-nouvelle vague de meados dos anos setenta, que revalorizam uma dramaturgia de personagens, mas de uma forma mais sóbria, um pouco mais próxima em termos gramaticais do cinema narrativo clássico, mas que se revela moderno por complexificar a composição dos personagens, em evitar o moralismo, em se aproximar da alma e da epiderme desses pobres homens que buscam sobreviver. É o cinema de Garrel, de Guiguet, de Doillon, e também de Brisseau, entre alguns outros.

BODA BRANCA fala da decadência moral de um homem, seu caminho para a inevitável solidão. Isso acontece porque, pela primeira vez na vida, ele descobre o que é amar. Um professor de filosofia, que ensina aos seus alunos o que são os mistérios da vida e os fascínios do insconsciente. Ele, então, vai aprender, com sua aluna de 17 anos o que é viver. Da teoria à prática. Ele vai descobrir a sua miséria e a sua grandeza; a miséria e a grandeza de viver, de amar. De sofrer, de morrer. De magoar. Acontece que quando esse professor descobre o que é a vida talvez seja tarde mais. Falamos de liberdade, falamos de destino.

Acontece que, para falar isso, Brisseau procura se apegar ao que tem; o que ele tem é tudo, e isso basta, e assim, faz cinema. Essa é sua principal lição do cinema clássico. Ao mesmo tempo, desenvolve discretamente uma mise-en-scene que preenche cada plano do filme de uma desesperança, de um desencanto. Mas que ao mesmo tempo não acentua a miséria ou a desgraça de seu personagem. Nas palavras de Guiguet, não busca ser belo mas não busca ser feio. Ou ainda, busca uma beleza discreta, uma forma discreta de encenar, mas absolutamente notável.

É só pensarmos como a luz é usada no filme. Em como o professor vê sua aluna na cama logo após ter feito amor pela primeira vez.
É só pensarmos como a aluna e o professor correm para o carro ao sair da escola, e ela convence o professor a não dar carona para a secretária. Ambos correm de mãos dadas num grande plano geral em que vemos as árvores e os prédios da cidade no fundo.
É só pensarmos como, em determinado momento do filme, quando o professor a deixa e volta para casa, vemos um raro momento em que a câmera abandona esse professor, deixa a menina sozinha no quadro, e há um dolly-out que recua da casa.

Outra forma de falar nesse filme é pensar a crítica de João Cesar Monteiro sobre Gertrud, de Carl Dreyer. Ele cita uma frase de La Fontaine que diz " Aimer sans foutre c’est peu de chose / Foutre sans aimer ce n’est rien”.

Com isso, quero aproximar BODA BRANCA do cinema de Carl Dreyer, especialmente de GERTRUD. É preciso amar, é preciso o corpo do amante. Sem ele, não se é nada. É preciso apostar tudo no amor. Mas como isso é possível, se somos finitos, se temos passado, e temos obrigações no mundo? Ou como uma refilmagem de TUDO O QUE O CÉU PERMITE (o melodrama, o uso da luz, a fábula moral, o destino)?

BODA BRANCA pode ter passado despercebido no final dos anos oitenta, uma "década perdida", um mundo "sem utopias". O melodrama, esse gênero tão vulgar, tao desgastado. Os sentimentos. Como ainda poder encenar algo que nos afeta? Pensando BODA BRANCA em conjunto com a produção posterior de Brisseau vemos um cineasta absolutamente invulgar pela forma como vai trabalhar delicadamente alguns temas, que irão ser depurados, aprofundados, reavaliados. Em comum, uma abordagem fisolófica da vida que se aproxima de um folhetim. A necessidade e a dificuldade de amar. Como descobrir o amor é o início do filme. Como a juventude é passageira, uma chama que arde, bela, frágil, incontrolável. Como a velhice e a morte em algum momento irá abarcar tudo. Como tudo acaba. Mas fala disso por meio de um estilo sóbrio, de contenção cênica.

A GAROTA DE LUGAR NENHUM vai retomar o tema de BODA BRANCA, mas, mais de vinte anos depois, Brisseau irá realizar uma obra de pura contenção, ao mesmo tempo mais sóbria, mais consciente de seu fim, e, até mesmo por isso, paradoxalmente, mais esperançosa. Ou menos desesperançosa.

Talvez A GAROTA elucide um aspecto central da obra de Brisseau, talvez comum a BODA BRANCA, através de outra citação, e assim, chega, acabo meu texto. É uma citação de Van Gogh, feita na metade do filme: " Eu passo muito bem sem Deus, seja em minha vida seja na pintura. Mas, sofredor como sou, eu não passo sem algo que é maior do que eu, que é a minha vida: o poder de criar".

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